Editorial - Resgates intermináveis colocam nacionalização no vocabulário americano

Os americanos acordaram na segunda-feira com a notícia de que oficiais federais gastaram mais um final de semana planejando outro resgate. Desta vez, o Departamento do Tesouro de Obama (parecendo o Departamento do Tesouro de Bush) prometeu outros US$30 bilhões ao American International Group. Esta é a quarta vez que os contribuintes são chamados a arcar com a ruína do AIG. Com esta ajuda, o compromisso de resgate desta companhia chega a US$160 bilhões.

The New York Times |

Em uma declaração conjunta com o Federal Reserve na segunda-feira, o Tesouro justificou a medida dizendo que "o possível custo da inércia nesta questão para a economia e os contribuintes pode ser extremamente alto".

Esta é a racionalização de qualquer resgate. O que ninguém está dizendo (o pessoal de Bush não dizia e a equipe de Obama parece ter feito o mesmo juramento de silêncio de Wall Street) é quais companhias seriam ameaçadas pela falência do AIG. O Tesouro e o Federal Reserve afirmaram em sua declaração que o AIG é uma "significativa parceira de inúmeras instituições financeiras".

Isso significa que, ao autorizar o AIG a evitar a falência, os contribuintes também estão resgatando quem exatamente?

Não saber esta informação não é aceitável. A esta altura da crise ninguém argumenta que o governo deva deixar o AIG falir desordenadamente, mas a questão está por demais interligada. Durante a bolha imobiliária, a companhia usou de derivativos desregulamentados para emitir seguros a hipotecas que se mostraram tóxicas (sem deixar de lado reservas caso elas não pudessem ser pagas). Caso falissem, haveria uma onda de desapropriações catastrófica movida pelos bancos que mantém as garantias e investimentos relacionados ao grupo.

Os resgates do AIG falham nos princípios de transparência: Quem recebe o dinheiro? Grandes instituições financeiras não são vítimas inocentes dos problemas do AIG. Eles são investidores sofisticados e deveriam saber os riscos que corriam (e quem lucrou do relacionamento antes de tudo ruir).

Seja quem forem os recipientes, eles devem ser investigados por seu papel na crise e, até onde possível, obrigados a pagar pelos resgates.

A série de resgates do AIG é especialmente problemática por sua relação com o banco de Goldman Sachs de Wall Street. No momento do primeiro resgate do AIG no outono passado, foi reportado por Gretchen Morgenson no The New York Times que Goldman era o maior parceiro do AIG, com cerca de US$20 bilhões de negócios alinhados com a seguradora. Goldman disse que sua exposição ao risco do AIG foi deslocado, ou protegido, por outros investimentos.

O que está certo é que Goldman tem muitos amigos em altos escalões (mais um motivo pelo qual este resgate tem que ser o mais transparente possível). Lloyd Blankfein, chefe executivo do Goldman, foi o único executivo de Wall Street presente na reunião de setembro no Federal Reserve de Nova York para discutir o resgate inicial do AIG. Também envolvido na discussão estava o então chefe do Fed, Timothy Geithner, que agora é secretário do Tesouro do presidente Barack Obama.

Também está terrivelmente claro que mais dos mesmos resgates estão falhando em restabelecer a estabilidade e confiança. Os mercados mundiais despencaram na segunda-feira. Um coro cada vez maior de economistas e comentadores (inclusive esta página) pede que a gestão Obama adote uma solução mais ampla: uma reestruturação governamental, ou nacionalização.

O governo não apenas assumiria a propriedade de companhias que precisam de resgates contínuos (como AIG e Citigroup) mas também o controle direto dos mais fracos. Assim, conseguiria uma análise realista dos problemas e reformaria suas finanças antes de retorná-los ao setor privado, onde seriam menores e mais saudáveis e poderiam voltar a emprestar dinheiro.

Nós sabemos que muitos americanos não se sentem confortáveis com a palavra nacionalização (principalmente os políticos) Mas cada novo resgate de antigos perdedores apenas alimenta a desconfiança do governo e enfraquece o apoio público às decisões ainda mais difíceis que precisam ser tomadas.

Leia também:


Leia mais sobre AIG

    Leia tudo sobre: aig

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG