Editorial: A versão de Dick Cheney da história

Depois que o relatório sobre os procedimentos de interrogatório de prisioneiros realizado pelo inspetor geral da CIA foi divulgado na semana passada, o ex-vice-presidente Dick Cheney se acomodou em sua habitual cadeira na Fox News para expressar sua revolta - não em relação ao comportamento ilegal e amoral retratado no relatório, é claro, mas à ideia de que qualquer um contestaria a tortura de prisioneiros. Ele estava especialmente contrariado com o fato da gestão Obama dar início a uma investigação.

The New York Times |

Na opinião de Cheney, não apenas aqueles que seguiram ordens e cumpriram as regras de interrogatório determinadas pelo Departamento de Justiça do presidente George W. Bush deveriam ser protegidos da responsabilização. Ele disse que também não tem nenhum problema com aqueles que desobedeceram suas ordens e excederam as diretrizes.

É fácil entender a aversão de Cheney à investigação solicitada pelo procurador geral Eric Holder na semana passada. Na Fox, Cheney disse que é difícil imaginar que isto pare nos interrogadores. Ele está certo.

O governo dos EUA deve aos americanos uma investigação completa a respeito das ordens para aprovar a tortura, o abuso e a prisão ilegal e secreta, bem como das destorcidas justificativas legais para estas políticas. O Congresso e a Casa Branca também precisam analisar o grampeamento ilegal de telefones e a prática de enviar prisioneiros a outros países para serem torturados.

Cheney esteve no centro de cada um destes insultos à Constituição dos EUA, seu sistema judiciário e o berço de seus valores democráticos. Para se defender, ele oferece uma versão distorcida da história:

Ele diz que o Departamento de Justiça de Bush determinou que as "técnicas de interrogação melhoradas" ordenadas pelo presidente eram legais sob as leis americanas e tratados internacionais como a Convenção de Genebra.

Na verdade, essas opiniões se basearam em uma análise legal corrupta e amplamente desacreditada criada depois que a Casa Branca já havia decidido adotar práticas há muito proibidas, como o afogamento. Cheney foi o arquiteto desta decisão de "endurecer" com os prisioneiros, termo usado pelos burocratas para diminuir o impacto da afronta desta medida.

Ele insiste que as descobertas do inspetor geral foram "completamente revisadas" pelo Departamento de Justiça e que qualquer investigação subsequente seria imprópria e desnecessária.

Na verdade, o procurador geral de Bush, Alberto Gonzales, não designou um investigador independente depois de receber o relatório do inspetor geral, que foi concluído em 2004. O Departamento de Justiça decidiu que havia apenas um caso a ser perseguido, envolvendo um contratado civil (o que não é uma surpresa em um departamento completamente voltado a interesses políticos e cujos os funcionários do topo fixaram as mesmas regras que deveriam julgar). A equipe de Gonzales não analisou alegações de que alguns interrogadores violaram estas regras. Cheney pode não se preocupar com isso, mas Holder se preocupa e com razão.

Cheney alega que o afogamento e outras práticas extensamente consideradas como tortura ou abuso "eram absolutamente essenciais" para impedir outro ataque terrorista aos Estados Unidos depois do 11 de setembro de 2001.

Cheney tem razão quando diz que detentos sob tortura e abuso renunciaram a informações valiosas. Mas os homens responsáveis pelos interrogatórios discordam que tenha sido a dureza dos métodos que os levou a isso.

Deuce Martinez, oficial da CIA que interrogou Khalid Shaikh Mohammed, engenheiro dos assassinatos em massa do 11/9, disse que usou métodos de interrogação tradicionais, e não a inflição da dor e do pânico.

E, em um artigo publicado na página editorial do The Times, Ali Soufan, ex-agente do FBI que vigiou a interrogação de Abu Zubaydah, outro terrorista do mesmo escalão, denunciou "as falsas alegações" sobre interrogatórios severos. Soufan disse que Zubaydah falou antes de ser sujeitado ao afogamento e outros abusos. Ele também disse que "usar estes métodos alternativos em outros terroristas teve reação contrária à esperada em algumas ocasiões."

Aparentemente todas as semanas novas revelações sobre esta sórdida história são feitas. Esta semana, o grupo Médicos pelos Direitos Humanos analisou o que o relatório do inspetor geral disse sobre o envolvimento de médicos da CIA e psiquiatras no abuso de prisioneiros.

O relatório diz que eles não apenas monitoravam a tortura, como a prática de afogamento, mas também mantinham dados sobre as reações dos prisioneiros de maneira que pode refletir em uma "experimentação humana".

Chegar à verdade não vai ser fácil. A CIA destruiu evidências (vídeos de interrogatórios) e agora se recusa a divulgar seus dados sobre o interrogatório de prisioneiros. A agência também está pedindo aos tribunais que mantenham segredo sobre as ordens dadas por Bush autorizando estes procedimentos e os memorandos originais do Departamento de Justiça concluindo que eram legais.

Os americanos precisam de muito mais do que um vislumbre da verdade. Eles não deveriam ter que decidir se acreditam em antigos investigadores, que não conheceram, ou em Cheney, que quando no cagro não hesitou em enganá-los quando isso serviria a seus objetivos políticos.

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