Editorial: Resgate americano solucionou apenas metade do problema financeiro do país

Uma semana depois do grande resgate americano, os bancos começaram a cobrar menos pelos financiamentos e as empresas perceberam que conseguir empréstimos a curto prazo está mais fácil. O Dow oscilou nos últimos dias mas, até agora, voltou a se manter acima dos 9 mil pontos. Então, o pior passou? Provavelmente não.

The New York Times |

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A infeliz realidade é que enquanto milhões de americanos continuarem a deixar de pagar suas hipotecas e o preço dos imóveis continuar em queda, os bancos irão sofrer grandes perdas. A menos que algo seja feito rapidamente para ajudar os donos de imóveis a evitarem a desapropriação de suas casas, essas perdas podem dizimar a tentativa de resgate ao exceder a quantia gasta para salvar os bancos.

Apesar do perigo representado pelas desapropriações (ao resgate, donos de imóveis, contribuintes e à própria economia), a gestão Bush e o Congresso ainda esperam que os bancos e outros participantes do setor de financiamento voluntariamente modifiquem as hipotecas em dificuldades, dando aos donos de imóveis mais tempo para pagar ou reduzindo os juros sobre os empréstimos.

Essa postura voluntária não foi o suficiente para impedir as desapropriações até então. Assim, cerca de 3,2 milhões de donos de imóveis irão perder suas casas para a desapropriação este ano e no próximo. Além disso, milhões de pessoas irão lutar para evitar isso.
Casas vazias e a falta de pagamento das hipotecas continuarão a baixar o preço das casas; elas já caíram 20% em todo o país e agora devem cair outros 10%. Não há tempo a perder para evitar essa situação.

Infelizmente, a lei do resgate não exige que os bancos modifiquem as hipotecas em troca da injeção do dinheiro dos contribuintes. Isso significa que essa gestão e o Congresso terão que aumentar a pressão política sobre instituições financeiras forem beneficiadas pelo governo. O Departamento do Tesouro também deve criar uma equipe para modificar as hipotecas que caírem em suas mãos por causa do resgate.

Tanto John McCain quanto Barack Obama reconheceram que essa crise não será solucionada até que se descubra uma forma de manter mais americanos em suas casas.

O plano de McCain (comprar as hipotecas em dificuldades dos bancos e substitui-las por outras de valores abaixo do mercado) pode soar humana, mas seria um gasto injustificável do dinheiro dos contribuintes. Nele, o financiador não teria que aceitar qualquer perda antes do governo assumir um empréstimo ruim.

Obama tem uma idéia melhor. Ao invés de esperar apenas que os bancos tomem uma atitude certa, ele apoia leis que permitiriam que juízes de falência modificassem os empréstimos para os beneficiários. Isso faz muito mais sentido. A maioria das financiadoras iria preferir modificar os empréstimos ao invés de ter que ir à corte. Mas essa ideia enfrenta enorme oposição política e, mesmo se aprovada, ajudaria apenas 500 mil donos de imóveis (ao contrário dos milhões em dificuldades).

Obama também pediu que as agências federais trabalhem junto com os Estados para modificar as hipotecas. Promotores de 11 Estados recentemente impuseram o primeiro programa obrigatório de alteração de hipotecas sobre o Countrywide Financial como parte de um acordo legal pelo que consideraram financiamentos predatórios. Cerca de 400 mil beneficiários receberão US$8,4 bilhões em alívio direto por empréstimos, como a redução dos juros. Outras ações e acordos podem levar a mais modificações e, com elas, a um sistema financeiro mais estável.

Ainda assim, podemos chegar ao ponto, no começo da próxima gestão, em que o presidente e o Congresso terão que exigir que as financiadoras modifiquem as hipotecas ruins e assumam a perda.

Modificações obrigatórias, falência, processos são coisas que não agradam ninguém, mas também são ferramentas contra um problema difícil. O resgate lidou apenas com metade do problema: o congelamento do crédito. A menos que o governo lide de forma igualmente agressiva com as desapropriações, o sistema provavelmente irá enfrentar o abismo novamente.

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