Editorial: Programas de tortura da era Bush devem passar por investigação

Quando era vice-presidente, Dick Cheney nunca reconheceu o direito do público de saber nada. Agora, repentinamente, ele pegou o vírus da abertura política. Ele disse à Fox News esta semana que a decisão do presidente Barack Obama de divulgar os memorandos escritos pelo Departamento de Justiça de Bush autorizando o abuso e a tortura de prisioneiros o inspirou a pedir à CIA que divulgue as transcrições destes interrogatórios.

The New York Times |

Fazer isso, segundo ele, mostraria ao mundo quanta informação valiosa foi obtida através de práticas como a nudez forçada, períodos prolongados sem sono, batidas contra paredes, extremos de calor e frio e o quase afogamento.

Cheney não foi completamente honesto (ele fez o pedido no mês passado), e sua lógica é confusa. Se divulgar os memorandos deixa os Estados Unidos vulneráveis a um ataque terrorista devastador (como ele afirma) imagine o potencial de perigo da divulgação dos segredos revelados pelos três terroristas mais "valiosos" que foram capturados desde 11 de setembro de 2001.

Ainda assim, Cheney mencionou um ponto importante. Será que violar a lei contra tortura e abuso, abandonar tratados internacionais e destruir a posição da América teve algum benefício? 

Cheney alega que a prática do afogamento salvou milhares de vidas. A maioria dos relatos que não vem de oficiais envolvidos na criação desta política sugere que isso não é verdade. A questão precisa ser respondida para que os americanos possam decidir se querem aceitar a opinião de Cheney de que os fins sempre justificam meios bárbaros. 

Os americanos também precisam saber quem pressionou os advogados do Departamento de Justiça para modificar a lei e a Constituição para tornar a tortura aceitável. Além disso, precisamos saber qual a argumentação legal, se existe alguma, por trás da decisão do ex-presidente George W. Bush em autorizar a espionagem telefônica e online de seu próprio povo.

Nós precisamos saber qual a argumentação legal, planejamento e autorização por trás do programa de Bush para a "interpretação extraordinária" - na qual pessoas eram raptadas e enviadas a países nos quais era óbvio que seriam torturadas.

Até que estas questões sejam respondidas, não há como garantir que estes abusos não irão se repetir. A única forma de conseguir estas respostas é com uma investigação completa. 

O relatório sobre o abuso cometidos contra prisioneiros no Iraque, divulgado pelo Comitê de Serviços Armados do Senado esta semana, mostrou como as decisões tomadas na Casa Branca a respeito do abuso de prisioneiros levaram diretamente aos eventos de Abu Ghraib.

Entre os documentos que ainda precisam ser divulgados está um relatório do Departamento de Justiça sobre os advogados que escreveram as desculpas para a tortura. Ele foi concretizado no ano passado, mas mantido em sigilo pelo então procurador geral Michael Mukasey, que optou por dar aos próprios advogados a chance de ler e corrigir o documento. A CIA também deveria divulgar o relatório de seu inspetor geral sobre o abuso de prisioneiros. 

Foi encorajador ver Obama, que tem resistido a uma análise séria sobre estes abusos, praticamente convidar o Congresso a abrir uma investigação. Ele também não excluiu a possibilidade de processos criminais, pelo menos para os advogados e oficiais envolvidos. 

Entregar isso ao Congresso não foi um ato de bravura política, mas pelo menos a Casa Branca reconhece que uma investigação será necessária e não quer ficar no caminho disso. Não conseguimos imaginar como uma investigação desta poderia seguir adiante sem o testemunho de Cheney. Mas com o recente apoio do ex-vice-presidente à abertura política, temos certeza que ele compareceria.

Leia mais sobre tortura

    Leia tudo sobre: tortura

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG