Editorial: eficácia de forças locais será essencial para restaurar Afeganistão

As notícias que chegam do Afeganistão são sombrias. Na primeira semana de junho, houve mais de 400 ataques, um nível que não era visto desde o final de 2001.

The New York Times |

O presidente Barack Obama agiu corretamente ao enviar mais soldados americanos à batalha. A violência deve aumentar conforme as forças terrestres fortificadas aumentam a pressão sobre enclaves do Taleban e da Al-Qaeda. Mas também é verdade que não pode haver segurança duradoura (tampouco uma retirada americana) até que o país tenha um exército em funcionamento e uma polícia nacional capaz de conter os insurgentes e conquistar a confiança dos cidadãos afegãos. Mas nada disso parece viável hoje.

Washington já gastou 7 anos e meio e mais de US$15 bilhões em programas de treinamento que fracassaram. O Pentágono do presidente George W. Bush nunca enviou treinadores suficientes ao país (a maioria sendo destinada ao Iraque) para incluir conselheiros americanos nas unidades do exército afegão, algo que deu resultado no Iraque. Além disso, os soldados afegãos não recebem um salário digno de sobrevivência, fazendo com que sejam alvos fáceis dos grupos Taleban formados pelos jovens desempregados do país. O Pentágono também negligenciou o acompanhamento das armas que cedeu ao país, como morteiros, lançadores de granada e rifles automáticos. Milhares desapareceram, vendidos a quem pagasse mais e, em alguns casos, usados contra soldados americanos.

Talvez a questão principal seja que os estrategistas de guerra americanos nunca pareceram entender que um exército afegão mais eficaz e uma força policial mais honesta e competente pode ajudar a persuadir os civis de que a guerra contra o Taleban é mais sua do que uma disputa americana travada em seu território.

Com a equipe de Obama dando ao Afeganistão a atenção necessária, há uma chance de que estes erros sejam corrigidos. Cerca de quatro mil outros treinadores estão a caminho, um aumento dramático em relação ao ano passado. A reinstauração de um projeto de treinamento exigiria o envolvimento total do novo comandante americano, o general Stanley McChrystal.

Em um novo e atrasado esforço em proteger os civis afegãos de ataques aéreos, um dos primeiros atos de McChrystal foi o de impor novos limites aos ataques a não ser quando eles são realizados para proteger tropas americanas e aliadas.

A gestão Bush planejava aumentar o exército afegão de 90 mil soldados para 134 mil. Este número ainda não seria grande o suficiente para garantir a segurança em um país vasto e precário, com população maior que a do Iraque. Os estrategistas americanos propõem expandir o número para 260 mil soldados - quase o tamanho do exército iraquiano. Mas nenhuma decisão foi tomada.

O Pentágono estima que criar e treinar uma força deste tamanho pode custar entre US$ 10 bilhões e US$ 20 bilhões ao longo de sete anos. Pagar por ela custaria outros bilhões, especialmente se o salário de US$ 100 ao mês de agora quiser se tornar mais competitivo com os US$ 300 pagos pelo Taleban.

A conta total ainda seria muito menor do que o custo de sustentar uma enorme força de combate americana no país. Até o final deste ano, haverá cerca de 68 mil soldados americanos no Afeganistão, algo que custará aos contribuintes US$ 60 bilhões por um ano.

A polícia nacional do Afeganistão terá que ser reconstruída quase do zero. O governo central de Cabul é notoriamente corrupto, mas os contos do campo de batalha são ainda mais assustadores. Jornalistas do The Times reportaram ver policiais saqueando uma casa e cultivando papoulas para o ópio dentro de delegacias. Soldados americanos reclamam que supervisores policiais ameaçam moradores de pequenas vilas, roubam o salário de seus subordinados e vendem promoções e equipamentos. Muhammad Hanif Atmar, ministro do interior, pediu maior prestação de contas por parte de oficiais policiais sênior. Ele tem muito trabalho adiante.

Milhares de outros policiais com experiência na imposição da lei civil serão necessários. Membros europeus da Otan podem e devem oferecer ajuda.

Há inúmeras expectativas para McChrystal, baseadas em suas atitudes agressivas e sucessos anteriores em operações especiais. O Taleban precisa ser confrontado de frente. Para reverter esta guerra, afegãos comuns precisam começar a confiar em seu próprio governo mais do que temem ou confiam nos extremistas. A construção de um exército e força policial eficientes no Afeganistão é crítica. Não há mais tempo a perder.

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