Editorial: Taleban se posiciona a 97 quilômetros de Islamabad

Se o exército indiano avançasse e se posicionasse a cerca de 97 quilômetros de Islamabad, você pode apostar que o exército do Paquistão seria totalmente mobilizado e defenderia seu país em qualquer batalha.

The New York Times |

Ainda assim, quando o Taleban se aproximou da capital na sexta-feira, invadindo o importante distrito de Buner, as autoridades paquistanesas enviaram apenas algumas forças com poucos equipamentos.

No domingo, forças de segurança relataram um retrocesso. O último avanço do Taleban é um lembrete assustador de que a maioria dos paquistaneses (de civis de alto escalão a líderes militares e cidadãos comuns) ainda não entendem a ameaça mortal que estes militantes representam para sua frágil democracia. Além disso, é outro alerta a Washington para que não perca tempo permitindo tal negação.

Os paquistaneses não precisam olhar muito longe para ver como a vida seria sob o comando do Taleban. Desde que um acordo de paz apoiado pelo exército concedeu o Vale de Swat aos militantes, o Taleban fomentou revolta de classes e aterrorizou a região punindo atividades "não islâmicas" como a dança e a frequência de meninas à escola.

Quanto mais território o Paquistão ceder aos extremistas, mais espaço o Taleban e a Al-Qaeda terão para lançar ataques contra os Estados Unidos e as forças da Otan no Afeganistão.

E (mais assustador ainda) se o exército não conseguir ou quiser defender seu próprio território contra os militantes, como podemos saber que irão proteger as cerca de 60 bombas nucleares do Paquistão?

A secretária de Estado Hillary Clinton estava certa na semana passada quando alertou que o Paquistão está "abdicando ao Taleban". Líderes militares americanos também passaram se manifestar, mas por tempo demais eles insistiram que o general Ashfaq Parvez Kayani, líder do exército paquistanês, reconhecia a gravidade da ameaça. Nós certamente não vimos isso.

Na sexta-feira, mesmo enquanto Kayani insistia que a "vitória contra o terrorismo e a militância será conquistada a qualquer preço", ele continuava a defender o acordo de Swat. No domingo, oficiais do governo insistiram novamente que o acordo permanece forte apesar das óbvias violações do Taleban. Kayani reclama que suas tropas não têm as ferramentas adequadas para confrontar os militantes, como helicópteros e óculos de visão noturna.

O exército deveria ter usado parte dos cerca de US$ 12 bilhões que recebeu de Washington nos último sete anos para fazer exatamente isso, ao invés de gastar o dinheiro em equipamentos e treinamento para combater a Índia. A próxima rodada de ajuda deve incluir estes itens mas exigir que sejam usados no combate aos militantes.

Os fracos líderes civis paquistaneses, inclusive o presidente Asif Ali Zardari e o líder da oposição Nawaz Sharif, são cúmplices nesta perigosa farsa, gastando energia em rivalidades políticas. Eles precisam persuadir Kayani a mudar pelo menos parte de seu foco e muito mais recursos das fronteiras com a Índia para as fronteiras com o Afeganistão.

As coisas não estão muito fáceis no lado americano também. O presidente Barack Obama estava certo em reconhecer a necessidade de uma estratégia integrada lidando tanto com o Afeganistão quanto com o Paquistão. Mas sua equipe tem muito mais trabalho pela frente, inclusive encontrando formas de fortalecer o governo paquistanês e sua vontade política.

O Congresso está lidando com dois projetos diferentes que aumentariam a ajuda ao Paquistão. Qualquer deles que prevalecer deve instaurar pontos de referência claros, especialmente em relação aos gastos militares. Como o Paquistão, Washington não pode gastar mais tempo tentando entender o caminho adiante - não com o Taleban a 97 quilômetros de Islamabad.

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