Editorial: Cem dias e cem crises de Barack Obama

Crises, não dias, é a primeira palavra que vem em mente quando pensamos no número 100 e na presidência de Barack Obama.

The New York Times |


Clique e veja o que já foi feito no governo Obama

A lista de políticas fracassadas e ameaças urgentes deixadas para ele pelo ex-presidente George W. Bush poderia facilmente ser assim longa. Em suas primeiras 14 semanas e dois dias, Obama começou vigorosamente a lidar com muitas das mais críticas.

Ele está tentando reconstruir a danificada reputação deste país com sua promessa de fechar a prisão de Guantánamo, Cuba, sua oferta em negociar com o Irã e a Síria, e, claro, aquele aperto de mãos com o presidente linha-dura da Venezuela, Hugo Chávez.

Obama não deixou que a recessão desta geração (ou as acusações políticas de que ele está tentando fazer demais) impedisse sua ambição. Ele está certo de que não pode haver uma recuperação duradoura até que o país reforme seu sistema de saúde e lide com o perigo claro e real da mudança climática. O governo promove os direitos reprodutores das mulheres. Irá restaurar regulações para manter a água limpa e a comida segura. Além disso, a Casa Branca prometeu lidar com a reforma imigratória ainda este ano.


"Obama e o país ainda têm muito pela frente" / AP

Obama e o país ainda tem muito pela frente. O aumento do poder do Taleban no Afeganistão e Paquistão é um lembrete do porque a Casa Branca precisa planejar uma retirada bem-sucedida do Iraque para que possa se concentrar na verdadeira guerra contra o terror. Bombardeios recentes e assustadores mostram quão longe o Iraque está da conciliação política e quanto ainda precisa ser feito para garantir uma retirada ordenada.

Não acreditamos que o plano de resgate bancário seja agressivo o suficiente para salvar os que estão à beira da falência ou proteger o dinheiro dos contribuintes.

Nós sabemos que Obama, e muitos eleitores, não querem a luta, mas até que haja uma investigação completa sobre os abusos cometidos contra prisioneiros e muitas outras políticas fracassadas autorizadas durante a era Bush, não há como garantir que eles não voltarão a acontecer.

Estes são momentos muitos difíceis, mas Obama parece ter encorajado o espírito de uma nação dividida e temerosa. Na última pesquisa New York Times/CBS News poll, 72% dos americanos disseram estar otimistas em relação aos próximos quatro anos. Eles também reconheceram que alguns problemas podem ser difíceis demais para que sejam resolvidos neste período.

Veja uma breve lista dos esforços do presidente Obama nestes 100 Dias:

O Mundo

Obama prometeu trazer os soldados americanos para casa de uma das mais longas e divisivas guerras da história do país. Agora ele precisa persuadir o governo xiita do Iraque a se reconciliar com os sunitas e acabar com as tensões com os curdos.

O Iraque ainda não concordou com uma lei de compartilhamento igualitário de suas reservas de petróleo. Milhares de membros dos Conselhos Sunitas, os antigos insurgentes cuja decisão de mudar de lado ajudou a mudar o rumo da guerra, ainda esperam por prometidos empregos no governo.


Obama esteve no Iraque e se encontrou com o premiê do país / Getty Images

Obama pressionou seus conselheiros a criarem um plano amplo para os perigosos e interrelacionados conflitos no Afeganistão e Paquistão. Agora é preciso implementá-lo - e rápido. Na semana passada, o Taleban avançou para um perímetro de 97km de Islamabade. Os líderes paquistaneses ainda não parecem entender esta ameaça mortal.

O presidente começou novas negociações com a Rússia para reduzir arsenais nucleares. O Pentágono começou a tomar as decisões difíceis de mudar os gastos bélicos para armas necessárias nas guerras de hoje. O compromisso de Obama com a paz entre Israel e Palestina já é testado pelo novo primeiro-ministro israelense, que diz não acreditar em uma solução de dois Estados.

Os americanos podem sentir tanto orgulho quanto alívio pela forma entusiasta com a qual Obama foi recebido em suas viagens ao exterior. O presidente deve, em breve, encontrar novas formas de usar esta popularidade. Ele precisa persuadir aliados europeus a contribuírem com mais tropas e recursos no Afeganistão. Se as negociações com o Irã fracassarem, ele precisa convencer a Europa, Rússia e China a adotarem a imposição de duras sanções na tentativa de restringir as ambições nucleares iranianas.

A economia

Depois de oito anos sombrios, o pacote de estímulo do presidente, seu orçamento e até mesmo seu fracassado resgate bancário representam um bem-vindo retorno à proposta racional de que alguns problemas são tão grandes que o governo precisa interferir. Nossa principal preocupação é que ele esteja relutante demais em desafiar os interesses tradicionais de Wall Street ou do Capitólio.

Sua tentativa de consenso bipartidário foi impedida pela obstrução republicana ao pacote de estímulo e enfraqueceu a lei final. O estímulo de US$787 bilhões é pequeno em comparação à contração: a projeção de 3.5 milhões de novos empregos é pequena perto dos 5 milhões que foram perdidos desde o final de 2007.

A gestão foi similarmente tímida em relação à crise bancária. A Casa Branca até então se recusa a considerar a aquisição temporária dos bancos resgatados (a melhor forma de garantir que eles serão reestruturados eficientemente e que o dinheiro dos contribuintes será protegido). Ao invés disso, a gestão ofereceu centenas de bilhões de dólares em empréstimos subsidiados a fundos de investimento e outros investidores particulares para encorajá-los a oferecer preços altos por investimentos ruins.

Nós tememos que o plano anti-desapropriações de Obama (que depende dos financiadores voluntariamente modificarem hipotecas ruins) não dará certo a menos que o Congresso rapidamente reforme o código de falência. Tudo isso sob a perspectiva de que a Casa Branca e o Congresso não se posicionem contra os bancos. Além disso, deve desacelerar a recuperação.

Liberdades civis

Menos de 12 horas depois de assumir o cargo, Obama parou os tribunais militares em Guantánamo. Depois ele ordenou que a prisão seja fechada em um ano. Ele emitiu ordens que proíbem a tortura e fechou prisões secretas no exterior, para criar uma política de prisioneiros baseada na lei e ordem e não na visão grandiosa do poder executivo adotada por Bush.

No começo deste mês, Obama prevaleceu sobre seu diretor da CIA e ordenou a libertação de quatro terríveis memorandos sobre a interrogação de prisioneiros escritos pelo Departamento de Justiça de Bush. Ele decidiu não punir os interrogadores da CIA que participaram da tortura de prisioneiros e relutantemente decidiu deixar que o Departamento de Justiça decida sobre ações judiciais.

Infelizmente, Obama não lidou com as alegações de que segredos de Estado foram usados pela equipe de Bush para impedir ações por conta do sequestro, tortura e escutas ilegais. Ele precisa repensar esta posição bem como sua oposição a uma investigação completa para determinar porque, como e por quem tantas ordens foram dadas para violar a lei e o principal direito constitucional. 

Energia e o meio ambiente

Obama e sua nova equipe foram tão agressivos nestas questões quanto Bush foi passivo e obstrucionista. A Agência de Proteção Ambiental rapidamente emitiu uma determinação formal de que gases causadores do efeito estufa prejudicam a saúde e o bem-estar (o primeiro passo para regular estes poluentes). O Departamento do Interior rejeitou as políticas de exploração petrolífera em qualquer lugar de Bush a favor de uma postura mais equilibrada da produção de energia.

O pacote de estímulo inclui dinheiro para encorajar a eficiência energética, fontes de energia renováveis, carros mais eficientes e carvão realmente limpo. Obama também apoiou, em termos gerais, leis que criarão limites para a emissão de gases causadores do efeito estufa e investirão em tecnologias que irão facilitar isso.

Saúde

Americanos demais não têm assistência médica e aqueles que têm pagam caro demais e a qualidade do atendimento é baixa. O ousado plano orçamentário de 10 anos de Obama propôs um pagamento inicial de US$634 bilhões para ampliar a cobertura e melhorar a assistência. Ele ofereceu propostas sensíveis para pagar por estas reformas (inclusive impostos mais altos para os ricos e a eliminação de subsídios injustificados para planos particulares) que encontrou resistência congressista imediata.

Esta será uma disputa difícil. Obama precisa continuar a lembrar os americanos de que reformas são essenciais para sua saúde pessoal e para a saúde econômica da nação.

Educação

Obama demonstrou amplo conhecimento sobre a educação mas irá precisar usar toda sua força para implementar mudanças. Isso é especialmente verdadeiro para o plano de empréstimo estudantil, que acabará com o desperdício de subsídios a financiadores particulares e permitirá que estudantes universitários façam empréstimos diretamente do governo.

O plano do presidente para usar o dinheiro de estímulo para forçar reformas que os Estados deveriam realizar sob o Ato Nenhuma Criança Para Trás de 2002 também irá exigir energia, vigilância e o fim de brechas nas leis educativas.

Durante a campanha, o então senador Obama declarou que o "governo não pode resolver todos os nossos problemas, mas deve fazer o que não podemos fazer por nós mesmos". Em seus primeiros 100 dias, Obama começou a mostrar aos americanos o que queria dizer com isso.

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