Editorial: Ninguém deve ter que ficar na fila por 10 horas para conseguir votar

Todos reclamam que os jovens não votam, mas pare para pensar na experiência dos estudantes da Faculdade Kenyon em Ohio nas eleições de 2004. As autoridades do condado de Knox providenciaram apenas duas urnas eletrônicas para os 1.300 eleitores do local. Alguns estudantes chegaram a esperar 10 horas na fila para computar seu voto, por volta das 4h da madrugada.

The New York Times |

No mesmo dia, em Columbus, eleitores de bairros negros esperaram até quatro horas, geralmente sob chuva. Muitos eleitores em outros bairros urbanos (como Toledo e Youngstown) deixaram sua escola eleitoral sem votar, irritados ou simplesmente porque não podiam mais esperar. Em muitos dos bairros da maioria branca de Ohio, as filas foram bem menores.

Os problemas no Estado atraíram a atenção em 2004, mas não é apenas Ohio que tem problemas. Filas longas aconteceram em outros Estados, como Colorado, Michigan e Flórida, onde idosos esperaram sob o sol quente.

Eu estive em Ohio no dia da eleição em 2004. Na noite anterior, rumores diziam que os republicanos iriam tentar questionar o registro de eleitores em locais de maioria negra. Esse questionamento em ampla escala não aconteceu, mas milhares de eleitores foram impedidos de opinar por algo tão mundano que ninguém pensou em planejar com antecedência: longas filas.

Em Columbus, até 15 mil pessoas deixaram as urnas sem votar, muitas por causa das filas. Numa audiência após as eleições, um pastor de Youngstown estimou que 8 mil negros eleitores não votaram por causa da falta de urnas.

O presidente Bush ganhou o Estado de Ohio com pouco mais de 120 mil votos.

Grande parte da questão logística das eleições ficam a cargo das autoridades locais e geralmente elas não gastam o dinheiro suficiente em urnas eletrônicas e falham em contratar a quantidade necessária de trabalhadores e treiná-los para que o processo seja tranqüilo.

Também há o problema do pouco planejamento. Em 2004, as autoridades de Ohio usaram antigos números de registro para estimar sua necessidade de urnas (falhando em antecipar um grande número de novos eleitores motivados por uma nova onda de inscrições). No entanto, é difícil esquecer as diversas formas de preconceitos.

Há muito se ouve falar de autoridades eleitorais em cidades universitárias tentando impedir o voto de estudantes de "fora". Há uma longa e dolorosa história de obstáculos aos votos dos negros. Em Ohio em 2004, parecia claro que a maioria das pessoas presas em longas filas iriam votar nos democratas.

O jornal The Washington Post relatou que seis em cada sete escolas eleitorais com menos urnas eletrônicas por eleitor registrado apoiavam John Kerry, enquanto 27 das 30 com maior número de máquinas por eleitor registrado estavam do lado do presidente Bush.

Grandes filas devem acontecer novamente este ano, com a campanha de Obama e muitos grupos não partidários trabalhando em todo o país para registrar milhões de novos eleitores. Sem o planejamento necessário, estes novos eleitores podem sobrecarregar as seções eleitorais.

Pelo bem da legitimidade de nossas eleições, mais desastres na hora do voto (longas filas, cédulas confusas ou urnas eletrônicas não confiáveis) precisam ser evitados. O Congresso deve liderar uma mudança, mas falhou ao não conseguir estabelecer padrões de números de urnas necessárias. Neste ano, também deixou de aprovar uma boa lei que teria disponibilizado mais fundos para que os Estados comprassem cédulas de papel como garantia.

Isso coloca ainda mais um fardo sobre as autoridades eleitorais estaduais, geralmente as secretarias de Estado, para que promovam eleições mais justas.

A dinâmica nova secretária de Estado de Ohio, Jennifer Brunner (que diz estar "superconcentrada nas longas filas") tomou medidas louváveis para evitar o que aconteceu em 2004. Ela pressionou relutantes autoridades eleitorais para que tivessem pelo menos uma urna eleitoral para cada 175 eleitores (quase quatro vezes o número disponível na Faculdade Kenyon em 2004). Além disso, ela também coordenou os condados que usam urnas eletrônicas para que tenham cédulas de papel a sua disposição em 25% do número de comparecimento de 2004, que poderão ser usadas caso se perca o controle sobre as filas.

No Missouri, a secretária de Estado Robin Carnahan também tem pressionado as autoridades locais para que tenham alternativas de papel disponíveis e forneceu fundos para a contratação e treinamento de mesários.

Na maioria dos Estados, no entanto, pouco foi feito para garantir que todos os eleitores consigam votar e isso é um erro. Uma eleição em que as pessoas têm que esperar 10 horas na fila para votar, ou na qual os eleitores negros precisam esperar na chuva por quatro horas enquanto os brancos não enfrentam dificuldade alguma, não é o que merece a principal democracia do mundo...

Por ADAM COHEN

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