Editorial: Americanos prejudicados pela era Bush são mais vulneráveis à recessão

É normal que em uma recessão, os pobres fiquem mais pobres e a classe média perca terreno. Mas mesmo uma recessão tão profunda e prolongada quanto esta não pode ser completamente responsabilizada pelos problemas de tantos americanos.

The New York Times |

A Agência de Censo dos Estados Unidos informou na semana passada que a pobreza do país aumentou para 13,2% em 2008, o nível mais alto desde 1997 e um aumento significativo dos 12,5% registrados em 2007. Isto significa que cerca de 40 milhões de pessoas nos Estados Unidos estão vivendo abaixo da linha de pobreza, definida como uma renda de US$ 22.205 por ano para uma família de quatro membros.

A classe média também sofreu um grande golpe. A renda doméstica mediana desabou de US$ 52.200 em 2007 para US$ 50.300 em 2008. Esta é a queda mais abrupta desde que o governo começou a acompanhar a renda há quatro décadas. Ajustada pela inflação, a renda mediana foi menor em 2008 do que em 1998 e todos os anos desde então.

Claramente, a recessão é brutal. Mas, mesmo antes dela, muitos americanos já viviam perto demais do abismo.

Como agora ficou dolorosamente evidente, o crescimento econômico da era Bush não passou de uma ilusão. A pobreza piorou durante a maior parte dos anos de crescimento e os salários da classe média estagnaram, conforme os lucros eram desviados para o topo.

Em uma recente atualização de sua inovadora série sobre tendências de renda, os economistas Thomas Piketty e Emmanuel Saez descobriam que entre 2002 e 2007, os lares no 1% do topo (aqueles com mais de US$ 400.000 ao ano) receberam dois terços dos ganhos da renda total da nação, sua maior participação nos espólios desde os anos 1920.

Uma vez que muitos dos americanos (se não a maioria) ganharam pouco ou nada nos anos de "crescimento" de Bush, eles se tornaram especialmente vulneráveis durante a recessão.

Os gastos com estímulo federal ajudaram a amortecer o golpe. A questão adiante é se a recuperação econômica, quando vier, ajudará os pobres e a classe média ou se o favoritismo desequilibrado da expansão anterior será reafirmado.

A resposta depende de como os políticos irão preparar e administrar uma recuperação. Apenas o crescimento econômico não irá garantir o crescimento das vagas de trabalho. O Congresso e a gestão Obama têm que ampliar certos componentes do pacote de estímulo até que o emprego seja reavivado, incluindo benefícios de desemprego, cupons de desconto alimentar, isenções fiscais para famílias que trabalham e têm crianças e ajuda fiscal aos Estados.

Os legisladores também têm que resistir à tranquilizadora porém falsa noção de que o crescimento econômico renovado pode, por si só, aumentar amplamente o padrão de vida. São necessárias políticas do governo para garantir que o crescimento é compartilhado. Reformar o sistema de saúde para que os doentes não causem falência (para famílias ou para o orçamento federal) seria um grande passo na direção certa.

A gestão também disse que deixaria os cortes de impostos da era Bush para os ricos expirar conforme marcado ao término de 2010. A tributação mais progressiva precisa ser acompanhada de gastos mais progressivos, em educação pública, e em programas de aprendizado, além da criação de vagas de trabalho. Apoio aos sindicatos e implementação dos padrões de trabalho também ajudariam a garantir que na próxima expansão econômica, uma parte justa dos lucros chegue aos salários.

Como a era Bush mostrou, a economia pode crescer sem que nada disso aconteça. Mas ela também mostrou que tal crescimento não é defensável nem sustentável. Com metade da população ficando para trás ou lutando para se manter, a economia não consegue gerar gastos, investimentos ou mobilidade social seguros e adequados para que o país realmente prospere.

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