Editorial: Medidas de resgate financeiro pedem tempo para debate

A instabilidade financeira vivida pelos Estados Unidos foi causada, em grande parte, pela cultura de falta de regulamentação e fiscalização, na qual pediram que os americanos comuns confiassem que o governo e Wall Street fariam a coisa certa.

The New York Times |

A solução proposta pelo presidente Bush, que ele quer que o Congresso autorize imediatamente, pede que os contribuintes assinem um cheque de US$ 700 bilhões e confiem que o governo e Wall Street farão a coisa certa (com regulamentação inadequada e quase nenhuma fiscalização).

Concordamos com o senador Barack Obama que o plano desta gestão não tem a regulamentação necessária e com o senador John McCain quando disse: "Quando se fala de trilhões de dólares do dinheiro dos contribuintes, 'confie em mim' não é o suficiente".

Quase todos concordam que terá que haver um outro pacote de resgate. O sistema financeiro, engasgado em seus próprios excessos, não pode ser estabilizado sem intervenção. Os US$ 700 bilhões de dólares serão usados para comprar empreendimentos ruins que estão prejudicando o sistema.

Para proteger os contribuintes americanos, o Congresso deve garantir que o pacote de socorro tenha regras claras e fiscalização. De forma surpreendente, ainda que familiar, as regras propostas pela gestão Bush são completamente inaceitáveis (bem como suas táticas).

Na madrugada de sábado, o Departamento de Tesouro lançou sua "Proposta Legislativa para a Compra de Empreendimentos Financeiros pela Autoridade do Tesouro". O momento pareceu querer ressaltar a urgência da medida.

A proposta, que está sendo negociada pelos líderes do Congresso, daria ao secretário do Tesouro a autoridade para comprar qualquer empreendimento de qualquer instituição financeira a qualquer preço que ache necessário para oferecer estabilidade ao mercado financeiro. Além disso, estabelece que nenhuma corte ou agência administrativa poderia questionar ou rever suas decisões.

Nós já vimos este tipo de totalitarismo na gestão Bush. Essa gestão usurpou poderes demais sob a bandeira da emergência (pense em escutas telefônicas) e abusou destes poderes. Agora, o Congresso e o povo americano ouviram que a menos que aprovem rapidamente esta medida que acaba com os poderes executivos no processo de resgate financeiro, o capitalismo pode ruir. Mesmo que essa administração não fosse tão passível de desconfiança, deixar de pensar a respeito disso seria uma má idéia.

Ninguém disse que a crise financeira não é séria e urgente. Sabemos que será difícil para os legisladores resistir à pressão da Casa Branca (especialmente se o índice Dow Jones continuar em queda). Mas é essencial que o Congresso pense e corrija a idéia de resgate financeiro, mesmo que isso atrapalhe as campanhas dos políticos.

O secretário do Tesouro, Henry Paulson, precisa criar e executar o resgate financeiro de forma que convença Wall Street e o sistema financeiro mundial de que serão salvos e ainda assim proteger o investimento de US$ 700 bilhões dos contribuintes americanos.
Equilibrar essas complexas medidas é algo ainda mais difícil porque Paulson veio de Wall Street e poderia, se quisesse, voltar a Wall Street.

A única forma de evitar um conflito de interesses é se Paulson autorizar uma fiscalização legislativa e judicial completa e transparente.

Uma contraproposta está sendo desenvolvida pelos democratas e exigiria que as empresas vendessem seus empreendimentos problemáticos ao Tesouro para dar ações ao governo (uma idéia que tem apelo populista mas também precisa ser analisada cuidadosamente). Essa nova proposta também tentaria ajudar os donos de imóveis, que foram deixados de lado no plano do governo, permitindo que eles tivessem suas hipotecas modificadas de acordo com a proteção da corte contra falência. Esse passo já deveria ter sido tomado há muito tempo para evitar a desapropriação e a queda nos preços dos imóveis que são as raízes dessa crise.

O senador Christopher Dodd, presidente do Comitê Bancário do Senado, também pediu a criação de uma bancada de agentes federais e especialistas que fiscalize as transações.

Acreditamos que isso ainda não é o suficiente, mas todas as propostas geram o início de um debate interessante. Temos tempo para ele.

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