Editorial: Vítimas de Wall Street apontam para novos caminhos no mundo financeiro

Certamente é bom que o Departamento do Tesouro e o Banco Central dos EUA (Fed) tenham deixado o Lehman Brothers falir, não tenham interferido na problemática compra do Merrill Lynch pelo Bank of America e tenham tentado conseguir empréstimos para o Grupo Internacional Americano (AIG), ao invés de oferecê-los por si mesmos. A intervenção do governo teria sido vista como um sinal de extremo perigo no sistema financeiro internacional ou fraqueza por parte dos reguladores federais.

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Ao invés disso, os acontecimentos de Wall Street sugerem, pelo menos por enquanto, que o sistema pode ser forte o suficiente para absorver a queda de Lehman e Merrill e o caos na AIG. A reação inicial das bolsas de valores (uma queda abrupta, mas nada comparado à segunda-feira negra) também mostrou sinais de que o susto pode ser gerenciado. Mais importante ainda, ao impedir o risco de falhas consecutivas, os reguladores parecem finalmente dispostos a fazer Wall Street pagar por seus erros.

A falência de Lehman pode até mesmo gerar a transparência necessária a um sistema financeiro frustrado por mais de um ano pela falta de boas informações (sobre quem é dono do que, quem deve quanto e a quem). Os credores de Lehman e outras empresas envolvidas em seus negócios agora terão que se apresentar diante da corte de falência, detalhando suas posições diante de todos. Isso não aconteceu na primavera americana, quando o Fed impediu a falência do Bear Stearns para evitar o que disse que seria o colapso de todo o sistema.

Ainda assim, o desaparecimento de dois ícones do capitalismo americano em um final de semana tem repercussões negativas para os contribuintes e para a economia.

O Fed ampliou novamente seu programa de empréstimo emergencial para bancos da Wall Street, concordando em assumir danos colaterais arriscados e de pouca qualidade, como ações fracas. Isso coloca os contribuintes em maior risco. Lembre-se que o Fed já os colocou na linha de fogo ao oferecer US$ 29 bilhões em garantias para lidar com a crise Bear em março. Este mês, o Departamento do Tesouro prometeu fazer o necessário para salvar trilhões de dólares em obrigações da Fannie Mae e Freddie Mac.

Além desse enorme compromisso do governo, o enfraquecimento da economia aumentou as chances dos contribuintes terem que arcar com as contas pela queda de Wall Street. Conforme o desemprego aumenta continuamente este ano, a desapropriação de imóveis atingiu outra alta em agosto (304 mil casas em algum estágio do processo e 91 mil famílias desapropriadas, de acordo com o RealtyTrac, uma negociadora online de propriedades nesta situação).

Enquanto as desapropriações continuarem, os preços dos imóveis continuarão a cair e os bancos e outras empresas financeiras perderão dinheiro. A contínua perda, por sua vez, pode enfrentar uma maior evasão dos contribuintes, ao incendiar o temor de que as falhas recentes podem ameaçar todo o sistema financeiro. Impedir a desapropriação é a chave para estancar a crise, mas os políticos têm respondido lentamente a esse aspecto do problema.

Ainda não é tarde para diminuir a desapropriação permitindo que os donos dos imóveis reestruturem seus financiamentos numa corte de falência, mas isso exigirá vontade política. Também não é tarde para estimular a economia com apoio inteligente do governo, como a ajuda aos governos locais e estaduais, ao invés de gestos de ano de campanha como a isenção fiscal quase onipresente que dominou o primeiro pacote de estimulo econômico.

Certamente não é cedo demais para olhar além da crise e ver falhas e falácias da ideologia antirregulamentadora que mantém Washington refém desde os anos Reagan e permitiu os excessos financeiros que quase ruíram o sistema.

A criação e execução de novas regras se torna necessária, mas isso não será o suficiente. A nação precisa de uma nova perspectiva nos mercados, uma que reconheça o poder autodestrutivo do capitalismo desenfreado e sua capacidade, caso não seja delimitado, a gerar caos muito além de Wall Street.

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