Editorial: Programa do governo americano oferece pouca esperança a donos de imóveis

A queda nos preços das casas impulsionaram o colapso do sistema financeiro, mas o plano de resgate, mesmo na versão adocicada aprovada pelo Senado na noite de quarta-feira, faz pouco para evitar a inadimplência e as desapropriações que abaixam o preço dos imóveis.

The New York Times |

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Na última contagem, se esperava que 6 milhões de pessoas deixassem de pagar suas hipotecas este ano e no próximo, correndo o risco de perder suas casas a menos que consigam voltar a pagá-las ou encontrem uma falha nos termos de seu contrato de financiamento. E eles não são os únicos em risco. Conforme os preços caem, milhões de pessoas que nunca atrasaram sua hipoteca podem perder o valor de seu imóvel.

Deixar estes americanos fora do plano de resgate não é sábio nem justo, mas nem o Congresso nem a gestão Bush mostraram alguma preocupação em salvar os donos de imóveis que estão na base da crise ao estender a mão aos financistas no topo dela.

Analise, por exemplo, o novo programa do governo que entrou em vigor na quarta-feira com o objetivo de ajudar cerca de 400 mil proprietários a manterem seus imóveis. Antes mesmo de começar, o programa (intitulado Hope for Homeowners, ou Esperança para os Proprietários de Imóveis) parecia fadado ao fracasso.

Neste programa, o governo garantirá até US$300 bilhões em empréstimos novos e mais acessíveis para financiados em dificuldades. Para que o empréstimo funcione, no entanto, os financiados precisam primeiro renegociar hipotecas com problemas reduzindo o excedente do empréstimo em 90% do valor de mercado atual do imóvel.

Em troca, as financiadoras conseguiriam evitar os gastos da desapropriação e a incerteza de receberem o dinheiro devido. O governo evitaria os danos sociais e econômicos de outras desapropriações, com suposto baixo risco para os contribuintes.

Há apenas um problema. Numa audiência no Congresso em setembro, as financiadoras se mostraram receosas em participar do novo programa (aparentemente relutantes em assumir as perdas que virão com a redução dos excedentes).

As financiadoras, como JPMorgan Chase, Bank of America, Wells Fargo e CitiMortgage, uma unidade do Citigroup, disseram estar adotando outras medidas para ajudar financiados em dificuldades, como reduzir os juros em contratos existentes. Isso ajuda, mas as tentativas da indústria não são o suficiente: inadimplência e desapropriações continuam a atingir as tentativas de se negociar empréstimos ruins.

Conforme o preço dos imóveis cai, a mudança mais efetiva seria reduzir o excedente, caso contrário os financiados terão que pagar valores maiores do que o da propriedade. Este fardo pode se tornar insuportável quando combinado com desemprego ou menos horas de trabalho ou custos inesperados como contas médicas.

Há dois lados nessa bagunça nas hipotecas. O setor financiador, em busca de taxas adiantadas, deliberadamente fez empréstimos para pessoas que não poderiam arcar com as despesas ao longo do tempo. Eles justificaram suas ações com base na prerrogativa autoregulatória de que o aumento no preço dos imóveis iria para sempre adiar o dia da prestação de contas.

Muitos financiados (de forma ingênua, tola ou egoísta) aceitaram estes empréstimos. Ainda assim, pouco mais de um ano depois da crise das hipotecas, as financiadoras ainda dão as ordens, como se fossem vítimas de seus clientes.

O Congresso poderia mudar essa dinâmica ao consertar a lei de falência para que permita que as cortes modifiquem hipotecas em risco. Mas os legisladores têm medo de cobrar a indústria. Ao invés disso, eles oferecem Esperança para os Proprietários de Imóveis, que está longe de ser o que anuncia.

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