Editorial: Brasil e Turquia foram usados pelo Irã

EUA respeitam ânsia brasileira e turca por relevância mundial, mas os dois países deveriam pressionar Irã a negociar seriamente

The New York Times |

Sempre que parece que a paciência das grandes potências com as ações nucleares do Irã finalmente chegará ao fim, Teerã repentinamente decide ter disposição para negociar. E sempre que a pressão das grandes potências aumenta, o comprometimento de Teerã vai pelos ares.

Não foi nenhuma surpresa quando o Irã anunciou na segunda-feira que está disposto a aceitar o envio de seu combustível nuclear para fora do país - algo semelhante ao acordo que aceitou e depois rejeitou no ano passado. Portanto é uma boa notícia que Estados Unidos, Europa, Rússia e China tenham decidido manter as sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas .

O acordo da troca de urânio enriquecido - que poderia, com mais enriquecimento, ser utilizado em uma arma - por combustível deve ser priorizado. Também temos certeza de que não há chance de controlarmos as ambições nucleares do Irã sem pressão unificada e contínua das grandes potências.

A resolução, anunciada na noite de terça-feira, tem por objetivo as instituições financeiras do Irã , incluindo aquelas que apoiam a Guarda Revolucionária Islâmica, que controla grande parte do programa nuclear do país. Com ela, os países teriam de inspecionar navios e aeronaves que entram e saem do Irã caso existam suspeitas de que carregam materiais proibidos.

Tal como as três resoluções precedentes, esta provavelmente não será suficientemente firme para mudar as mentes em Teerã. Mas o fato de Rússia e China terem assinado provavelmente causará algum incômodo no governo iraniano. (Mal podemos esperar para saber o que foi que mudou a cabeça de Pequim.)

Diversos governos europeus deram sinais de que estão prontos a impor sanções bilaterais mais duras depois de uma ação do Conselho de Segurança, e isso poderia perturbar ainda mais o instável sistema político e econômico do Irã.

Desde 2006, Teerã tem desafiado repetidas exigências do Conselho de Segurança de que reduza seu programa nuclear. O país continua a produzir mais combustível nuclear, a bloquear a visita de inspetores internacionais a locais suspeitos e se recusa a responder perguntas sobre pesquisas para a eventual fabricação de armas.

O acordo de última hora com os líderes de Brasil e Turquia, anunciado esta semana, é muito parecido com aquele feito no outono passado. O Irã transferiria cerca de 1,2 tonelada de seu urânio pouco enriquecido para Turquia em um mês e receberia - no prazo de um ano - combustível para ser usado em um reator nuclear de pesquisa médica.

Existem grandes diferenças, no entanto. Em outubro, 1,2 tonelada de urânio representavam quase 80% do produto enriquecido do Irã. Agora essa quantidade representa apenas cerca de metade do seu estoque. O acordo original buscava atrasar mensuravelmente o progresso do Irã na construção de uma arma nuclear, enquanto abria portas para negociações sérias.

O pacto atual deixa o Irã com combustível demais, não freia o enriquecimento no país, permite que Teerã recupere o combustível estocado na Turquia quando quiser e não abre espaço para negociações.

O Brasil e a Turquia - ambos atualmente têm cadeiras no Conselho de Segurança - estão ansiosos em desempenhar importância internacional. E dispostos a evitar um conflito com o Irã. Nós respeitamos isso. Mas como todos os outros países, eles foram usados por Teerã.

Autoridades americanas não rejeitaram completamente o acordo. Elas disseram que o Irã terá de fazer mais para reduzir o progresso de seu arsenal e demonstrar seu interesse em negociar, em vez de apenas manipular a comunidade internacional.

Brasil e Turquia deveriam se unir aos outros grandes jogadores e votar em uma resolução do Conselho de Segurança. Mesmo antes disso, eles deveriam pressionar Teerã a fazer um compromisso crível e a começar uma negociação séria.

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