Editorial: O que Obama disse e não disse à ONU

Com seu discurso à Assembléia Geral da ONU na quarta-feira, o presidente Barack Obama deu mais um passo para reparar a imagem da América. Não houve ameaça ou tirania, mas ele ainda conseguiu desafiar outros países a assumir mais responsabilidade e este país a pedir mais de si mesmo. Ninguém pode discordar da importância dos assuntos que ele mencionou: proliferação nuclear, mudança climática, a economia global e paz no Oriente Médio.

The New York Times |

Porém, faltou algo fundamental. Obama não disse quase nada a respeito do Afeganistão, que há apenas um mês ele qualificou de uma "guerra de necessidade", fundamental para a segurança americana e para o amplo combate ao terrorismo.


Barack Obama discursa na ONU / AFP

As Nações Unidas não são o lugar ideal para lidar com as dúvidas dos americanos a respeito da guerra, a rebelião que está surgindo em seu próprio partido ou a discordância feroz de seus principais conselheiros sobre enviar mais tropas ou começar uma retirada. Sete anos de negligência da gestão Bush fizeram com que derrotar, ou mesmo conter, o Taleban seja mais difícil. E qualquer decisão política deve ser cuidadosamente revisada. Mas não há muito tempo.

A ansiedade neste país é profunda. Muitos dos aliados cujas tropas também lutam e morrem no Afeganistão estão buscando uma saída. Todos nós precisamos ouvir uma declaração clara de Obama a respeito de suas metas para o Afeganistão e sua estratégia dele para chegar até elas.

Se o plano ainda é treinar o Exército afegão e impulsionar o governo desesperadamente rachado para que possa evitar o Taleban, o que será preciso para isso e quanto tempo vai levar? Se isto já não é realista e Obama decidir retirar as tropas americanas, como ele irá garantir que o Afeganistão não volte a se tornar um porto-seguro para a Al-Qaeda e um bloco de lançamento para ataques aos Estados Unidos?

Se os Estados Unidos decidirem cortar suas perdas no Afeganistão, como Obama irá persuadir o Paquistão (um prêmio muito mais tentador com suas armas nucleares) a acirrar a luta contra os extremistas Talebans e outros.

Vamos ser claros: Obama fez enorme progresso nos curtos oito meses desde que assumiu a presidência. Ele reverteu algumas das políticas mais odiosas da era Bush: proibindo a tortura e prometendo fechar a prisão de Guantánamo, Cuba. Ele persuadiu o mundo mais uma vez a ouvir e escutar o que a América tem a dizer, mas ele ainda está tentando entender como capitalizar completamente desta boa vontade e credibilidade.

O presidente aprendeu uma severa lição nas últimas semanas a respeito dos limites do seu poder de encorajamento quando Israel não atendeu a seu pedido para parar as atividades de assentamento e líderes árabes se recusaram a fazer qualquer concessão até que Israel concorde em fazer isso. Obama não irá desistir. Em seu discurso na quarta-feira, ele pediu "negociações - sem pré-condições - que lidem permanentemente com as questões": segurança, fronteiras, refugiados e Jerusalém.

Para que esta diplomacia ainda mais difícil tenha qualquer chance de ser levada adiante, esta gestão pode ter que por em prática seus próprios planos, com projetos detalhados. E certamente terá que usar toda sua influência e poder econômico para pressionar líderes de todos os lados - israelenses, palestinos e outros árabes - a que se comprometam com um acordo.

Obama enfrentará outro teste difícil nas próximas semanas a respeito do Irã. Sua disposição em negociar é encorajadora, mas sem muito mais pressão é improvável que os líderes iranianos abandonem suas ambições nucleares. E a conversa em Israel a respeito de ataques militares é assustadora e deve ser tratada com seriedade.

Obama terá que pedir apoio - Europa, Rússia e China - para fazer com que se comprometam a sanções muito maiores. O presidente Dmitri Medvedev da Rússia parece mais receptivo, mas ele ainda precisa ser pressionado.

Obama reforçou sua posição na quarta-feira quando prometeu que os Estados Unidos também viverão sob regras internacionais - uma ideia que seu antecessor, George W. Bush, desdenhava. Obama disse estar comprometido a negociar novos acordos para a redução de armas com a Rússia, prometeu pressionar o Senado para ratificar o tratado de proibição de testes e urgiu que negociações sobre um tratado internacional para a redução de armas nucleares há muito adiado tenha início em janeiro.

Nesta quinta-feira ele irá presidir uma cúpula do Conselho de Segurança da ONU sobre o desarmamento e a segurança nuclear.

Obama tinha razão quando disse que "aqueles que castigavam a América por agir só no mundo não podem agora se por de lado e esperar que a América resolva os problemas do mundo sozinha". Depois de oito anos do unilateralismo do presidente Bush, isto é um alívio particular.

O mundo também está procurando uma clara liderança americana, e, justo ou não, o Afeganistão se tornou a guerra de Obama agora. A América, seus aliados e o mundo precisam saber qual é o plano.

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