Dor do Haiti impulsiona igreja carismática em Nova York

Terremoto que matou cerca de 250 mil atraiu mais fiéis e tornou devoção ainda mais exuberante na Igreja de SS. Joachim e Anne

The New York Times |

Em um sábado à noite no porão de uma igreja de maioria haitiana em Nova York, em uma sala branca vazia ao som de hinos e exclamações, uma jovem mulher pode canalizar o Espírito Santo para revelar notícias do Haiti.

O terremoto que matou cerca de 250 mil de haitianos 10 meses atrás tornou a devoção ruidosa dos fiéis da Igreja de SS. Joachim e Anne ainda mais exuberante. Em 12 de janeiro, quase duas horas depois do terremoto trazer devastação à sua terra natal, os imigrantes haitianos inundaram a igreja, dançando, cantando, agitando os braços acima de suas cabeças – e louvando a Deus. Em meio a lamentações e ao surpreendente dilúvio de agradecimento de pessoas que ainda não sabiam se seus parentes estavam vivos ou mortos, eles ficaram sem lenços.

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Oração na Igreja de SS. Joachim e Anne, em Nova York, que ganhou adeptos após terremoto de janeiro
Olivia Benoit, uma das fiéis mais enérgicas da região lembra que "a água estava escorrendo dos olhos".

A dor continuou na primavera e o comparecimento aumentou conforme as pessoas buscavam consolo em uma prece carismática cada vez mais fervorosa, que infunde mais e mais a paróquia e o catolicismo do Haiti. O jovem reverendo Jean-Moise Delva, realizou uma dúzia de missas em nome dos mortos do terremoto, passou agosto no Haiti ministrando em um acampamento sufocante e ainda luta com sentimentos de desamparo e desesperança. Em outubro, os fiéis lotaram a SS. Joachim e Anne cantando e dançando e erguendo fotos de parentes doentes aos céus em busca de cura enquanto uma freira reverenciada invocava o Espírito Santo.

O desastre está reformulando a religião haitiana. Ele exigiu resistência - não apenas dos haitianos e haitianos-americanos, que muitas vezes dizem ter uma resistência de inspiração divina, mas também da própria fé, de repente, mais vulnerável à dúvida, desilusão e concorrência. E deu nova vida à versão haitiana do catolicismo carismático, que busca contato direto com o Espírito Santo por meio de uma reza desinibida.

Este ano, para muitos haitianos, a adoção da emoção pura pelo movimento pareceu a única resposta sensata.

História

O catolicismo permeia a história e a identidade do Haiti. Mas o terremoto aconteceu quando o catolicismo se desgastava. Pentecostais e protestantes - prometendo uma ligação mais direta e menos hierárquica com Deus – têm feito incursões em Nova York e no Haiti. O governo dos Estados Unidos lista o Haiti como um país 80% católico, mas um levantamento da ONU constatou que, até 2003, esse número caiu para 55% e 29% dos haitianos se identificam como protestantes.

O movimento católico carismático nasceu durante uma mudança na fé. Em 1967, dois anos após o Segundo Concílio do Vaticano amenizar a importâcia do ritual, um grupo de estudantes católicos se disse inspirado pelo Espírito Santo para falar em línguas desconhecidas – como os pentecostais que já adotavam o misticismo do cristianismo no século um.

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Fiéis durante oração na Igreja de SS. Joachim e Anne, que reúne haitianos e ahaitianos-americanos em Nova York
O movimento se espalhou, misturando fervor à moda antiga com uma participação mais progressiva e direta para leigos, especialmente as mulheres. Alguns párocos se opuseram, mas os líderes da igreja viram potencial para atrair fiéis e o papa Paulo 6 abraçou o movimento em 1975.

Naquele ano, o homem que criaria a Igreja de SS. Joachim e Anne como uma plataforma para os carismáticos, o reverendo Joseph Malagreca, era um sacerdote ítaloamericano recém-ordenado,  inflamado por seu próprio "batismo no Espírito Santo". Ele voltou para sua terra natal, Nova York, para ministrar em espanhol e creole aos imigrantes culturalmente inclinados a misturar adoração religiosa com música, emoção e dança.

