Editorial: Chega o primeiro prazo para retirada do Iraque

Depois de seis sangrentos e custosos anos, a ocupação americana no Iraque em breve chegará ao fim. Por um acordo firmado com o governo de Bagdá, as tropas americanas devem deixar as cidades iraquianas até esta terça-feira. O presidente Barack Obama prometeu que até o dia 31 de agosto de 2010 (daqui 14 meses) todos as tropas de combate estarão fora do Iraque e até o final de 2011 todos os soldados terão deixado país.

The New York Times |

Para uma força militar no limite esta é certamente a hora de partir. A convocação repetida esgotou soldados e suas famílias. Além disso, a guerra no Iraque (um confronto desnecessário) divergiu recursos necessários do Afeganistão, o verdadeiro fronte de batalha no combate ao terrorismo.

Muitos iraquianos estão ansiosos para que os americanos partam. O primeiro-ministro Nouri Kamal Al-Maliki declarou o dia 30 de junho uma data comemorativa com "banquetes e festivais".


Iraquianos comemoram o "Dia da Soberania Nacional" / AP

Mas ainda há muito a ser feito (e pouco tempo) para ajudar os iraquianos a se prepararem para a retirada e reduzir a chance de que o país tenha tumultos depois que os americanos forem embora.

Esperávamos que uma clara agenda de retirada finalmente convenceria os líderes iraquianos de que concessões políticas representam a solução para manter seu país unido sem uma ocupação indefinida. Isso não aconteceu. O Parlamento ainda não aprovou a nova lei que dividirá o petróleo do país de forma igualitária.

Na verdade há sinais preocupantes de que os políticos locais estão fazendo exatamente o contrário (procurando maneiras de abandonar os interesses comuns caso a guerra civil volte a ser um problema). Muitos dos vizinhos do Iraque veem a mesma coisa. A violência diminuiu, mas os extremistas ainda estão tentando dar início a um novo ciclo de ataques e retaliação. Em junho, mais de 300 iraquianos e 10 americanos foram mortos.

Obama estava certo ao se comprometer com uma retirada em ritmo cuidadosamente planejado e em dizer que os Estados Unidos não conseguem resolver todos os problemas do Iraque antes de partirem. Mas estamos preocupados que o Iraque possa ter toda a atenção que precisa de Washington.

O principal comandante americano no Iraque, o general Ray Odierno, é um líder forte, e Christopher Hill, o novo embaixador americano em Bagdá, é um diplomata talentoso. Ainda assim, Obama tem um conselheiro de alto escalão para o Afeganistão e Paquistão, para negociações no Oriente Médio e para o Irã, mas não há nenhum nome de impacto no caso do Iraque para garantir que o presidente e a burocracia estejam totalmente engrenados.

Entendemos que por motivos políticos, em ambos os países, os Estados Unidos não podem micro-gerenciar os eventos. Mas ainda há muitos problemas que precisam de apoio e da atenção americana.


Forças iraquianas tomam controle da segurança nas cidades do país / Reuters

A prontidão iraquiana

Até poucas semanas atrás, comandantes americanos esperavam que o governo do Iraque os convidaria a manter tropas de combate em algumas regiões de Bagdá e na cidade de Mosul, onde tensões sectárias estão em alta e a Al-Qaeda da Mesopotâmia ainda é ativa. Eles não fizeram isso e Washington decidiu não insistir, por causa da sensibilidade dos iraquianos.

A maioria dos analistas dá boas notas ao programa de treinamento militar americano. Eles têm opiniões diferentes sobre o exército iraquiano (ainda atingido pela corrupção, problemas de disciplina, falta de equipamentos e brechas de segurança) estar pronto para manter a paz nas cidades. Além disso, a força policial e o ministro do interior precisam trabalhar ainda mais.

Um relatório do Pentágono ao Congresso de janeiro afirmava que no último outono, 17% dos 174 batalhões de combate do exército iraquiano são capazes de conduzir operações de combate à insurgência sem o apoio dos Estados Unidos. O exército iraquiano depende dos militares americanos para conseguir informações de inteligência, logística e apoio aéreo.

