Editorial - Companhias dão falsa importância ao petróleo nacional

A combinação entre o alto preço dos combustíveis, a ansiedade pública e a caça aos votos gerou uma insatisfação política de escala épica. Com isso, o presidente Bush decidiu pedir ao Congresso que cancele a proibição federal sobre a exploração do petróleo ao longo da costa americana.

The New York Times |

Essa é a pior idéia que ele poderia ter. Ela é cruelmente enganadora e fará pouca diferença, na melhor das hipóteses, nos preços que encontramos nas bombas de gasolina. Além disso, mesmo que faça, seus benefícios levarão anos para serem sentidos. Essa postura também exagera amplamente a influência da América no preço do petróleo, se baseia em estatísticas duvidosas e desvia a atenção do público de decisões difíceis que precisam ser feitas sobre a conservação.

Não há dúvida que muitas pessoas foram genuinamente prejudicadas pelo preço da gasolina a US$4 o galão. Mas seu sofrimento não irá melhorar caso exploremos áreas restritas da costa de Nova Jersey, Virgínia ou Califórnia. A Administração da Informação de Energia afirma que, mesmo que ambas as costas sejam abertas, os preços só começarão a cair em 2030. Apenas as companhias petrolíferas se beneficiariam realmente disso, porque que tentam garantir cada centímetro de terras públicas antes que seus amigos no poder - Bush e o vice-presidente Dick Cheney - deixem o palco político.

Todo o esquema se baseia em uma série de fatos fictícios que vão de ofensivos a simplesmente irritantes. O senador Harry Reid, líder da maioria democrata, mencionou o pior disso tudo na quarta-feira: um país que consome um quarto do petróleo do mundo mas tem 3% das reservas não sair de seus problemas usando a exploração - sejam eles o alto preço dos combustíveis nos postos ou a dependência do petróleo exportado por países instáveis no golfo pérsico. Essa história foi evitada por Barack Obama, mas tolamente aceita por John McCain, que parecia razoável em relação à energia até que embarcou na campanha contra a proibição da exploração na terça-feira.

Outra história

Outra história contada pelas companhias petrolíferas e, de certa forma, por alguns governantes é que enormes depósitos de petróleo e gás em terras federais foram fechados e que o setor está com as mãos atadas nas costas por causa dos ambientalistas, dos democratas e do protecionismo das placas costeiras há mais de 25 anos.

Os números sugerem outra realidade. Dos 36 milhões de barris de petróleo que existem em terras federais, principalmente nas regiões montanhosas do Alasca, quase dois terços são acessíveis ou ficarão depois de revisões das leis que regulamentam o uso da terra. Dos 89 bilhões de barris de petróleo explorável que acredita-se existir na costa, o Serviço de Gerenciamento Mineral diz que quatro quintos são abertos ao setor, a maioria no Golfo do México e nas águas do Alasca.

Claramente as companhias petrolíferas não estão absolutamente sem recursos. Além disso, elas não parecem fazer tudo o que poderiam com as terras que já possuem. Estudos separados do Comitê de Recursos Naturais da Casa e da Sociedade da Natureza, um grupo de conservação, mostram que quase três quartos dos mais de 90 milhões de acres de terra federal usados por companhias petrolíferas na costa e fora não são usados para produção de energia. Isso representa 68 milhões de acres no total, entre eles terras potencialmente muito produtivas no Golfo do México e Alasca.

Com isso em mente, quatro influentes democratas da Casa - Edward Markey, Nick Rahall, Rahm Emanuel e Maurice Hinchey - apresentaram um projeto de lei "use ou perca" que obrigaria as companhias a explorar essas terras antes de receberem permissão para explorar outras. Projetos paralelos foram apresentados no Senado, onde também se suspeita que o principal objetivo do setor é armazenar milhões de acres adicionais antes que a administração Bush deixe a cidade.

Isso não pode acontecer. A moratória do Congresso sobre a exploração costeira foi posta em prática em 1981 e reafirmada durante subsequentes formações do Congresso para proteger as economias costeiras que dependem de água limpa e costas claras. Isso também foi a principal motivação das ordens executivas suplementares, a primeira da qual foi emitida por Bush pai em 1990 depois do desastroso vazamento causado pela Exxon Valdez no ano anterior.

Dados os enormes recursos da indústria de energia, não há motivos para se rever essas proteções agora.

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