Editorial: Reforma imigratória pode recuperar valores americanos

Uma cena dos últimos dias da gestão Bush: em uma tarde de neve no fim de semana passado, uma igreja da cidade de Nova York estava lotada com mais de 1 mil pessoas. Pais segurando bebês, adolescentes, idosos e mulheres com casacos pesados e bengalas. Eles murmuravam e gritavam em adoração, um teclado e uma guitarra elevavam suas vozes ao teto ovalado do prédio.

The New York Times |

A música tinha uma leveza ensurdecedora, mas conforme os fiéis davam um passo adiante para falar, seu testemunho era pesado e cheio de dor. Eles falavam sobre famílias aterrorizadas e divididas.
Uma jovem mulher do Paquistão descreveu o tratamento humilhante que recebeu no centro de detenção Elizabeth, em Nova Jersey, onde foi enviada com sua mãe e pai doente. Uma mãe contou sobre seu filho, um sargento do Exército e cidadão, que perdeu a mulher para a deportação. Um homem mexicano, com um desafio teatral, sacodiu um sapato contra as forças invisíveis que o impediram de se tornar um imigrante legal.

É difícil parecer sinistro em uma igreja e a congregação da Iglesia La Sinagoga, um centro Pentecostal que fica na Rua 125 no bairro de Harlem, parecia terrivelmente comum. Mas como os imigrantes sem documentos e seus entes queridos, ela é o grande alvo da guerra da gestão Bush contra a imigração.

Famílias como estas tiveram que enfrentar uma infindável campanha de intimidação e expulsão, organizada nos altos escalões do governo federal e delegada aleatóriamente a governos estaduais e municipais.

A campanha foi desproporcional e cruel. A evidência disso está em todo lugar.

Na segunda-feira, o The Times reportou que processos federais contra a imigração aumentaram muito nos últimos cinco anos, sobrecarregando cortes com casos pequenos contra pessoas que cruzaram a fronteira ilegalmente, que são julgadas e condenadas em grupos de 40 a 60 em nome da eficiência. Ao mesmo tempo, processos contra armas, crime organizado, corrupção pública e drogas diminuíram. O promotor geral do Arizona afirmou que a situação é "uma abdicação nacional do Departamento de Justiça".

Na última semana, o promotor geral Michael Mukasey, em uma alarmante decisão de última hora, declarou que imigrantes não têm direito constitucional a um advogado no processo de deportação e assim não têm direito à apelação por conta de uma má representação legal. Mukasey reverteu uma prática de décadas criada para garantir uma robusta proteção constitucional aos imigrantes (ainda mais necessária agora do que nunca, diante dos processos de linha de montagem da gestão Bush).

O evento na igreja Pentecostal foi organizado por ministro locais e políticos democratas para impulsionar a reforma imigratória este ano.

Pode ser algo difícil. Ouvimos pouco a respeito de uma reforma imigratória do presidente eleito Barack Obama durante a campanha eleitoral (e quase nada dos líderes do país desde então). Mas os Estados Unidos não podem colocar a imigração debaixo do tapete e simplesmente continuar com o atual regime. Os custos são altos demais para os valores deste país. Altos demais para a economia.

Defender os direitos dos imigrantes defende os padrões de todos os locais de trabalho. Trabalhadores que se submetem a tudo por medo, em famílias que são destruídas pela deportação e fiscalizações agressivas, são mais capazes de prejudicar outros ao aceitar salários menores e condições miseráveis.

Restaurar a proporcionalidade e o bom senso ao sistema de justiça criminal também libera recursos para combater crimes sérios. O mais importante, reparar um sistema envolto por prioridades políticas em caçar e punir as pessoas erradas (como aqueles que levaram sua dor à igreja Pentecostal) ajudaria a restaurar o senso de valor deste país e a nos lembrar de quem somos.

Leia mais sobre imigração

    Leia tudo sobre: imigração

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG