Editorial: Bancos usam dinheiro de resgate para benefício próprio

De acordo com o secretário do Tesouro Henry Paulson, o principal proponente do resgate bancário, a injeção de dinheiro dos contribuintes deveria ajudar os bancos a retomarem os empréstimos entre si. Isso, em troca, estabilizaria os mercados evitando que a crise piorasse.

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Não ficou claro desde o começo como Paulson garantiria isso. Na verdade, no começo deste mês, pouco depois que o resgate foi autorizado, o jornalista Mark Landlers do The New York Times reportou que autoridades do Tesouro também queriam oferecer dinheiro a bancos que desejassem comprar outros bancos.

Agora, com US$250 bilhões em fundos de resgate comprometidos a dezenas de bancos grandes e regionais, parece que muitos dos beneficiados deste investimento dos contribuintes não têm interesse em realizar empréstimos. Além disso, Paulson não parece preocupado com sua relutância.

Paulson e os beneficiados do resgate têm que explicar algumas coisas.

O Congresso deve agendar audiências o quanto antes possível - e tomar uma atitude que esclareça sua estratégia.

Em sua coluna de sábado, Joe Nocera do The New York Times falou sobre uma ligação que ouviu recentemente entre funcionários e executivos do JPMorgan Chase. Questionado sobre como a injeção de US$25 bilhões mudaria a política de empréstimos do banco, um executivo afirmou que o dinheiro será usado para comprar outros bancos.

"Eu acho que teremos algumas ótimas oportunidades para crescer neste ambiente e podemos usar os US$25 bilhões para isso", afirmou o executivo. Ele acrescentou que o dinheiro poderia ser usado como um fundo de emergência "caso a recessão se torne uma depressão ou algo semelhante aconteça no futuro".

Não houve uma palavra sequer sobre os empréstimos (seja para pequenos empreendimentos, donos de imóveis, compradores de carros, estudantes ou qualquer outro cliente). O contrário disso. Em resposta a outra pergunta, o executivo disse que o banco espera continuar a dificultar o crédito.

O JPMorgan Chase não está sozinho. O The Wall Street Journal reportou na terça-feira que alguns bancos regionais beneficiados com dinheiro do resgate reconheceram que apenas uma pequena parcela do dinheiro será usado para empréstimos e o resto para aquisições e outros fins.

É prudente que autoridades governamentais encorajem que bancos saudáveis comprem os enfraquecidos. Isso previne a falência e evite os custos aos contribuintes, além de problemas na economia decorrentes de tais colapsos.

O problema é que o Tesouro se recusa a colocar condições sobre os fundos do resgate, permitindo aos bancos que comprem bancos que não estão em dificuldades. Isso pode maximizar os lucros dos bancos (um objetivo válido uma vez que usam o dinheiro dos contribuintes).

No entanto, quando eles usam este capital, como fazem agora, o Congresso e o público têm direito de exigir que o dinheiro seja usado para benefício direto do público, mesmo que isso prejudique seus lucros.

Caso o Tesouro não imponha condições, o Congresso precisa, inclusive através da exigência de que bancos que aceitarem o dinheiro do resgate aumentem seus empréstimos e limitem suas compras de outros bancos a aqueles que estejam realmente em dificuldades, de acordo com a listagem do Federal Deposit Insurance Corp. O resgate deve ser o momento de reação dos bancos.

Um problema ainda maior é que o resgate foi vendido como algo para impulsionar os empréstimos. Se este já não é seu objetivo principal (se é que realmente chegou a ser), o Congresso e o público precisam saber disso. Os legisladores não devem autorizar a segunda parcela (de US$350 bilhões) até que tenham respostas e garantias de que o dinheiro do resgate será gasto de formas que colocam o interesse do público na frente.

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