Economia representa nova ameaça para presidente da Síria

Em meios a levantes que pedem saída do governo, pressão internacional e sanções podem deteriorar país árabe

The New York Times |

A economia síria está ruindo sob a pressão de sanções ocidentais e de um contínuo levante popular, passando assim a representar o maior desafio do governo do presidente Bashar al-Assad conforme o problema é sentido profundamente por quase todas as camadas da sociedade do país.

Com o enfraquecimento da moeda síria, sua recessão em expansão, a indústria do turismo destruída e as sanções internacionais que afetam a maioria dos setores essenciais, o Fundo Monetário Internacional agora espera que a economia da Síria retroceda em pelo menos 2% este ano.

AFP
Milhares demonstram apoio ao líder sírio, Bashar Al-Assad, em Damasco (12/10)

Ao longo de quase sete meses de protestos e de uma repressão brutal, que já deixou mais de 2,9 mil mortos segundo a ONU, Assad e seus partidários políticos têm demonstrado uma coesão que surpreendeu até mesmo os seus críticos. Qualquer divergência que possa existir é mantida dentro de um grupo da classe dominante que se baseia no clã do próprio Assad e os serviços de segurança até o momento não caíram.

Mas os analistas da região e oficiais da Turquia e EUA dizem que os problemas na economia do país representam um golpe para um governo que contava com sua prosperidade como uma fonte crucial de legitimidade. Enquanto muitos sírios, pobres e ricos, sentem os efeitos da revolta em suas vidas diárias, um sentimento de desespero é ecoado nas ruas, mesmo em Damasco e Aleppo, as duas maiores cidades e centros econômicos do país.

Os analistas também apontam que a Síria poderia usar sanções para reunir seu povo contra uma ameaça comum. Embora nenhuma dessas cidades tenha se rebelado como outras no país, as reclamações estão crescendo, e autoridades americanas e turcas dizem acreditar que a elite mercantil de ambas as cidades acabarão por se voltar contra Assad.

"Eu não posso mais me dar ao luxo de comprar nada para a minha família", disse Ibrahim Nimr, analista econômico que mora em Damasco. "Eu não estou ganhando mais dinheiro. Estou enfrentando dificuldades e não sei o que fazer."

Um empresário em Damasco, que falou sob condição de anonimato por medo de represálias, declarou: "As pessoas não estão comprando nada do que precisam atualmente. Apenas as necessidades mais básicas."

Autoridades americanas e turcas dizem que um colapso não é iminente e que o governo pode provavelmente sobreviver até o final do ano. Mas eles agora acreditam que é possível que o número de vítimas das sanções e dos protestos possa derrubar Assad em seis a 18 meses.

"Estamos todos esperando por aquilo que irá acabar com ele", disse um oficial do governo Obama, falando sob condição de anonimato. "E será a economia que irá acordar todo mundo, tanto aqueles que o apoiam quanto o próprio Assad e seu círculo."

As receitas de exportações de petróleo e gás, que correspondem a até um terço das receitas do Estado e são a sua maior fonte de moeda estrangeira, vão secar no início de novembro, quando uma proibição da União Europeia sobre as importações entrará plenamente em vigor.

AP
O presidente da Síria, Bashar Al-Assad, em reunião em Damasco (17/08)
Os tumultos paralisaram a indústria do turismo, que traz cerca de US$ 7,7 bilhões por ano ao país. Vários hotéis em Damasco disseram não ter reservas agora ou no futuro próximo – alguns proprietários de hotéis disseram que fecharam suas instalações, porque já não podiam se dar ao luxo de pagar salários e contas.

O dono de uma pequena loja de doces no Souk al-Hamidiyeh, um antigo mercado no centro de Damasco, disse não ter visto um único turista desde março, quando o levante contra Assad teve início. "E não parece que veremos turistas tão cedo", acrescentou.

O Dik al-Jin, um dos restaurantes mais antigos de Homs, cidade na região central da Síria, e local popular para casamentos e festas também fechou logo após as manifestações eclodirem por causa da falta de clientes.

Mas persistem as incertezas sobre a estratégia internacional de exercer pressão sobre a economia síria. Autoridades americanas e europeias têm debatido se as sanções vão prejudicar os sírios comuns mais do que a liderança do país. Alguns analistas afirmaram que o governo pode tentar se projetar como uma vítima e pedir apoio a tribunais internacionais, retratando as sanções como uma competição de "nós contra eles".

De fato, na década de 1990 no Iraque, que foi atingido por sanções abrangentes, a ira popular foi muitas vezes dirigida a Organização das Nações Unidas e ao ocidente, e não ao governo de Saddam Hussein.

Por enquanto, e apesar de a economia desgastada, o governo parece impulsionado por um sentimento de confiança por ter anulado alguns dos protestos em massa em cidades como Hama e Deir al-Zour. Oficiais sírios já enfrentaram sanções antes, resistindo a elas e esperando por melhores condições na região.

Oficiais sírios também foram encorajados quando a China e a Rússia vetaram uma resolução no Conselho de Segurança da ONU que condenou a opressão violenta aos manifestantes anti-governo na semana passada. "Eu concordo que eles estão mais confiantes agora do que antes", disse o oficial americano.

Nos últimos meses, autoridades sírias do Ministério da Economia e do Comércio e do Ministério das Finanças rejeitaram em declarações públicas os efeitos das sanções sobre a economia e as reservas em moeda estrangeira. Em setembro, Mohammad al-Jleilati, o ministro das Finanças, disse que o país tinha US$ 18 bilhões em reservas em moeda estrangeira, o suficiente para garantir as importações por dois anos. Embora a maioria dos especialistas conteste este número, eles reconhecem que dada a falta de transparência é difícil determinar o montante real.

Mas o impacto econômico parece maior do que em crises passadas e as autoridades da Turquia, antes um parceiro comercial importante para a Síria, estão se preparando para impor suas próprias sanções. Os números do próprio governo sírio ressaltam um sentimento de fé na economia em declínio.

Estatísticas recentes publicadas pela Agência de Investimento da Síria, uma empresa estatal que supervisiona o investimento em infra-estrutura de transporte e setores da agricultura no país, apontam para uma diminuição na confiança dos consumidores e investidores. A agência informou que 131 licenças para projetos de investimento privado foram emitidas no primeiro semestre do ano, um decréscimo de 40% em comparação com os primeiros seis meses do ano passado.

Os ativos nos cinco maiores bancos da Síria caíram quase 17% no primeiro semestre de 2011, enquanto os depósitos em bancos libaneses que operam na Síria caíram 20% desde 2010, de acordo com um relatório divulgado pelo Banco Byblos libanês.

Até agora, autoridades sírias que parecem estar perplexas com a revolta e como lidar com ela, anunciaram uma série de medidas que a maioria dos especialistas diz que podem aprofundar a crise. Entre essas etapas, esteve uma decisão no mês passado de proibir a importação de muitos bens de consumo para proteger as reservas de moeda estrangeiras da Síria. Essa medida criou tal comoção nacional e regional a respeito do aumento de preços que o governo decidiu revogá-la uma semana depois.

Outra decisão foi aprovar um orçamento de US$ 26,53 bilhões, um aumento de 58% em relação ao orçamento do ano passado e o maior da história da Síria.

"Onde é que eles vão conseguir esse dinheiro?", perguntou Nabil Sukkar, um ex-funcionário do Banco Mundial que agora dirige um instituto de pesquisa independente sediado em Damasco. "Esse é o grande ponto de interrogação. Agora temos menos receita. Ninguém de fora vai nos ajudar. Nós temos reservas, mas elas estão sendo utilizadas."

Houve relatos não confirmados de dentro da Síria de que os oficiais de algumas instituições públicas foram convidados a contribuir com o equivalente a US$ 10 por mês para um fundo especial que vai para o governo.

Durante anos, Assad se retratou como um modernizador e o consumismo recente em Damasco e Aleppo parecia marcar uma ruptura com os anos lúgubres associados ao regime de três décadas de seu pai. Em abril, um mês após o início do levante, o Fundo Monetário Internacional previu um crescimento de 3% para 2011 e 5,1% para 2012 para o país.

"Nós estávamos a caminho de avançar rumo a uma economia forte", disse um especialista em economia baseado em Damasco, que falou sob condição de anonimato por medo de represálias. "Começamos a ver um aumento nos investimentos estrangeiros e locais. O impulso existia até sermos atingidos pela crise. Infelizmente, estou muito pessimista."

Por Nada Bakri

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