Não há nenhuma justiça no julgamento de Roxana Saberi no Irã. As acusações do governo local contra Saberi, uma jornalista com dupla cidadania americana-iraniana, mudam rapidamente (e culminaram na semana passada com a denúncia de que ela agia como espiã do governo dos Estados Unidos). Seu julgamento de um dia esta semana foi realizado em sigilo e oficiais estatais não apresentaram qualquer evidência concreta contra ela.

O governo iraniano precisa libertar Saberi e terminar com essa perigosa farsa.

Saberi, cujo pai nasceu no Irã, cresceu em Dacota do Norte. Ela se mudou para o Irã há seis anos e trabalhou como repórter freelance, inclusive para a Rádio Pública Nacional (ou NPR, na sigla em inglês) e para a BBC, enquanto fazia um mestrado em estudos iranianos.

Quando foi presa em janeiro, Saberi foi primeiro acusada de comprar vinho (algo que é ilegal no Irã, mas dificilmente motivo para encarceramento) e, depois, de trabalhar sem credenciais de imprensa. Ainda que o governo tenha revogado estas credenciais há três anos, tolerava o fato dela fazer reportagens meses depois disso, de acordo com a NPR.

No dia 6 de março, em comentários que pareciam sugerir que o caso havia se resolvido, um promotor iraniano disse à Agência de Notícias Estudante Iraniana que Saberi seria libertada "nos próximos dias".
No entanto, na última semana, o governo subitamente acusou Saberi de espionagem.

O Irã já jogou este absurdo jogo anteriormente. Nos últimos anos, outros americanos, incluindo dois estudiosos, um correspondente da Radio Free Europe/Radio Liberty e um ativista, foram detidos injustamente. Felizmente, todos foram libertados, mas apenas depois de passarem meses de privações em prisão domiciliar ou na cadeia.

Em 2003, Zahra Kazemi, uma fotojornalista iraniana-canadense foi acusada de espionagem e teve um destino ainda pior: de acordo com o médico iraniano que cuidou dela, ela morreu depois de apanhar e ser torturada na prisão de Evin, o famoso centro de detenção onde Saberi está presa. Um ex-agente do FBI que desapareceu em 2007 em uma viagem de negócios ao país, Robert Levinson, também pode estar preso no local.

Não sabemos por que o governo decidiu ir atrás de Saberi. Uma teoria é a de que Teerã possa querer "negociar" sua liberdade pela de três diplomatas do país presos no Iraque por tropas americanas em 2007 e acusados de laços com ataques realizados na região. Outra é a de que oficiais linha-dura do governo estejam tentando sabotar os esforços do presidente Barack Obama em negociar com Teerã depois de 30 anos de isolamento mútuo.

Os dois países têm muito a negociar, como seu interesse mútuo em controlar o setor de narcóticos do Afeganistão e garantir que a guerra civil iraquiana não saia de controle novamente depois que as tropas americanas deixem o país.

Eles também têm muitas áreas de difícil discordância, a começar com as ambições nucleares iranianas. Teerã geralmente exige que Washington não interfira em seus assuntos internos. Ao usar Saberi e muitos de seus próprios cidadãos como peões, o Irã garante que sua postura em relação aos direitos humanos continue a ser um problema entre os dois países e dificulte ainda mais uma reaproximação.

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