Editorial - Contemplações sobre a raça mista nos Estados Unidos

Como uma pessoa multirracial e de certa forma estrangeira eu às vezes me sinto alvo do tipo de incertezas que muitos americanos têm em relação à identidade ambígua de Barack Obama. Ele não é negro ou é negro demais, seu nome soa estranho e sua infância com crianças que não falam inglês também.

The New York Times |

Obama não é apenas politicamente atípico. Ele é um representante incomum. Um estudo recente de economistas de Harvard, Yale e da Universidade de Chicago mostra que em 2000 apenas um em cada 70 nascimentos nos Estados Unidos era de casais mistos (negros e brancos). Nos anos 1980 esse número era de 1 para cada 200. Nos anos 1960, quando Obama nasceu, não havia praticamente nenhum.

Os pesquisadores argumentam que adolescentes negros-brancos são tão raros hoje em dia que sentem necessidade de agir de forma mais arriscada para conquistarem a aceitação do seu grupo social: beber mais, brigar mais, tomar mais drogas do que os jovens negros ou brancos (um padrão de comportamento conhecido entre os cientistas sociais como de um "homem marginal").

Talvez isso seja verdade, mas ainda assim eu sugeriria que esses resultados dizem mais sobre o contexto em que as crianças multirraciais americanas são criadas do que sobre elas mesmas. Os Estados Unidos praticam uma definição claramente rígida dos rótulos raciais.

Eu não vejo muita televisão, mas quando vejo percebo que nela homens negros namoram mulheres negras e os homens brancos namoram mulheres brancas. Eu nunca vi um comercial com uma família multirracial. Brancos se casam com negros, mas raramente. Cerca de 5.7% dos casais casados em 2000 atravessaram as fronteiras da raça.

A postura americana em relação à raça é de certa forma única. No Brasil, que tem uma história de escravismo e racismo tão brutal quanto a América, cerca de 39% das pessoas se definem como raça mista ou "pardos". Por outro lado, quando o censos de 2000 realizado nos Estados Unidos permitiu pela primeira vez que as pessoas escolhessem quantas raças quisessem, apenas 2.4% optaram por mais de uma. Esqueça o fato que testes genéticos sugerem grande misturas de raça entre americanos de descendência européia ou africana.

Filho de um pai branco e alto de Chicago e uma mãe morena e baixa mexicana de antecedência européia e índia, eu não sou da mesma mistura que Obama. Como um colega me disse recentemente eu "pareço branco". Cresci na Cidade do México, onde poder e cor de pele tem uma relação similar a que tem nos Estados Unidos, e tive uma existência privilegiada. Ainda assim, ser de uma família mista nunca foi um problema; a maior parte de meus amigos vivia a mesma realidade.

Isso não quer dizer que o México lidou melhor com a questão da raça. O racismo simplesmente adotou outras formas. Os colonizadores europeus da América Latina encorajaram o branqueamento dos índios e negros. No século que se seguia à independência, lealdades étnicas foram sobrepujadas por uma mistura de identidade mexicana numa forma de mesclar as nações europeias e pré-Colombianas e forjar o Estado do México moderno.

Hoje o censo do México não questiona sobre raça e começou a questionar sobre etnia indígena apenas em 2000. José Vasconcelos, político e filósofo, escreveu nos anos 1920 que os mexicanos pertenciam à "raça cósmica" (aquela que inclui todas as outras). Ainda assim, a identidade mestiça sancionada pelo Estado do México permitiu que seus governantes ignorassem um enorme contingente da população indígena (definindo-os praticamente inexistentes).

Nos Estados Unidos, por outro lado, políticas inspiradas na raça, seja resultando em leis como a de Jim Crow ou na ação afirmativa, alimentaram uma necessidade de definir e redefinir fronteiras raciais. Essa atenção à raça forçou as desconfortáveis questões de desigualdade ao debate público, mas também impediu que se adotasse uma identidade mista.

Felizmente, os americanos parecem lentamente se tornar mais confortáveis em relação à mistura racial. Grupos de imigração mais novos com diferentes experiências de raça já descartam a divisão racial. Cerca de 10% dos americanos asiáticos escolheram duas ou mais raças em seu censos de 2000. Mais de 15% dos hispânicos se casam com não-hispânicos e são tão confusos em relação às categorias raciais americanas que metade deles não sabia que opção escolher no censos e optou por "outra raça".

Em relação à desconfiança sobre a linhagem e etnia de Obama, pode ser que isso ajude a desmistificar as raças, permitindo que negros e brancos se olhem de uma forma diferente pela primeira vez. Então pessoas como eu talvez não tenham que agir de forma extrema para conquistar aceitação.

Por EDUARDO PORTER

Leia mais sobre eleições nos EUA

    Leia tudo sobre: eleições nos eua

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG