Economia mista da China desafia suas mulheres

Três décadas depois de reformas econômicas, chinesas têm mais liberdade de escolha, mas setor privado nem sempre é acolhedor

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A pergunta que atrapalha as perspectivas de Angel Feng conseguir um trabalho sempre veem por último. Fluente em chinês, inglês, francês e japonês, Angel, 26 anos de idade e formada em administração de negócios, passou por entrevistas em dezenas de empresas em Pequim neste ano em busca de seu primeiro emprego no setor privado, onde os salários são mais elevados.

"O chefe fazia várias perguntas sobre as minhas qualificações e então ele dizia: ‘Vejo que você acabou de se casar. Quando você vai ter um bebê?’" recorda Feng. "Eu respondia que apenas em cinco anos, pelo menos, mas eles não acreditavam em mim".

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Angel tem 26 anos de idade e é formada em administração de negócios
Recusada em todas as oportunidades, ela conseguiu um emprego em um "lugar muito ruim" e logo pediu demissão. Finalmente, acabou em uma organização "semiestatal" dirigida pelo Ministério da Educação. O salário é menor, mas ela recebe benefícios que remontam à era socialista, incluindo pelo menos 90 dias de licença de maternidade com remuneração integral.

Reforma econômica

Sua situação diz tudo sobre os desafios enfrentados pelas mulheres na economia híbrida da China, três décadas depois de o país ter embarcado na sua deslumbrante reforma econômica. As mulheres de hoje, sem dúvida, têm mais liberdade para escolher seus caminhos, mas o setor privado em expansão não é sempre acolhedor.

Conforme as estruturas da era socialista encolhem, as poderosas tradições culturais que ditam que os homens têm mais valor do que as mulheres – por muito tempo suspensas diante do apoio oficial do Partido Comunista aos direitos das mulheres – voltam com força.

Muitos empregadores estão optando por não contratar mulheres em uma economia onde há excesso de mão de obra e na qual as mulheres são vistas como despesas adicionais na forma da licença maternidade e dos custos do parto. A lei estipula que os empregadores devem ajudar a cobrir essas despesas e as feministas buscam um sistema de apoio estatal para o seguro saúde que envolva o parto, visando diminuir a discriminação.

O resultado é que mesmo candidatas altamente qualificadas, como Angel, podem ter dificuldades em encontrar um equilíbrio. Depois de inúmeras rejeições, ela finalmente encontrou trabalho em uma empresa que promove marcas chinesas. Essa dificilmente seria sua primeira escolha.

As horas de trabalho eram longas e uma colega que sofreu um aborto tardio foi obrigada a voltar ao trabalho no prazo de três dias. Seu salário era de cerca de US$ 745 por mês, sem benefícios. Ela saiu em julho e seguiu para um trabalho na Associação de Educação da China para Intercâmbio Internacional. A remuneração é baixa, cerca de US$ 625 por mês, mas ela recebe um subsídio de habitação e, pelo menos, o empregador não se opõe a suas funcionárias terem bebês.

O trabalho pode ser "um pouco chato", ela disse, mas, por enquanto, ela fez a sua escolha.

Posição

Jianmei Guo, diretor do Centro de Serviços e Assessoria Jurídica da Mulher Pequim Zhongze, insiste que, em geral, as mulheres de hoje estão em uma posição melhor do que há três décadas.

"Elas sabem muito mais sobre os seus direitos", ela disse. "Elas são mais educadas. Para aquelas com espírito competitivo, há um mundo de oportunidades aqui e agora, sejam elas empresárias, cientistas, agricultoras ou até mesmo líderes políticas. Realmente houve grandes mudanças".

Mas as preocupações práticas sobre como lidar com um mundo altamente competitivo também estão contribuindo para uma crise de identidade entre as mulheres poderosas da China.

"O principal problema que enfrentamos é a confusão sobre quem somos e o que devemos ser", disse Qin Liwen, colunista de revista. “Devo ser uma mulher ‘forte’, ganhar dinheiro e ter uma carreira, talvez ficar rica, mas arriscar não encontrar um marido ou ter um filho?", questiona.  ''Ou eu deveria me casar e ser uma dona de casa, apoiar meu marido e educar meu filho? Ou eu deveria ser uma 'raposa' – o tipo de mulher que se casa com um homem rico, dirige um BMW, mas tem de aguentar suas concubinas?”

Yuan Feng, diretor do Centro de Estudos da Mulher na Universidade de Shantou, disse que muitas mulheres estão optando por deixar o setor privado. ''O setor estatal é bastante popular entre as mulheres porque os seus direitos são mais respeitados ali”, disse.

Leis

Pelo menos no papel, os direitos das mulheres devem ser bem protegidos. Em 2005, o governo alterou a Lei 1.992 marco da proteção dos direitos e interesses das mulheres, conhecida como Constituição da Mulher, para fazer da igualdade de gênero uma política estatal explícita. Também proibiu, pela primeira vez, o assédio sexual.

Contudo, a discriminação sexual é generalizada. Poucas mulheres se atrevem a processar empregadores por práticas desleais de contratação, demissão por motivo de gravidez ou licença maternidade ou assédio sexual, dizem os especialistas. Empregadores geralmente especificam o sexo, idade e aparência física em ofertas de emprego.

Há lacunas na lei. Um dos principais problemas, disse Yuan Feng, é que ela não define a discriminação sexual. A lei também adere à antiga exigência de que as mulheres se aposentem cinco anos antes do que os homens no mesmo trabalho, reduzindo salários e pensões.

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Shi trabalha como babá e se orgulha da riqueza que consegue acumular
Em 2008, 67,5% das mulheres chinesas com mais de 15 anos estavam empregadas, disse Yang Juhua do Centro de Estudos de População e Desenvolvimento da Universidade de Renmin, citando estatísticas do Banco Mundial. Esse número revelou uma queda em relação aos dados mais recentes do governo chinês, registrados desde 2000, mostrando que 71,52% das mulheres entre 16 e 54 anos estavam empregadas, em comparação com 82,47% dos homens entre 16 e 59 anos. Yang calculou que as mulheres ganham 63,5% dos salários dos homens, uma queda em relação aos 64,8% registrados em 2000.

Casos

E ainda há muitas histórias de sucesso individual, com base no trabalho duro e alguma sorte. Shi Zaihong é uma delas. Nascida em uma família rural pobre na província central de Anhui, Shi, agora com 41 anos, ela chegou a Pequim para trabalhar como babá em 1987. Ela recebia cerca de US$ 6 por mês.

Hoje, ela mantém 10 empregos entre faxinas e cuidados com crianças, recebendo US$ 1.050 por mês. Com o marido, que tem uma pequena empresa de colocação de anúncios, ela comprou um apartamento nos arredores de Pequim por cerca de US$ 75 mil – um feito surpreendente para uma trabalhadora migrante, com apenas cinco anos de ensino.

Mãe de um filho de 16 anos e uma filha de 3 anos de idade, Shi agora ela pode pedir sua custódia jurídica para que eles venham morar com ela porque a compra da propriedade confere este direito, disse.

Os olhos de Shi brilham quando ela fala sobre sua acumulação de riquezas, superando de longe o que sua mãe foi capaz de conseguir como agricultora. ''Eu tenho aproveitado todas as oportunidades que tive e tenho sempre trabalhado duro", disse ela. "As coisas estão bem. Muito bem.”

*Por Didi Tatlow Kirsten

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