Economia forte impulsiona Brasil no cenário mundial

FORTALEZA, Brasil - Desesperada para escapar de uma vida difícil numa das regiões mais pobres do Brasil, Maria Benedita Sousa usou um pequeno empréstimo para comprar duas máquinas de costura e abrir seu próprio negócio de lingeries há cinco anos.

The New York Times |

Hoje, Sousa, mãe de três filhos que começou trabalhando em uma fábrica de jeans recebendo um salário mínimo, emprega 25 pessoas numa modesta fábrica de dois quartos que produz 55 mil pares de lingerie de algodão por mês. Ela comprou e reformou uma casa para sua família e agora pensa em comprar um segundo carro. Sua filha, que estuda para se tornar farmacêutica, pode ser a primeira pessoa na família a se formar numa universidade.

"Você não imagina minha felicidade", disse Sousa, 43, na fábrica da Big Mateus, nome colocado em homenagem a um de seus filhos. "Eu vim do interior para a cidade grande. Eu lutei muito e hoje meus filhos estudam, uma está na universidade e os outros estão na escola. Isso é um presente de Deus."

Atualmente seu país se supera da mesma forma. O Brasil é a maior economia da América do Sul e, segundo os economistas, o país finalmente mostra sinais de que cumprirá seu antecipado potencial como jogador global ao viver sua maior expansão econômica em três décadas.

Esse crescimento é sentido em quase todas os setores da economia, criando uma nova classe de super ricos mesmo enquanto pessoas como Sousa conseguem chegar a uma classe média em contínua expansão.

Isso também deu ao Brasil uma nova postura e uma maior vantagem estratégica ao pressionar por melhores acordos com os Estados Unidos e Europa nas negociações do comércio mundial. Depois de sete anos, essas negociações finalmente ruíram nesta semana sob a pressão de exigências da Índia e China de garantias para seus fazendeiros, um claro sinal do poder dessas economias emergentes.

Apesar dos temores demonstrados pelos investidores sobre as tendências esquerdistas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando eleito em 2002, ele demonstrou suavidade em relação ao controle da economia, evitando impulsos populistas como os dos líderes na Venezuela e Bolívia.



Trabalhador na nova plataforma da Petrobras em Angra dos Reis / NYT

Ao invés disso, Lula alimentou o crescimento do Brasil através de uma hábil combinação de respeito pelo mercado financeiro e programas sociais direcionados, que ajudaram milhões de pessoas a sair da pobreza, disse David Fleischer, analista político e professor emérito da Universidade de Brasília. Maria Benedita Sousa é uma dessas beneficiárias.

Há muito conhecido por sua desigual distribuição de riquezas, o Brasil diminuiu o vão entre as rendas em 6% desde 2001, mais do que qualquer outro país na América do Sul nessa década, disse Francisco Ferreira, economista do Banco Mundial.

Enquanto os 10% mais ricos viram sua renda cumulativa aumentar 7% de 2001 a 2006, os 10% mais pobres tiveram um crescimento de  58%, disse Marcelo Cortes Neri, diretor do Centro de Política Social da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.

Além disso, o Brasil gasta mais do que seus vizinhos da América Latina em programas sociais e o gasto público geral continua a ser quatro vezes maior do que a porcentagem que México gasta de seu Produto Interno Bruto (PIB), disse Ferreira.

Crescimento

Ainda assim, o momento de expansão econômica deve continuar. Enquanto os Estados Unidos e parte da Europa lutam com a recessão e os resultados da crise imobiliária, a economia brasileira mostra pouco da vulnerabilidade existente em outras potências emergentes.

O país diversificou muito sua base industrial, tem um enorme potencial de expansão do crescente setor agrícola para terrenos não utilizados e uma enorme reserva de recursos naturais. A descoberta de petróleo também colocará o Brasil entre as potências produtoras do material na próxima década.

Ainda que a exportação do petróleo e de produtos agrícolas tenha sido responsável por muito do seu crescimento atual, o Brasil depende cada vez menos dela, dizem os economistas, tendo a vantagem de um enorme mercado doméstico (185 milhões de pessoas) que se torna cada vez mais rico através do sucesso de pessoas como Sousa.

Na realidade, com uma moeda mais forte e a inflação quase estável, os brasileiros seguem um ritmo de gastos que se tornou o principal motor da economia, que cresceu 5,4% no ano passado.

Ele compram desde produtos nacionais até uma quantidade cada vez maior de produtos importados disponíveis no país. Muitas empresas relaxaram os termos de crédito para permitir que os brasileiros paguem por geladeiras, carros e até mesmo cirurgias plásticas ao longo dos anos ao invés de meses, mesmo que com uma das taxas de juros mais altas do mundo. Em junho o país atingiu 100 milhões de cartões de crédito emitidos, um salto de 17% em relação ao ano passado.

Nas Casas Bahia, uma cadeia de lojas de móveis a preços modestos, o número de consumidores comprando itens em prestações triplicou para 29,3 milhões entre 2002 e 2007, disse Sônia Mitaini, porta-voz da companhia.

Outro sinal da nova riqueza, em Macaé, uma cidade nascida do petróleo perto do Rio de Janeiro, construtores correm para terminar um novo shopping center e um complexo de moradia de luxo para acompanhar a demanda de empresas ligadas ao setor em crescimento. Num porto em Angra dos Reis, uma cidade conhecida por suas espetaculares ilhas, cerca de 25 mil trabalhadores conseguiram emprego construindo novas plataformas petrolíferas brasileiras.

Petróleo

A Petrobras, a companhia de petróleo nacional do Brasil, chocou o mundo em novembro ao anunciar que seu campo de exploração Tupi, na costa do Rio de Janeiro, pode ter entre 5 e 8 bilhões de barris do produto. Os analistas acreditam que a região pode ter outros milhões de barris, fazendo do país o segundo maior produtor da América Latina, atrás apenas da Venezuela.

Ainda que o petróleo seja caro e complicado de se extrair, a Petrobras disse que espera produzir até 100 mil barris por dia do campo Tupi até 2010 e até um milhão de barris diários em uma década.

O novo petróleo representou um súbito investimento no Rio de Janeiro, com a expectativa de que US$ 67 bilhões entrem no Estado até 2010, de acordo com o governo do Rio. Somente a Petrobras deve investir US$ 40,5 bilhões até 2012 na região.

Alguns economistas dizem que o desaceleramento da economia no resto do mundo, especialmente na Ásia, que garante a exportação brasileira de soja e minério de ferro, pode prejudicar o crescimento local. "Mas essa probabilidade é pequena", disse Alfredo Coutino, economista para a América Latina do Moody's no site Economy.com .

Na verdade, por causa da diversificação da economia brasileira nos últimos anos, o País se tornou menos suscetível aos reflexos dos problemas econômicos nos Estados Unidos, ao contrário de muitos países na América Latina.

A exportação brasileira para os Estados Unidos representa apenas 2,5% do Produto Interno Bruto do País, em comparação aos 25% do PIB que é a exportação mexicana, de acordo com Moody's.

"O que torna o Brasil mais resistente é que o restante do mundo não importa tanto", disse Don Hanna, líder de mercados emergentes no Citibank.

No entanto, o resto do mundo certamente ajudou. O aumento global no preço dos minerais e outros produtos criou uma nova classe de super ricos. O número de brasileiros com fortunas líquidas de mais de US$ 1 milhão cresceu 19% no ano passado, ficando em terceiro atrás da China e Índia, de acordo com uma pesquisa da Merrill Lynch e CapGemini.

Programas sociais

Ao mesmo tempo, Lula aumentou muitos dos programas sociais iniciados há 10 anos pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, que conduziu muitas das reformas estruturais que criaram a base para o crescimento estável do Brasil hoje.

No caso de Sousa, por exemplo, ela deve muito de seu sucesso aos empréstimos que recebeu do Banco do Nordeste, uma instituição financiada pelo governo que concedeu micro empréstimos a 330 mil pessoas que queriam investir em negócios nessa região de rápido crescimento.

Outros programas, como a Bolsa Família, dão pequenos subsídios a milhões de brasileiros pobres para que comprem alimentos e outros bens essenciais. A Bolsa Família, que beneficia 45 milhões de pessoas em todo o País ao distribuir um orçamento anual de RS$ 8,75 bilhões, tem sido muito mais eficiente em ajudar a elevar a renda per capita do que os aumentos recentes no salário mínimo, que subiu 36% desde 2003.

A própria natureza dos programas sociais ajudou a expandir tanto o emprego formal quanto o informal, bem como a classe média brasileira. O número de pessoas abaixo da linha da pobreza (definida como aqueles que ganham menos de US$ 80 ao mês) caiu 32% entre 2004 e 2006, disse Neri.

Os programas têm sido particularmente efetivos no nordeste brasileiro, historicamente uma das regiões mais pobres do País. Os moradores da região receberam mais da metade dos investimentos em programas sociais entre 2003 e 2006, de acordo com a Empresa de Pesquisa Energética, um braço do Ministério da Energia.

As pessoas daqui usam essa nova afluência para adquirir itens como televisões e geladeiras mais rapidamente do que no resto do País. O nordeste ultrapassou o sul do País no consumo de energia este ano pela primeira vez na história do Brasil, afirmou a agência de energia.

Muitas famílias chegaram à classe média usando a Bolsa Família para suprir suas necessidades básicas e então pedindo pequenos empréstimos para abrir seus próprios negócios e sair da economia informal.

Isso é o que Maria Auxiliadora Sampaio e seu marido fizeram em Fortaleza, uma cidade costeira de 2,4 milhões de pessoas. Eles receberam o Bolsa Família de cerca de US$ 30 ao mês, que usaram para sustentar seus três filhos. Então, há dois anos, Sampaio usou um micro empréstimo de US$ 190 para comprar esmaltes e dar início a seu negócio de manicure em sua própria casa.

Hoje ela ganha cerca de US$ 70 por dia fazendo unhas (quase quatro salários mínimos ao mês, segundo ela). Com o próximo empréstimo ela planeja investir cerca de US$ 140 num forno esterilizador, pois hoje usa água fervida.

Os frutos de seu novo negócio permitiram que o casal reformasse sua casa e comprasse uma televisão e um celular. Este mês, seu marido, que trabalha numa fábrica de cachaça, conseguiu realizar um sonho: comprar uma bateria.

Ele quer usar o instrumento para começar uma banda de forró, uma música tradicional do nordeste. "Nós sempre comemos e pagamos as contas, mas ele esperou e esperou" e finalmente comprou a bateria por cerca de US$ 780 à vista, ela disse.

"Eu sinto como se fizesse parte de um grupo de pessoas que está subindo na vida", disse Sampaio, 28. "Quando você não tem nada, não tem profissão, não tem meios de sobrevivência, você não é nada, você é um mosquito. Eu era nada. Hoje eu estou no paraíso". 

Por ALEXEI BARRIONUEVO

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