NOVA YORK - Era de se esperar que os tumultos por comida no Egito e Haiti convenceriam as nações mais ricas do mundo da necessidade de fazer algo mais para alimentar os pobres. Caso contrário, pelo menos a ameaça de 100 milhões de pessoas a mais caírem na pobreza devido ao alto preço dos alimentos faria com que tomassem uma atitude.

Mesmo assim, na cúpula sobre alimentos da ONU na semana passada, as nações mais desenvolvidas do mundo provaram mais uma vez que a política impede tanto as preocupações humanitárias quanto os cálculos estratégicos.

Durante o último ano, os preços dos grãos e óleos vegetais quase duplicaram. O arroz aumentou mais de 50%. As causas incluem o alto preço da energia, a seca em grandes pólos agrícolas, como a Austrália, e o aumento da demanda de uma classe média burguesa na China e Índia. Mas a postura e subsídios errôneos dos Estados Unidos e Europa, que favorecem a produção de energia a partir das colheitas, também faz parte do problema.

O Fundo Monetário Internacional estima que o biocombustível -principalmente aquele extraído do milho norte-americano- é responsável por quase metade do aumento da demanda mundial por colheitas de alimentos no ano passado. Cerca de um terço da colheita de milho do país será direcionada à produção de etanol esse ano.

Mesmo assim, durante a cúpula em Roma a administração Bush insistiu que o etanol não tem um papel significativo no aumento dos preços dos alimentos e evitou lidar com pedidos para limitar a conversão de alimentos em combustível. Os Estados Unidos não estavam sozinhos.

O Brasil, que tem uma enorme indústria de etanol baseada na colheita de cana-de-açúcar, também rejeitou as exigências em diminuir a produção de etanol. A Argentina se opôs a acabar com impostos de exportação que, assim como outros países, criou para diminuir a saída de alimentos de seu território. Os Estados Unidos e a Europa também rejeitaram a sugestão de que seus subsídios agrícolas devem ser culpados pela queda em investimentos agrícolas em países mais pobres.

Hoje, a produção agrícola em grande escala na África é menor do que há 50 anos. A produtividade caiu vertiginosamente na Índia, Indonésia e China.

Diversos países prometeram mais ajuda humanitária em resposta à crise, mas isso não é o suficiente. A administração Bush quer aumentar a assistência para US$ 5 bilhões nos próximos dois anos.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, há 37 países em situação crítica em relação aos alimentos. Muitos precisam mais do que comida, mas também sementes e fertilizantes para plantar.

De acordo com o secretário-geral da ONU Ban Ki-moon, a produção mundial de comida precisa aumentar 50% até 2030. Isso exigirá investimentos entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões por ano nas economias agrícolas dos países pobres, incluindo pesquisas de plantações mais robustas, altamente bem-sucedidas, que funcionem melhor em regiões da pobres como a África subsaariana.

Depois do 11 de setembro, as nações mais ricas do mundo viram um ligação entre a fome, a alienação e o terrorismo. Elas ofereceram um acordo para eliminar os subsídios agrícolas e as tarifas que tiravam os fazendeiros de países em desenvolvimento do mercado e os condenava à pobreza. Sete anos depois as tarifas e subsídios ainda estão por aqui.

Uma das coisas mais úteis que os países industrializados podem fazer seria cumprir sua promessa e acabar com os gordos subsídios que fornecem a seus fazendeiros não importa qual seja a situação do mercado. Esses subsídios afetaram os preços dos alimentos durante anos e desencorajaram o investimento na agricultura no mundo em desenvolvimento.

Em um mundo de crescente demanda e fome, isso não tem justificativa.

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