Editorial: Os sunitas e a eleição iraquiana

Esperávamos que as eleições parlamentares do dia sete de março mostrariam a crescente maturidade da frágil democracia do Iraque e colocariam o país em um caminho estável, conforme as tropas americanas se preparam para a retirada planejada. Ao invés disso, o processo infelizmente tem se mostrado injusto e reanimado tensões sectárias.

The New York Times |

A Comissão de Prestação de Contas e Justiça do Iraque soltou uma bomba eleitoral este mês ao desqualificar cerca de 500 (de 6.500) dos candidatos - muitos deles proeminentes sunitas muçulmanos - por causa de supostos elos com o Partido Baath, de Saddam Hussein. Entre os que tiveram que abandonar a disputa estão: o ministro da Defesa Abdul-Kader Jassem Al-Obeidi e Saleh al-Mutlaq, um dos mais influentes políticos sunitas iraquianos. A decisão foi ratificada na semana passada pela comissão eleitoral do país.

Os sunitas estão compreensivelmente furiosos. Depois de boicotar ou batalhar contra os governos xiitas dos últimos sete anos, líderes sunitas têm lutado para encontrar um novo papel construtivo.

Os piores cúmplices de Saddam devem ser responsabilizados pela antiga repressão. Mas há pouca dúvida de que muitos, se não a maioria, dos desqualificados têm motivos políticos para privar os sunitas de seus direitos. Embora Al-Mutlaq abertamente peça apoio aos admiradores de Saddam, ele pode concorrer ao Parlamento em 2005. E Al-Obeidi trabalhou com competência - e lealdade - como ministro da Defesa.

A Comissão de Prestação de Contas é a sucessora da destrutiva comissão de des-Baathificação que tentou manter qualquer um que tivesse elos com Saddam fora do governo. Seu chefe, Ali Faisal Al-Lami, não é um juiz imparcial. Ele é candidato da chapa eleitorial liderada pelo líder xiita Ahmed Chalabi, uma força implacavelmente ambiciosa na política iraquiana que levou a gestão Bush à invasão de 2003 e quer ser primeiro-ministro do país.

Tanto a comissão de prestação de contas quanto a comissão eleitoral fazem parte do governo do primeiro-ministro Nouri Kamal Al-Maliki e ele emitiu uma declaração que apoia suas decisões. Mas autoridades americanas dizem que Chalabi é o principal manipulador. A absurda acusação de Chalabi de que os Estados Unidos querem recolocar o Partido Baath no poder é típica de sua política divisória e destrutiva.

Há outros motivos para o fracasso do processo. Muitos iraquianos questionam a legalidade das comissões e de seus procedimentos, inclusive uma inquietante falta de transparência sobre quem foi desqualificado e porque. A habilidade de proibir os candidatos é uma autoridade séria que deve ser exercitada abertamente, judiciosamente e raramente.

A gestão Obama precisa continuar a pressionar os iraquianos para que cheguem urgentemente a um acordo que permitiria uma lista mais ampla de candidatos, incluindo Al-Mutlaq e Al-Obeidi.

O governo americano ainda tem influência sobre Bagdá - inclusive por causa dos bilhões em ajuda e a capacidade de cumprir ou negar os desejos do governo iraquiano em comprar armas sofisticadas como aviões F-16. E deve usar essa influência.

Os iraquianos aprenderam o severo jogo da política. Isso é de longe muito melhor do que lutar nas ruas. Mas deveria significar disputas contra os adversários nas urnas e não negar sua chance de concorrer.

Se os sunitas forem arbitrariamente excluídos, toda a eleição será comprometida. Pior ainda, os sunitas podem concluir, mais uma vez, que não há espaço para eles na política iraquiana. Isso seria um desastre.

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