Delva nasceu no mesmo ano na capital do Haiti, Porto Príncipe, e cresceu sem fazer separação entre as orações carismáticas a que compareceu com suas tias e os rituais formais que aprendeu como coroinha.

Marie Andree Mars, 63 anos, agora um dos paroquianos de Delva, recorda-se da reação dos haitianos ao movimento. Seus pandeiros e palmas, uma reminiscência do vodu, ofenderam sua mãe, ela recordou ("Onde está o silêncio, a reverência?"), e alguns pastores ("Você não vai fazer nada haitiano na minha igreja!").

Mars adotou a prática exatamente por essas razões. A senhora respeitável da igreja, ela veste chapéus com um véu negro e lidera um grupo de rosário todas as manhãs após noites de trabalho nos correios. Ela diz: "Eu adoro dançar e gritar".

Esses carismáticos se uniram à SS. Joachim e Anne, a igreja moderna na margem leste da cidade de Nova York, entre casarios de jardins bem cuidados e ruas repletas de restaurantes caribenhos.

Malagreca, até então um proeminente líder carismático, tornou-se pastor em 1991. Suas missas reconstruíram a congregação, hoje 80% do Haiti.

Na noite do terremoto, o grupo de oração ignorou sua habitual reza, as pessoas simplesmente entraram pelas portas se lamentando. Um deles foi Benoit, pensando em sua sobrinha no Haiti. Intelectualmente, sua fé admite que "o sofrimento é parte da vida". Mas ela precisava de toques e vozes carismáticas que "dissessem: 'eu vou ficar bem'".

O evangélico americano Pat Robertson, referindo-se a uma cerimônia de vodu do século 18 de revolucionários do Haiti, qualificou o terremoto como punição de Deus a um "pacto com o diabo".

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Católicos dançam e cantam em culto na Igreja de SS. Joachim e Anne
Durante meses, pessoas lotaram missas, às vezes, gritando: "Jesus, o Haiti está em suas mãos!". Os sacerdotes chegaram a sentir que a congregação estava ministrando a eles e não o contrário. Robinson, 66 anos, que não é do Haiti, ficou abalada quando as pessoas declararam que, se Deus não tivesse prestado atenção ao desastre, talvez tivesse sido pior. "Essas pessoas são de verdade?" questionou o sacerdote.

Os haitianos, disse Malagreca, precisavam do movimento mais do que nunca. "Eles têm necessidade de intimidade e muita resistência", disse o monsenhor. "E pensam: 'Outro sofrimento está diante de nós. Como vamos fazer isso? Achávamos que o que tínhamos antes era ruim'".

A questão surpreende os de fora: como as pessoas podem tirar alegria e fé de um terremoto? "A comunidade haitiana aqui realmente acha que é abençoada por estar viva", explica Benoit. Se estivessem no Haiti, eles poderiam ter sido "chamados a Jesus"; poupados, “eles estão tentando se preparar agora".

Apoio

Delva planeja regressar ao Haiti para entregar um mínimo de apoio: pequenas bolsas diocesanas para a abertura de negócios de moto-táxis ou barracas de comidas, como uma que seu primo perdeu e precisava de US$ 200 para reconstruir.

Três semanas atrás, ele estava envolto em incenso na vigília de oração mensal durante a noite. As pessoas balançavam nos corredores em uma espécie de dança, a música poderia ser tocada em uma discoteca do Haiti. Alguns rezaram até o amanhecer, parando apenas para tomar sopa de lentilha. Eles cantavam em línguas desconhecidas sílabas ritmicamente fluindo como uma poesia dadaísta.

Foi uma das maiores vigílias e Delva acreditava saber o porquê. Um novo drama atingiu o Haiti naquela noite, o furacão Tomas. As pessoas temiam se afogar nos acampamentos e temiam a propagação da cólera, que tinha aparecido pela primeira vez no país em um século.

Antes do amanhecer, as pessoas pegaram seus rosários e fizeram uma oração em creole. Elas repetiram 50 vezes. "Debloke Ayiti", imploravam a Deus. "Salve o Haiti".

*Por Anne Barnard, com reportagem de Ozier Muhammad

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