Economia chinesa trilha caminho arriscado

Como o Japão, China segue modelo econômico induzido pelo Estado que pode ser mais útil no início que na manutenção do crescimento

The New York Times |

A Casa Branca enviou 200 dignitários à capital chinesa para negociações que buscam fortalecer o relacionamento entre os países, um número que revela uma ordem mundial em processo de rápida inversão. De um crescimento econômico que triplicou em uma década à grande quantidade de hotéis cinco estrelas e carros milionários de hoje seria um clichê dizer que o mundo nunca viu nada parecido a esta potência.

Mas na verdade, o mundo já viu isso antes. Vinte anos atrás, o Japão era essa potência, uma máquina econômica suave e estável pronta para dominar o comércio e a diplomacia mundial em algumas décadas, de acordo com a sabedoria convencional e alguns dos melhores livros sobre o assunto. Quando o Presidente George Bush desmaiou em um jantar em Tóquio em 1992, vomitando na perna do primeiro-ministro japonês, aquilo foi amplamente considerado um evento emblemático de um ocidente envolto em recessão suplicando diante do oriente em ascensão.

O fato de nada ter acontecido não prejudica a perspectiva futura da China. Mas conforme os estrangeiros contemplam a transformação da China de uma nação camponesa para um colosso econômico, os riscos de se extrapolar do robusto presente da China para um futuro indeterminado não devem ser ignorados. A ascensão da China é sem dúvida um milagre econômico. Mas como o Japão, a China segue um modelo econômico induzido pelo Estado que pode ser mais útil nos primeiros estágios do que na manutenção do crescimento no futuro.

"O Japão adotava um modelo econômico que funcionou fenomenalmente bem ao longo de 40 anos. E que deixou de funcionar", disse Arthur Kroeber, diretor da Dragonomics, uma empresa de previsão econômica com base em Pequim. "Isso prova que o modelo dos primeiros 40 anos estava errado? Não - mas prova que estava certo para aquela fase do desenvolvimento do Japão".

Muitas das queixas levadas por oficiais americanos à cúpula de Diálogo Estratégico e Econômico de Pequim esta semana - sobre mercados fechados à concorrência externa, apropriação injusta de tecnologias americanas, desvalorização do dólar que aumenta o déficit comercial americano - podem parecer comuns para quem seguiu a relação entre EUA e Japão há duas décadas.

Durante grande parte do século 20 pós-guerra, o Japão edificou um império de empresas privadas intimamente ligadas e favorecidas pelo Estado. O país construiu um comércio colossal cujas exportações foram injetadas - segundo críticos americanos - por um iene artificialmente baixo. Os fabricantes japoneses foram acusados de se apropriar de tecnologias americanas para criar produtos eletrônicos de baixo custo. Os mercados comerciais e financeiros do Japão eram impenetráveis aos concorrentes americanos.

O deficit comercial americano com o Japão irritou o Congresso a pronto de preparar o terreno em Washington para que na década de 1980 orquestrasse uma valorização do iene em relação ao dólar para ajudar a proteger os produtores americanos.

A China hoje também tem uma série de grandes corporações, embora ao contrário do Japão ela sejam explicitamente de propriedade estatal e muitas vezes vistas como instrumentos de política governamental. Amplos setores da economia, incluindo o financeiro, de comunicações, energia e de alguns setores de produção cruciais, estão fora do alcance de concorrentes estrangeiros ou mesmo nacionais.

O renminbi, a moeda da China, é por consenso global - com exceção do país - mantido excessivamente baixo para alimentar a máquina de exportação chinesa. Quando o secretário do Tesouro Timothy F. Geithner chegou à China, no domingo, seu discurso a políticos chineses afirmou que as regras do país estão forçando companhias americanas a entregar suas preciosidades tecnológicas pela simples possibilidade de concorrer no mercado da China.

Algumas destas táticas foram seguidas pelo Japão e outros países em desenvolvimento que procuravam aumentar sua economia com base na exportação.

