Editorial: Transgressões fiscais de Geithner revelam fragilidade de sua indicação

A equipe do presidente eleito Barack Obama reagiu de maneira previsível à descoberta de que Timothy Geithner, indicado como secretário do Tesouro, não pagou grande parte de seus impostos federais nos últimos anos. O roteiro é o mesmo, com algumas variações, quando um indicado a cargos de alto escalão se envolve neste tipo de problema.

The New York Times |

Na terça-feira, quando a notícia foi veiculada no The Wall Street Journal, o gabinete de transição de Obama emitiu uma declaração afirmando que a falta de pagamentos não passou de "um erro honesto". Na quarta-feira, o próprio Obama disse que foi algo "inocente". Este tema foi ecoado por inúmeros senadores que irão conduzir a audiência de confirmação de Geithner, que está marcada para a próxima quarta-feira.

Por mais que Obama e sua equipe queiram, no entanto, a revelação não pode ser tão facilmente descartada. O relatório factual das transgressões fiscais de Geithner, reunido e divulgado pelo Comitê Financeiro do Senado, mostra uma cena de não cumprimento que é consideravelmente mais grave do que seus defensores querem reconhecer.

Geithner deve ser questionado sobre esta questão na audiência da próxima semana e suas explicações precisam ser plausíveis. Mesmo nos melhores tempos da economia, seria difícil aceitar um secretário do Tesouro (que, afinal de contas, está a encarregado do Internal Revenue Service, ou Serviço de Rendimento Interno)  com uma atitude  despreocupada em relação a pagar seus próprios impostos. Hoje, em um momento no qual a economia se encontra em perigo, a nação não pode se dar ao luxo de ter um secretário do Tesouro incapaz de atrair respeito e gerar confiança.

De acordo com o relatório, quando os impostos de Geithner para 2003 e 2004 foram auditados em 2006, os auditores descobriram que ele não havia pago o imposto de trabalhador autônomo naqueles anos. Para compensar, ele os pagou com juros (US$16.732).

Oficiais da equipe de Obama dizem que Geithner, que trabalhou no Fundo Monetário Internacional, cometeu um erro comum entre funcionários internacionais em Washington. Mas como o The Journal relatou na quarta-feira, deixar de pagar o imposto como trabalhador autônomo não é necessariamente comum entre funcionários sofisticados do FMI. Ao invés disso, um dos motivos para que o imposto seja amplamente ignorado é o fato dele ter que ser pago por funcionários de embaixadas e outros contratados de nível menor. Mesmo assim, o Comitê descobriu que Geithner havia assinado documentos no FMI que reconheciam a necessidade da contribuição.

A história não para aí. Geithner também deixou de pagar o imposto em 2001 e 2002. Estas contribuições, que o relatório diz que foram preparadas pelo próprio Geithner, não foram auditadas então ele não teve que pagá-las (o que gera a questão do por que ele não se voluntariou para corrigir este erro e pagar os impostos e juros quando foi auditado em 2006). Ao invés disso, ele esperou até que a equipe de Obama percebesse o valor faltante no ano passado (US$19.176 em impostos e US$6.794 em juros).

Um lapso parecido aconteceu em outra questão fiscal. Nos impostos de 2001, 2004 e 2005, Geithner declarou incorretamente gastos com viagens a acampamentos ao calcular os impostos de seu dependente. O contador que preparou seus documentos em 2006 o informou que pagamentos a acampamentos não eram despesas permitidas, mas novamente, ele não corrigiu as informações dos anos anteriores ao saber disso. O relatório não mostra o valor isolado deste imposto, mas juntamente com outros ajustes, Geithner deve US$4.334 e juros de US$1.232.

Muitas pessoas acham a declaração de impostos confusa, mas antes de seu emprego no FMI, Geithner era oficial do Departamento do Tesouro na gestão do presidente Clinton e nos últimos cinco anos ele foi o presidente do Federal Reserve Bank de Nova York. Com este perfil profissional, transgressões fiscais são difíceis de se perdoar.

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