Editorial: O adeus do senador que insistiu em ver a política através do prisma das necessidades humanas

Três décadas atrás, o senador Edward Ted Kennedy arruinou sua última esperança de ser eleito à Casa Branca quando um entrevistador de televisão lhe perguntou por que ele queria ser presidente. Ele não conseguiu articular uma resposta, oferecendo uma reação gaguejante e vazia que persuadiu seu partido de que ele não queria ou não seria apropriado para o trabalho que seu irmão John havia conquistado e seu irmão Robert havia aspirado.

The New York Times |

Ainda assim, como tão frequentemente aconteceu em uma vida extraordinária que oscilou entre sucesso e infortúnio apenas para voltar ao sucesso novamente, este momento difícil funcionou a favor de Kennedy e, no final, foi uma vantagem ainda maior para o país como um todo. Tendo falhado em seu desafio ao presidente Jimmy Carter, Kennedy estava finalmente livre para se concentrar com paixão e arte política na sua vocação natural como um dos maiores legisladores e grandes reformadores do Senado moderno.

O histórico que Kennedy deixa depois de 46 anos só pode ser invejado por seus colegas conforme eles se unem à nação lamentando sua morte depois de uma briga de 15 meses contra o câncer de cérebro - um histórico firmemente ancorado na insistência de Kennedy de que a política seja vista e administrada através do prisma das necessidades humanas.

Junto com um domínio das complexidades parlamentais, conquistado a duras penas, e uma disposição em trabalhar além de seu próprio partido para conquistar votos cruciais, o liberalismo decidido de Kennedy deixou um legado robusto: leis e reformas que tocam os direitos civis, o Ministério da Justiça, os refugiados, o bem-estar social, a política externa (ele foi um dos 23 senadores que votaram contra a autorização da invasão do Iraque), os direitos ao voto, o trabalho de aprendizado, a educação pública e o salário mínimo.

Na sua despedida agridoce diante da Convenção Democrata, o senador pediu que seu partido agisse no que qualificou como "a causa de minha vida": os cuidados médicos de qualidade como um direito fundamental para os cidadãos americanos.

O destino da causa de Kennedy permanece nas mãos de um Congresso em conflito e do presidente Barack Obama, o candidato democrata que Kennedy ousou patrocinar quando outros líderes do partido hesitaram. E ainda que sua liderança seja sentida na guerra legislativa adiante, seria um tributo adequado se sua morte pudesse solucionar para melhor um assunto em dúvida há tempo demais.

A vida de Kennedy foi carregada pela tragédia pessoal, inclusive os assassinatos de seus dois irmãos, e embaraço pessoal, geralmente auto-infligido. Seu fim foi decretado 40 anos atrás, depois que Mary Jo Kopechne se afogou em um carro que o senador dirigia quando caiu de uma ponte em Chappaquiddick Island, perto de Martha's Vineyard. Mas os eleitores de Massachusetts permaneceram a seu lado, e nos últimos 15 anos, Kennedy pareceu conseguir um controle muito maior de sua vida particular, não menos em um esforço para se tornar um melhor pai substituto para seus muitos sobrinhos órfãos.

"Eu reconheço minhas próprias falhas", ele concedeu em 1991, sabendo que elas não seriam apagadas das páginas da história. Mas seu espírito também não será, sua devoção em ajudar os americanos em necessidades e sua convicção de que a política, nem sempre um caminho fácil, pode fazer uma diferença real.

Seu mantra, formado sobre uma tragédia, e expressado eloquentemente na Convenção Nacional Democrata quando ele abandonou sua disputa pela candidatura presidencial em 1980, era simples e nobre: "O trabalho continua, a causa suporta, a esperança ainda vive e o sonho nunca morrerá". Em suas últimas falas, ele explicitamente passou este mantra a Obama.


Apoio de Ted Kennedy foi decisivo a Obama durante a eleição / AP

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