Por enquanto as tropas americanas (há 130 mil no Iraque) não vão longe. O Campo Vitória de Bagdá foi designado como uma zona fora de seu perímetro, apesar de estar a apenas 10 minutos de distância em helicóptero da Zona Verde.

Antes das tropas americanas poderem partir, o exército iraquiano precisa desenvolver algumas destas capacidades que não tem para que possa combater por si mesmo. Os Estados Unidos também terão que ajudar o Iraque a reconstruir sua Força Aérea e Marinha para que possa defender sua fronteira (um esforço que irá muito além do prazo de retirada de 2011).

O Iraque fica em uma região perigosa, mas também tem seu próprio histórico de ameaçar seus vizinhos. Washington terá que decidir quanto poder bélico deve vender ao país, sabendo que Bagdá pode comprá-lo em outro lugar.

Raiva sunita

O Iraque ainda sofre com ressentimentos e a minoria sunita, que antes dominava o país, amargura particularmente o governo xiita. Áreas com grandes populações sunita têm poucos serviços e Bagdá não autorizou uma lei que permite que antigos membros do Partido Baath voltem a suas posições ou recebam pensão.

Estamos particularmente preocupados a respeito do tratamento indiferente dado pelo governo iraquiano ao Conselho do Despertar. Ele é formado pelos antigos insurgentes sunitas que decidiram mudar de lado, a pedido de Washington.

Seus membros reclamam sobre atrasos nos pagamentos e o governo não adotou as medidas necessárias para cumprir sua promessa de encontrar empregos para os 94 mil membros do grupo nos serviços de segurança, ministérios ou no setor privado.

Bagdá culpa a queda do preço do petróleo e a falta de orçamento pelo problema dos empregos. Mas manter estes militantes e seus parentes e vizinhos do lado do governo deveria ser uma prioridade. Al-Maliki afastou muitos sunitas ao ordenar a prisão de diversos líderes de conselhos locais e de alguns políticos da etnia.

Os oficiais iraquianos dizem que as prisões são justificadas. Agora, os oficiais americanos precisam deixar claro ao primeiro-ministro os perigos que ele está cortejando.

Ambição Curda

Em particular, muitos oficiais americanos dizem estar ainda mais preocupados com o aumento das tensões entre árabes e curdos no norte do Iraque.

As disputas são sobre fronteira, petróleo e o poder do governo central iraquiano. O governo autônomo regional dos curdos insiste que tem direito a cidades e vilas em três províncias pouco além da atual fronteira regional que foi imposta com a remoção de curdos e repovoamento com árabes autorizados por Saddam Hussein.

Desde 2003 (geralmente com a benção de Washington) o governo curdo posicionou sua milícia, a pesh merga, em algumas destas áreas e gastou milhões de dólares em serviços básicos na tentativa de demonstrar seu controle.

Temendo deslocamento ou domínio curdo, os sunitas árabes se voltaram a políticos e extremistas linha-dura, inclusive à Al-Qaeda da Mesopotâmia, para defender seus interesses.

As tropas americanas tiveram que evitar confrontos entre forças governamentais e a pesh merga. A tensão é particularmente alta na província de Nineveh e sua capital, Mosul. Os sunitas conquistaram a maioria no conselho da província na eleição de janeiro e imediatamente tiraram todas os cargos do bloco curdo, que ficou em segundo lugar.

A disputa mais perigosa, no entanto, é a respeito do controle da cidade rica em petróleo e multi-étnica de Kirkuk e das províncias ao seu entorno.

Em abril, as Nações Unidas emitiram um relatório com inúmeras opções para Kirkuk, inclusive torná-la em uma região autônoma comandada em conjunto por curdos, árabes e turcos. Washington deve pressionar Bagdá e os curdos para que indiquem negociadores responsáveis e peçam que não adotem posições extremas.

Se um acordo não puder ser alcançado em Kirkuk todos os três governos podem ter que considerar uma gestão internacional, possivelmente liderada pela ONU, por algum tempo.

Refugiados

Uma das grandes tragédias da guerra foi a fuga de cerca de 4 milhões de iraquianos (mais do que um em cada 10) de suas casas. Um pequeno número, talvez 100 mil, começou a voltar - outro ainda menor criou raízes no exterior.

