Editorial: Relatório da CIA revela necessidade de ampla investigação sobre a era Bush

A gestão Obama adotou medidas importantes para consertar os dolorosos danos que o presidente George W. Bush fez aos Estados Uindos com suas políticas de detenção ilegais e moralmente repugnantes.

The New York Times |

O presidente Barack Obama está comprometido em fechar a prisão de Guantánamo e a estabelecer tribunais legítimos para julgar os detentos. Ele rescindiu as ordens executivas e as decisões legais que Bush usou para justificar o abuso de prisioneiros.

O Departamento de Defesa deu o importante passo de inverter políticas e notificar ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha as identidades dos militantes que foram detidos em prisões secretas no Iraque e Afeganistão. Além disso, o procurador-geral Eric Holder designou um promotor para investigar a interrogação de prisioneiros da CIA, cujo tratamento desumano foi detalhado em um relatório de secreto escrito pelo inspetor de geral da agência em 2004 e divulgado na segunda-feira.

Mas apesar destas medidas individuais louváveis, Obama e seus conselheiros políticos continuam evitando uma ampla investigação a respeito do total descaso de seu antecessor com os direitos humanos, liberdades civis e proteções judiciais que permitiriam que este país garantisse que esta sórdida história realmente ficou para trás.

Na verdade, a gestão parecia relutante em tornar público o relatório da CIA que foi divulgado sob uma ordem judicial e amplamente censurado, com páginas inteiras cobertas (inclusive as quatro páginas de recomendações). Antes de Holder anunciar sua investigação, a Casa Branca deixou claro que não está feliz com sua decisão (repetindo a frase tristemente familiar: "olhar para frente, não para trás").

Holder demonstrou coragem e integridade ao exigir a investigação. Mas ele deixou claro que ela será limitada às interrogações específicas esboçadas no relatório da CIA e não chegará a ser uma investigação criminal sobre as políticas adotadas na era Bush.

Os interrogatórios certamente merecem uma investigação criminal. O relatório descreve práticas censuráveis e cruéis, como o afogamento. Entre elas estavam desde ameaças a família de um prisioneiro - até mesmo a morte de seus filhos - e representação de execuções falsas até o bloqueio da artéria carótida dos prisioneiros até que eles desmaiassem.

O relatório afirma que os interrogatórios seguiram diretrizes aprovadas pelo Departamento de Justiça de Bush, que se dedicou a encontrar formas de autorizar o abuso e evadir a responsabilidade legal. Mas ofereceu uma condenação severa dessas diretrizes, que disse divergirem "nitidamente" das práticas de interrogadores policial e militares, e das posições de quase todo o mundo, inclusive do Departamento de Estado, Congresso, outros governos Ocidentais e grupos de direitos humanos.

O inspetor-geral disse que, em alguns casos, os interrogatórios excederam até mesmo os padrões escandalosamente negligentes do Departamento de Justiça de Bush.

O relatório representa uma razão ainda mais convincente para uma investigação mais ampla sobre o comportamento ilegal de Bush. É possível simpatizar com o desejo de Obama de evitar uma investigação politicamente carregada. Mas a necessidade de colocar este país de volta sob as determinações da lei não é menos urgente do que quando ele prometeu fazer isso durante sua campanha.

Isso não será conquistado através de investigações individuais sobre os interrogadores. Mas irá exigir uma análise destemida de como as ordens foram emitidas a esses homens e quem as deu. Apenas responsabilizando os oficiais, os americanos poderão ter certeza que os futuros presidentes não se sentirão livres para agir como Bush.

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