A China é diferente em dois aspectos que podem parecer contraditórios. Por um lado, grandes indústrias como petróleo, telecomunicação e aviação são consideradas estratégicas e estão sob rígido controle do Estado. Das 22 empresas chinesas listadas na revista de análise Fortune Global 500, 21 são controladas pelo governo central da China ou bancos estatais. Apenas uma, a Shanghai Automobile, é dirigida por um governo local. Nenhuma é privada.

Estas "campeãs nacionais", como o governo as qualifica, estão na vanguarda da tentativa chinesa de liderar em mercados globais e são as propagadoras dos valores econômicos do país.

Por outro lado, a indústria ligeira, o comércio e o crescente setor de exportação do país são mais livres para seguir as regras de Adam Smith. Ao contrário do Japão, comércios e produtos ocidentais, de Wal-Mart a Snickers e Tesco, são onipresentes na China e competem fortemente com concorrentes nacionais. E muitos dos produtos de exportação da China, como iPods e tênis Nike, são produzidos para ou por multinacionais estrangeiras que mantêm grande parte do lucro sobre a sua venda.

De acordo com a lógica chinesa, não há qualquer contradição nisso. Como a liberdade de expressão, os direitos humanos e qualquer outro fundamento da sociedade, a iniciativa privada na China é vibrante e aberta a estrangeiros, mas apenas enquanto não ameaçar os interesses do Estado.

Se esta fórmula parece anátema para países capitalistas ocidentais, as três décadas de crescimento contínuo de Pequim falam por si mesmas. Mesmo um oficial de alto escalão do Departamento do Tesouro que está em Pequim esta semana para negociações, disse que a estabilidade fiscal da China conseguiu aperfeiçoar a arte de equilibrar forças em conflito em uma economia de 1,3 bilhões de pessoas.

Menos claro, segundo muitos economistas, é por quanto tempo esta fórmula irá funcionar. A própria China está mudando rapidamente: países concorrentes de baixo custo, como o Vietnã, já começaram a atrair algumas das indústrias que alimentaram o crescimento de Pequim. A crise mundial e o fato da China já dominar algumas indústrias cruciais sugerem que o país já não pode contar com o aumento nas exportações como fonte de crescimento.

Pequim se comprometeu a diminuir sua dependência nas exportações aumentando o consumo interno. Mas isso exige uma mudança nos hábitos de consumo de uma população acostumada a economizar para imprevistos, como a educação e assistência médica, ao invés de gastar. Mudar isso pode levar muito tempo.

E também há a dívida da China. Alguns economistas influentes sugerem que a China tem crescido em parte porque se apropriou das economias do seu povo para financiar trens de alta velocidade, empresas de siderurgia e investimentos imobiliários especulativos.

A produtividade deste investimento estatal ainda é questão de debate, mas eles têm claramente ajudado o desenvolvimento da China até agora. Mas assim como as exportações não podem aumentar indefinidamente, em algum momento as receitas de construir novas estradas e fábricas devem diminuir.

O governo central ultrapassou várias crises relacionadas à dívida na última década, resgatando os seus bancos após investimentos imprudentes. Muitos analistas antecipam mais resgates depois que o governo inundou a economia com dinheiro barato após a crise financeira de 2008.

O milagre econômico do Japão acabou com o colapso de uma enorme bolha imobiliária, agravada por uma série de erros políticos que levou a um longo período de estagnação. A economia da China ainda se encontra numa fase mais inicial de desenvolvimento e o seu governo deve procurar evitar os erros que agravaram o declínio do Japão.

Mas saber se os investimentos estatais e o desenvolvimento baseado em exportações que fizeram da China uma potência econômica podem ser substituídos em breve por novas fontes de crescimento se tornou uma questão mais urgente.

"Os fundamentos chineses são bons", disse Huang Yasheng, professor da Escola de Gestão Sloan do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. "Mas a política não foi alterada e não se pode depender de estímulos externos artificiais para manter a sua economia".

Por Michael Wines

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