Milhões vivem em condições extremamente difíceis. Muitos fazem parte da antiga elite sunita. Outros são xiitas cujos bairros de população mista se tornaram sunitas durante os levantes de 2006 - 2007. Todos eles precisam de uma oportunidade para voltar ao país em segurança.

O Iraque precisa de seu talento. Grandes números de refugiados também colocam um peso econômico e político muito grande sobre os vizinhos do país.

Resolver a política e logística da volta dos refugiados para suas antigas casas (agora ocupadas por outras pessoas) ou lhes dar novas moradias irá exigir ajuda internacional, além de conselhos e uma liderança iluminados. Enquanto esperam para que isso aconteça, milhões de pessoas precisam de casas, alimentos e educação. Síria e Jordânia, que receberam o maior fluxo de refugiados, precisam de ajuda internacional e americana contínua.

Além disso, os Estados Unidos precisam aceitar um número maior de iraquianos, especialmente aqueles que arriscaram suas vidas trabalhando com os americanos.

Governo

Mais do qualquer outra coisa, o Iraque precisa de um governo competente e inclusivo. Para conseguir a lealdade pública, o governo precisa fazer mais para oferecer serviços básicos a todos os iraquianos. Com a melhora na segurança, houve um aumento na produção de eletricidade, apesar de ainda ter muitas interrupções e blecautes. Água potável é uma necessidade urgente.

Conselheiros americanos têm trabalhado com ministros iraquianos, mas oficiais dos Estados Unidos dizem que estão alarmados com a falta gerentes capacitados e com a corrupção. Lidar com estes problemas nacionalmente e regionalmente deve ser uma prioridade. Conforme as tropas americanas deixem o país, o Pentágono deve continuar a oferecer segurança para que esses conselheiros civis possam trabalhar pelo país.

Os políticos iraquianos também precisam mostrar mais disposição em lidar e resolver problemas políticos há muito adiados. Em fevereiro, no mesmo dia em que falou sobre seus planos de retirada, Obama disse que "muito do resultado final" no Iraque irá depender de como questões difíceis, inclusive a lei do petróleo, serão resolvidas. Oficiais americanos agora afirmam que é improvável que isso acontece em breve e que estarão satisfeitos caso os legisladores consigam aprovar uma nova lei eleitoral a tempo das eleições nacionais de janeiro.

Há temores de que Al-Maliki possa estar acumulando poder demais, prejudicando seus rivais e gerando um quadro de oficiais militares e de inteligência leais apenas a ele. Washington deve deixar claro que não irá apoiar qualquer tomada de poder e encontrará formas de encorajar outros líderes políticos, enquanto os convence a não fazer o mesmo.

Vizinhos

Um Iraque estável é o interesse de seus vizinhos. Infelizmente, poucos parecem ver a situação desta forma. Irã e Síria se intrometeram constantemente (aumentando a violência e mudando de ideia quando parecia que a guerra poderia sair de controle e além das fronteiras do país ou que os americanos poderiam retaliar). Teerã ainda gostaria de controlar o governo xiita do Iraque.

Enquanto isso, muitos dos aliados americanos na região mantiveram seu apoio. O governo sunita do Egito há pouco tempo indicou um embaixador para Bagdá. A família real da Arábia Saudita ainda não.

Washington deve fazer muito mais para convencer estes aliados de que será de seu interesse a construção de fortes elos econômicos e diplomáticos com o Iraque. Esta é a melhor forma de contra-balancear Teerã. Com elos mais fortes vêm influência maior e mais oportunidade de ajudar a defender os interesses da minoria sunita iraquiana.

As relações com Teerã são particularmente difíceis agora, mas em algum momento a gestão Obama terá que renovar sua oferta de diálogo.

A estabilidade iraquiana terá que fazer parte destas negociações. Esperamos que elas já estejam em andamento com Damasco. Os Estados Unidos não podem consertar o Iraque. Isso é responsabilidade dos iraquianos.

Mas no tempo que têm, este país tem a responsabilidade e o grande interesse estratégico em fazer o melhor possível para ajudar o Iraque a emergir deste desastre como um Estado funcional, soberano e razoavelmente democrático.

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