Editorial: a agenda comercial de Barack Obama

Em tempos difíceis, há uma forte tentação para nos voltarmos para dentro. Com tantos americanos desempregados, por que o país não deveria erguer barreiras comerciais para proteger seus trabalhadores da concorrência internacional?

The New York Times |

A resposta é clara: o comércio terá um papel importante na eventual recuperação do mundo, transmitindo o crescimento econômico de um país para outro. Protecionismo leva a mais protecionismo e se entregar à tentação pode gerar uma guerra comercial destrutiva que acabaria com qualquer chance de recuperação.

Infelizmente, poucos políticos estão dispostos a dizer a seus eleitores esta impopular verdade. Ao invés disso, governos sucumbem à atração perigosa do protecionismo. Nos últimos meses, a Rússia colocou barreiras na importação de carros, tratores e outros produtos. A União Europeia readotou subsídios sobre os laticínios. Europa, Índia e Brasil aumentaram as tarifas sobre o aço importado. 

O protecionismo também adota formas mais sútis, como a exigência britânica de que bancos resgatados favoreçam o empréstimo doméstico. Os Estados Unidos não são imunes. O projeto de estímulo tinha uma provisão "Compre América" e dificultou que as companhias que recebessem dólares do resgate contratassem trabalhadores estrangeiros sob o programa de vistos H-1B.

O indicado do presidente Barack Obama como representante comercial dos Estados Unidos, Ron Kirk, parece ambivalente em relação ao valor do livre comércio. Como parte de sua audiência de confirmação esta semana, Kirk testemunhou que trabalharia para ampliar o comércio mas também argumentou que "nem todos os americanos lucram com isso e que nossos parceiros comerciais nem sempre jogam de acordo com as regras". Ele sugeriu que a gestão pode pressionar pela ratificação do acordo comercial com o Panamá, que foi negociado pela gestão de Bush. Mas disse que Obama está preparado para se afastar do acordo da gestão anterior com a Coreia com Sul, dizendo que é "injusto". 

O relatório anual de comércio de Obama ao Congresso é igualmente preocupante. Ele sugeriu que a abertura de "um discurso com o público" a respeito dos acordos comerciais que esperam ratificação (com Colômbia, Coreia do Sul e Panamá) é uma boa ideia. Ele comprometeu a gestão a "melhorar" o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (ou Nafta, na sigla em inglês), sem dizer como. Além disso, jogou água fria nos esforços para o reinício da rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio.

As negociações, que deveriam abrir os mercados para os países mais pobres, são falhas. Ainda assim, o argumento da gestão de que elas são desequilibradas porque não está claro o que podem oferecer aos Estados Unidos é obstinadamente perverso. A gestão deve pressionar por um acordo e tentar reavivar pelo menos por algum tempo sua intenção original.

Este é o momento para ação coletiva (no estímulo fiscal, políticas monetárias, ajuda ao mundo em desenvolvimento, combate ao protecionismo). Um bom lugar para começar a repensar a situação é a China e como encorajar o consumo doméstico e o investimento no país e outras ricas nações asiáticas para que possam começar a tirar o mundo da recessão.

Os líderes chineses, principalmente, precisam entender que o crescimento liderado pela exportação já não funciona para eles ou para o mundo. Os Estados Unidos terão mais influência se pararem de acusar Pequim por sua política de câmbio estrangeiro e envolver os líderes chineses como parceiros, não rivais.

O comércio vigoroso irá ajudar o mundo a se recuperar. Para que isso aconteça, os Estados Unidos terão que oferecer uma forte liderança e o claro compromisso de combater o protecionismo. Qualquer sinal de ambivalência de Washington irá apenas dificultar a situação.


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