Editorial: Depois da repressão, Ocidente enfrenta desafio de se aproximar do Irã

Tragicamente, o governo do Irã parece ter conseguido vencer o mais significativo desafio a seu poder autoritário desde a revolução de 1979.

The New York Times |

Primeiro, os mulás linha-dura roubaram a eleição para o presidente linha-dura Mahmoud Ahmadinejad. Quando milhares de pessoas protestaram, eles soltaram seus brutamontes para espancá-las e atirar contra elas. Pelo menos 20 pessoas morreram e centenas de jornalistas, ativistas políticos e antigos oficiais do governo foram detidos.

Mesmo antes da eleição, os iranianos (provavelmente a maioria) estavam cansados de Ahmadinejad. Eles estavam cansados da corrupção e incompetência. Eles queriam ter mais influência em como são governados e maior envolvimento com o mundo, incluindo os Estados Unidos. A recusa deste regime em ouvir seu povo expôs enormes falhas na sociedade iraniana. Mesmo alguns membros da elite clériga parecem questionar a brutalidade adotada.

Previsivelmente, Ahmadinejad e seus defensores culparam os outros, especialmente os Estados Unidos. O presidente Barack Obama agiu corretamente e não caiu na armadilha. Não há sinais de que o governo de Teerã esteja perto de  ser derrubado. A oposição não pediu ajuda externa. Eles sabem que qualquer envolvimento direto dos Estados Unidos significaria seu descrédito e o fortalecimento do atual regime.

Agora, o difícil desafio dos Estados Unidos e de outras grandes potências é criar políticas que deem esperança à oposição e reforcem as dúvidas sobre as elites políticas iranianas (sem provocar uma reação negativa). A União Europeia debate a possível retirada de seus
27 embaixadores de Teerã em protesto pela prisão de dois funcionários iranianos da Embaixada Britânica . Nós não acreditamos no isolamento permanente, mas este tipo de ação unificada seria uma mensagem importante.

Quando se encontrarem na Itália na próxima semana, os líderes do G8, grupo das oito principais nações industrializadas, devem emitir sua própria declaração dizendo claramente que o Irã violou normas internacionais com sua eleição falsa e subsequente repressão.

Há duas outras medidas que podem ser exploradas. Os europeus e americanos podem silenciosamente revogar os vistos de autoridades iranianas (ou permiti-los, dependendo do que pareça mais eficiente no momento). A Europa e os Estados Unidos devem procurar ampliar os contatos com acadêmicos, artistas e outros membros da sociedade civil iraniana e com mulás mais moderados.

O fato de Obama ter oferecido um novo relacionamento com os governantes do Irã pode dificultar que o governo desvalorize tal passo. Depois de um intervalo decente, a Casa Branca deve analizar seriamente a ideia de abrir um "setor de interesse" em Teerã para permitir contato direto com o povo iraniano. Se o governo local recusar esta oferta, apenas ressaltará sua insegurança.

Não há dúvida de que os eventos das últimas semanas complicaram a oferta de Obama em negociar com o Irã. Os críticos do presidente já o acusam de legitimizar os governantes de Teerã e recompensá-los por seus abusos. Mas os Estados Unidos e seus aliados lidam com líderes ilegítimos e desonestos o tempo todo.

Além disso, há muitas questões importantes que devem ser discutidas. O programa nuclear de Teerã avança incansavelmente. Os Estados Unidos também têm forte interesse em alistar a ajuda de Teerã para estabilizar o Afeganistão (houve um momento no qual os iranianos viram o Taleban como seus inimigos) e restringir que a influência iraniana piore as coisas no Iraque.

Obama ofereceu relações melhores com base no respeito. Mas ele também alertou que haverá custos caso o Irã não abandone suas ambições nucleares. Nossa preocupação sempre foi que a Europa, Rússia e China não sigam sanções mais rígidas caso o Irã faça a escolha errada. Os eventos das últimas semanas são um lembrete do motivo pelo qual é preciso impor limites.

Leia também:

Leia mais sobre: Irã

    Leia tudo sobre: ahmadinejadirã

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG