Editorial: Descobertas geram dúvidas sobre indicação de Tom Daschle

Quando o presidente Barack Obama indicou o ex-senador Tom Daschle como secretário de saúde e serviços humanos, a escolha pareceu certa. Daschle, co-autor de um livro sobre a reforma na saúde, sabe bastante sobre um dos principais objetivos do presidente. Como ex-líder da maioria no Senado, ele também sabe muito sobre o trâmite de projetos controversos pelo Congresso, onde continua a ser respeitado por antigos colegas.

The New York Times |

Infelizmente, novas descobertas (envolvendo o pagamento atrasado de impostos e sua renda advinda de companhias ligadas à saúde enquanto trabalhava no setor privado) geram dúvidas sobre ele ser apropriado para o cargo. Nós acreditamos que Daschle deva abandonar a indicação e deixar o presidente escolher um sucessor menos danificado.

O atraso no pagamento de impostos é particularmente alarmante porque segue os moldes de outro indicado que também deixou de pagar o que devia ao governo. Não gostamos do fato do indicado como secretário do Tesouro, Timothy Geithner, admitir que deixou de pagar milhares de dólares em impostos como autônomo enquanto trabalhava para o Fundo Monetário Internacional apesar de ter assinado documentos reconhecendo a obrigação em fazer isso.

Agora nos deparamos com um lapso ainda maior por parte de Daschle, que deixou de pagar US$128 mil em impostos, principalmente pelo uso pessoal de um carro com motorista oferecido por uma companhia de equidade para a qual trabalhava como consultor. Ainda que a empresa (liderada por um grande doador democrata) não tenha emitido um formulário 1099 pelo valor do serviço, Daschle disse que começou a se preocupar em junho do ano passado com a possibilidade de dever impostos e instruiu seu contador a investigar. Nenhum dos dois, no entanto, se preocupou o suficiente para pagar os impostos.

Apenas depois que a equipe de Obama percebeu os problemas em relação aos impostos e determinou o pagamento corretivo é que Daschle e seu contador lidaram com o relatório pessoal necessário para cobrir o uso do serviço do carro com motorista (mais de US$255 mil em três anos). Apenas depois de ser escolhido como secretário da saúde Daschle contou à equipe de transição sobre os impostos não pagos. Ele pagou cerca de US$140 mil em impostos atrasados e juros no dia 2 de janeiro para resolver o problema.

Tanto no caso de Geithner quanto no de Daschle, a falha em pagar impostos é atribuída a descuidos involuntários. Mas Daschle tem casos de descuido demais. O sistema de impostos americano depende muito da conformidade voluntária. Seria uma mensagem terrível ao público se ignorássemos os erros de mais um indicado de alto escalão.

Os elos financeiros de Daschle com grandes participantes do setor da saúde podem ser ainda mais preocupante conforme as tentativas de reforma continuam. Como muitos outros antigos jogadores em Washington, Daschle lucrou com seu conhecimento político e influência para receber até US$5 milhões nos últimos anos, incluindo mais de US$2 milhões da Alston & Bird, uma empresa lobista.

Apesar de Daschle não ter sido um lobista registrado, ele ofereceu conselhos políticos ao UnitedHealth Group, um enorme conglomerado de planos de saúde. Ele também foi um depositário da Mayo Clinic em Minnesota, em nome da qual manifestou oposição ao empréstimo federal para uma linha férrea que passaria perto do quartel-general da clínica, em Rochester. O empréstimo foi negado pela Administração Federal Ferroviária.

Daschle é mais um em uma longa linhagem de políticos que transitam confortavelmente entre governo e indústria. Não sabemos se sua ligação com o setor da saúde irá afetar seu julgamento, mas eles podem potencialmente enuviar a reforma do sistema. Daschle pode limpar a atmosfera ao retirar seu nome da indicação.

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