Editorial - As eleições no Afeganistão

Milhões de afegãos, determinados a decidir seu próprio futuro, desafiaram a ameaça do Taleban e votaram, nesta quinta-feira, na segunda eleição presidencial que ocorre no país. Essa coragem merece ser recompensada com um governo muito melhor do que os afegãos experienciaram por quatro anos, desde a última votação presidencial.

The New York Times |

O presidente Barack Obama qualificou, corretamente, o sucesso no Afeganistão como essencial para a luta dos EUA contra a Al-Qaeda. Ele aumentou o número de tropas no país ¿ há 62 mil atualmente e seis mil a caminho -, uma liderança militar norte-americana mais forte e um uso mais cuidadoso do poder aéreo para diminuir o número e mortes de civis.

Há muito mais a se fazer. O próximo presidente do país irá precisar de um apoio total dos EUA e dos aliados da OTAN, se houver qualquer esperança de derrotar a pior parte do Taleban e qualquer chance de o resto baixar suas armas. Washington também deve querer ser rígido, um conselho que não requer ser pedido, quando é preciso em assuntos como corrupção oficial e drogas.

O general Stanley A. McChrystal, novo comandante dos EUA, tem sido honesto sobre o quão ruim a guerra está ¿ e o quão difícil e custosa deve ser, mesmo para começar a pôr tudo no lugar certo.

As tropas norte-americanas e da OTAN e, cada vez mais, o novo Exército Nacional afegão, deve expulsar as guerrilhas talebans de áreas estratégicas em montanhas e de cidades que retomaram nos últimos anos (sem colocar os civis na linha de fogo de forma imprudente). O sucesso no campo de batalha afegão não será suficiente a menos que o Paquistão acabe com os campos de treinamento e de rotas de infiltração do Taleban, em seu lado da fronteira.

Washington deve usar todos os meios diplomáticos e de assistência a seu comando para distanciar o governo, o exército e os serviços de inteligência do Paquistão de seu histórico apoio ao Taleban em troca de um apoio ao governo legítimo afegão.

E mesmo isso não será suficiente. O Taleban não pode ser derrotado militarmente a menos que também percam politicamente. O próximo presidente afegão ¿ presidente Hamid Karzai ou um de seus concorrentes ¿ deve ganhar e manter a lealdade do povo afegão diante à intimidação do Taleban.

Karzai, líder supremo do Afeganistão desde dezembro de 2001, presidiu um governo cuja corrupção sistêmica consumiu sua credibilidade e os recursos financeiros limitados do país. Ele construiu alianças com militares importantes. O cultivo do ópio e o tráfico de drogas expandiram sob a proteção de seus parentes e aliados e são, atualmente, os setores mais dinâmicos da economia nacional. O exército está longe de estar preparado para um combate e quase toda a polícia nacional é corrupta e está sob o poder de militares locais.

O governo afegão ¿ e seus apoiadores em Washington e outras capitais da OTAN ¿ não tem muito tempo para mudar essas tendências terríveis. Infelizmente, nem todas as desagradáveis alianças com militares podem ser eliminadas imediatamente. O país ficaria ingovernável.

Mas o objetivo do próximo presidente deveria ser se livrar rapidamente dessas ligações tóxicas e desqualificadas. Aumentar o pagamento e melhorar o treinamento do exército e da polícia diminuiria essa dependência. Os EUA e a OTAN precisam fornecer mais treinadores qualificados e financiamento suficiente para permitir que o governo pague melhor do que os comandantes do Taleban e traficantes pelo serviço de jovens desempregados.

Os fazendeiros afegãos não querem negociar com traficantes de drogas perigosos ou com o Taleban. Mas precisam de empréstimos para colheitas sazonais que nenhum emprestador legítimo parece querer fornecer. Os bancos de microcrédito poderiam fazer uma grande diferença e doares internacionais deviam participar fornecendo o dinheiro inicial.

Também é necessário mais assistência para ajudar a melhorar a infraestrutura local ¿ construindo estradas e projetos de irrigação ¿, enquanto ao mesmo tempo, criam mais empregos locais fora do comércio de ópio. Esses projetos precisarão de um monitoramento cuidadoso para garantir que os fundos não sejam reduzidos por oficiais e empreiteiros corruptos.

Enquanto isso, o próximo presidente afegão deve ser linha dura com grandes traficantes de drogas. Eles precisam ser eliminados de escritórios do governo e da polícia. O Afeganistão precisa de um sistema judiciário que possa prender e julgar suspeitos de crimes de droga e punir os culpados severamente. O péssimo governo afegão é o aliado mais importante do Taleban e seu agente de recrutamento mais eficiente. Se esse governo continuar em andamento, o preço dele será pago com vidas afegãs e de soldados norte-americanos e da OTAN.


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