Editorial - Luta contra o tráfico no Afeganistão pede ajuda internacional

Em meio aos problemas do Afeganistão não é apenas o Taleban que floresce, mas a produção de ópio, que cada vez mais financia as atividades do grupo, também. Não há solução simples para a ameaça dos narcóticos, que é um dos principais sintomas da ampla instabilidade do país.

The New York Times |

Um bom e coordenado plano de ataque levaria anos para surtir efeitos mas, mesmo assim, os Estados Unidos e o resto da comunidade internacional não conseguem desenvolver um. Eles precisam trabalhar mais, melhor e em conjunto para resgatar esse país do mundo dos narcóticos.

O tamanho do problema é assustador. A produção de ópio explodiu entre 2006 e 2007 e o Afeganistão agora fornece 93% da heroína do mundo, com a produção chegando aos usuários na Europa e Rússia. De acordo com números oficiais, o tráfico gera US$4 bilhões ao ano, o que equivale a metade do Produto Interno Bruto do país. A situação fortalece forças extremistas que os Estados Unidos e a Otan combatem, prejudicam o Estado afegão que as forças aliadas tentam erguer e contaminam usuários de drogas em toda a Europa, onde muitas pessoas não vêem o Afeganistão como seu problema e os líderes optam por ignorar a conexão.

Na semana passada, as Nações Unidas reportaram uma alarmante descoberta: os líderes do tráfico estão recrutando químicos estrangeiros, geralmente da Turquia, Paquistão e Irã, para refinar o ópio cru em heroína. Isso torna o produto que exportam mais caro e letal.

Autoridades americanas, européias, afegãs e da ONU sabotam sua própria missão ao continuar o eterno debate sobre o crescimento súbito do cultivo de papoula, o que fazer a respeito e como agir. Numa indicação particularmente vergonhosa publicada na revista The Times, Thomas Schweich, antigo representante do Departamento de Estado, culpou as autoridades afegãs corruptas, as divisões políticas internas e a relutância dos militares americanos e da Otan em assumir o papel de combate aos narcóticos, bem como o Taleban, pelo problema.

Schweich deveria ter apontado o presidente Bush pela falha no Afeganistão. Bush pôs poucos recursos no país depois do 11/9 e deixou o resultado para a Otan e vários líderes do tráfico enquanto os EUA se voltavam para a a desastrosa guerra de sua escolha no Iraque. Como resultado, o Taleban e a Al-Qaeda ressurgiram aliados às históricas colheitas de papoula.

Claro que é uma boa notícia o fato de 20 das 34 províncias do Afeganistão estarem livres do cultivo de papoula, mas isso significa que a produção está amplamente concentrada no sul, principalmente na província de Helmand, onde o Taleban é mais forte do que o governo.

A principal recomendação de Schweich (agressivamente erradicar as plantações de papoula através da pulverização aérea) é politicamente inatingível e de valor questionável. Outras coisas podem ser feitas, como a criação de um sistema a judicial que possa processar os líderes do tráfico e conceder às forças americanas e da Otan maior participação na interdição.

As alegações de que o presidente Hamid Karzai protege os líderes do tráfico também são preocupantes. Washington e seus aliados precisam pressioná-lo para que cuide do problema. Eles também devem apreender bens e caçar os vistos de traficantes que têm casas fora do Afeganistão.

A longo prazo, a resposta está num plano consistente, integrado e bem financiado para estabelecer a segurança em todo o país, colocando os traficantes na cadeia, desenvolvendo um mercado econômico e um sistema funcional em Cabul, além de expandir os incentivos aos pequenos produtores para que deixem de plantar papoulas. Esse é mais um assustador legado da gestão Bush que o próximo presidente terá que consertar.

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