Editorial: Os desafios de John McCain para abandonar o legado Bush

No final desta semana a Convenção Nacional Republicana irá indicar formalmente o senador John McCain para disputar a Casa Branca com Barack Obama. Não se pode invejar McCain, cujo fardo intoxicado pelo legado Bush inclui uma economia fragilizada, uma sociedade cada vez mais desigual e uma guerra desnecessária que custou inúmeras vidas, dinheiro e a reputação da liberdade civil proclamada pela América.

The New York Times |

A tarefa de McCain é convencer os americanos de que votar nele não significa apostar novamente na ideologia e incompetência do presidente Bush. Este é um desafio enorme e somente sua performance na convenção poderá nos mostrar se ele está à altura.

A semana de McCain foi complicada pelo furacão Gustav , que fez com que o presidente Bush e o vice-presidente Dick Cheney cancelassem seus planos de aparecer em Saint Paul, Minnesota, na segunda-feira. Isso livrará o republicano de ter que prestar homenagem aos homens de cuja sombra tenta desesperadamente escapar (e o presidente fez a coisa certa ao reagir a um desastre iminente).

Mas a chegada do Gustav irá relembrar os americanos de um dos capítulos mais vergonhosos da presidência Bush - sua resposta imperdoavelmente despreocupada ao furacão Katrina, que simbolizou a incompetência, favoritismo e cegueira ideológica da gestão Bush. Anos depois, Bush não fez esforço algum em tentar manter sua promessa de lidar com a ampla pobreza e o racismo expostos pelo Katrina.

Para McCain, caso sua convenção ocorra conforme planejado, não será o suficiente simplesmente jogar iscas ideológicas aos delegados. De acordo com uma pesquisa realizada pelo "The New York Times" em conjunto com a rede CBS, eles estão à direita do país e até mesmo dos republicanos. Estes delegados não têm para onde ir.

Ele poderia fazer a si mesmo um favor e se esforçar em reconquistar a afeição dos moderados e independentes que admiram sua coragem pessoal, competitividade e ocasional vontade de abandonar a ortodoxia do partido e se arriscar legislativamente.

O problema, é claro, está além de algumas poucas questões, McCain compartilha os valores de Bush e suas opiniões. Ele não apenas defende a guerra no Iraque como uma necessidade estratégica, mas também atrasa até mesmo esta gestão com sua indisposição em adotar uma agenda de retirada. Já tendo se oposto às isenções fiscais de Bush aos ricos, agora ele as apóia. Sua política energética de perfurar petróleo parece ter saído da caneta de Dick Cheney.

Suas táticas de campanha também estão repletas de pequenos desvios desde que ele entregou sua operação aos assistentes de Karl Rove, passando assim a adotar comerciais juvenis que comparam Obama a uma celebridade, erguendo a bandeira do medo ao dizer que Obama quer "perder" no Iraque e usando a raça ao acusar infundadamente o democrata de usá-la.

Ninguém pode dizer que a política é um jogo de cavalheiros ou que os republicanos, em particular, não tenham lucrado de táticas agressivas. Ainda assim, faz falta o John McCain que costumava se orgulhar de estar acima deste tipo de coisa e que ficou devastado com as táticas sujas que Bush usou nas primárias de 2000. Seria difícil imaginar o McCain pré-2008 acusando algum oponente de comportamento não patriótico da forma que permitiu sua campanha retratar a oposição de Obama à guerra.

Há outros aspectos do antigo McCain que muitos eleitores (e esta página) gostariam de ver, especialmente como o senador costumava surpreender as pessoas com novas e inovadoras leis em questões não normalmente associadas a seu partido ou aliados.

Este John McCain sobrepujava poluidores industriais ao propor um preço às emissões de gases causadores do aquecimento global, como o dióxido de carbono, irritava colegas linha-dura do Senado ao oferecer (juntamente com Edward Kennedy) um projeto de lei bipartidário sobre a imigração e era odiado por grupos de interesse em todo o país por lutar pela reforma do financiamento de campanha.

Reviver aquele antigo John McCain não será o suficiente. Ele terá que oferecer uma explicação detalhada do que quer dizer com "vitória" no Iraque e como acredita que dar continuidade às isenções fiscais de Bush não irá empobrecer ainda mais o país. Mas reacordar um pouco do antigo independente seria melhor para se conquistar o respeito dos americanos do que propostas de fachada para baixar o preço dos combustíveis durante as férias ou acusações sobre o patriotismo de Obama ou imitar lealmente os piores aspectos da presidência Bush.

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