Doentes mentais chineses vivem nas sombras

Apesar de ter sido ressuscitada após 35 anos da Revolução Cultural, psiquiatria continua marginalizada na sociedade chinesa

The New York Times |

Depois de cinco meses em uma ala depredada do Hospital Psiquiátrico do Condado Hepu, Yang Jiaqin já não sofre alucinações aterrorizantes. Ainda assim, sua esposa não se atreve a mencionar crianças, nem mesmo as suas, por medo de libertar os demônios que tomaram conta dele na primavera passada (no Hemisfério Norte).

Em uma tarde ensolarada de abril, Yang saiu de sua casa na aldeia rural chinesa de Xizhen, perto da fronteira vietnamita, carregando um facão de cozinha. Ele esfaqueou dois alunos do ensino fundamental, ferindo ambos gravemente, e cortou a garganta de um aluno da segunda série, que deixou para morrer no chão.

The New York Times
Wu Xiaoyu segura foto de seu irmão de 8 anos, Wu Junpei, morto em ataque de Yang Jiaqin em Xizhen, China
Depois, ele seguiu em frente. Quando os policiais o alcançaram e subjugaram, ele havia esfaqueado e levado à morte outras duas pessoas. As famílias das vítimas têm concentrado sua raiva na polícia. Três dias antes, Yang havia atingido um vizinho na cabeça com um machado, mas ele não foi detido. "Eles são completamente responsáveis por isso", disse Wu Huanglong, pai do aluno da segunda série. "Eles não nos protegeram."

Mas os médicos de Yang veem uma falha maior. Apesar de demonstrar claros sinais de esquizofrenia, Yang recebeu cuidados médicos por apenas um mês nos últimos cinco anos. "Se ele tivesse recebido o tratamento necessário, sua doença não teria se desenvolvido", disse Chen Guoqiang, médico chefe do hospital psiquiátrico. "Se tivesse sido capaz de controlar suas alucinações, ele não teria matado alguém."

Já se passaram quase 35 anos desde a Revolução Cultural, quando a doença mental foi declarada uma ilusão burguesa, muitos hospitais psiquiátricos foram fechados e os doentes foram tratados com leituras de Mao. O tratamento psiquiátrico foi ressuscitado, mas a saúde mental continua a ser marginalizada na medicina chinesa, desesperadamente com falta de financiamento, profissionais e estima.

Muitas vezes, a resposta oficial para a doença mental é fechar os olhos. As autoridades do governo, já abaladas por um ataque no mês anterior em que oito estudantes foram esfaqueados até a morte, acobertaram as notícias sobre o incidente em Xichen para que não inspirassem ataques semelhantes ou estimulassem ainda mais indignação.

The New York Times
Foto de identificação do Departamento de Saúde de Yang Jiaqin, em Xizhen, China
Pelo menos três dos seis homens cujos ataques perto de escolas este ano deixaram um total de 21 mortos já haviam demonstrado sinais de loucura, segundo o noticiário. Mas na declaração de mais alto escalão sobre os assassinatos, o primeiro-ministro Wen Jiabao disse apenas que a China precisa resolver "tensões sociais" subjacentes aos ataques.

Yan Jun, diretor da divisão de saúde mental do Ministério da Saúde, recusou inúmeros pedidos de entrevista. O ministério disse em um comunicado que o governo está "reforçando de maneira contínua" os seus recursos e profissionais para prestação de cuidados de saúde mental.

Ainda há muito a ser feito. Apenas 1 em cada 12 chineses que precisam de cuidados psiquiátricos veem um profissional, de acordo com um estudo realizado pela revista médica britânica The Lancet no ano passado.

A China não tem nenhuma lei sobre a saúde mental, tem pouca cobertura de planos de saúde para o tratamento psiquiátrico, quase nenhum cuidado em comunidades rurais, poucos leitos, poucos profissionais e muita burocracia na fraca instituição do governo que regula a saúde mental, segundo especialistas chineses da área.

O gabinete de saúde mental do Ministério da Saúde, criado há quatro anos, é composto por três pessoas. Yan, o diretor, é um especialista em saúde pública, não um psiquiatra.

Todos os anos, a mídia da China declara que uma lei nacional de saúde mental está em processo de desenvolvimento. O primeiro rascunho foi escrito meio século atrás. Questionado a quantas revisões o projeto foi submetido, Ma Hong, do Instituto de Saúde Mental da Universidade de Pequim, disse: "Incontáveis."

A maioria dos hospitais psiquiátricos é financeiramente inviável, disse Yu Xin, que dirige o Instituto de Saúde Mental da Universidade de Peking. Um deles, na Província de Hubei, abriu uma fábrica de caixas em 1990 para conseguir sobreviver. A estrutura de preços é tão absurda, disse, que os hospitais podem cobrar mais dos pacientes por diagnósticos dados por computadores com base em formulários do que por sessões com psiquiatras de verdade.

"O governo não quer desembolsar o dinheiro para tratar essas pessoas, então eles simplesmente as devolvem às suas famílias", disse Huang Xuetao, um dos autores do relatório.

Entregues a si próprios, alguns parentes recorrem a soluções de partir o coração. Em 2007, He Jiyue, um psiquiatra do governo, descobriu um homem de 46 anos trancado atrás de uma porta de metal em um quarto mal cheiroso em uma casa rural na Província de Hebei. O homem estava mentalmente doente, diziam seus pais idosos. Eles o haviam prendido 28 anos antes, depois que ele atacou o próprio tio.

Nos últimos três anos, trabalhadores chineses do setor de saúde mental resgataram 339 outras pessoas cujos familiares eram muito pobres, ignorantes ou tinham vergonha de procurar tratamento. Alguns, acorrentados em abrigos ao ar livre, foram "tratados como animais", disse Liu Jin, do Instituto de Saúde Mental da Universidade de Pequim.

A escassez crônica de médicos e instalações garantem que o tratamento existente seja limitado. Na China, há cerca de um um psiquiatra para cada 83 mil pessoas – um duodécimo em comparação aos Estados Unidos – e muitos não têm um diploma universitário, muito menos um que seja relacionado à saúde mental, disse Ma.

"Psiquiatras profissionais na China são como pandas", disse Zhang Yalin, diretor assistente do Instituto de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade South Central. "Há apenas poucos milhares de nós."

The New York Times
Paciente é visto em hospital psiquiátrico de Hepu, onde Yang Jiaqin ficou confinado por cinco meses perto de Xizhen, China
O menosprezo à imagem dos psiquiatras na comunidade médica faz com que os estudantes desistam de ingressar na profissão. Dai Jun, um estudante de 24 anos de Wuhan, na China central, disse que estudou psiquiatria quando entrou para a Universidade de Nanjing há seis anos porque era a única especialidade com vagas. Como estagiário, ele notou que os psiquiatras não eram tão bem tratados ou recompensados quanto outros médicos.

"As pessoas pensam: ‘Ah, você está constantemente trancado com os loucos. Talvez você esteja se tornando louco ou já esteja louco. É por isso que quer fazer isso’", disse Dai. Na primeira oportunidade, ele mudou para ortopedia.

* Por Sharon Lafraniere e Dan Levi

    Leia tudo sobre: chinasaúde mentalpsiquiatria

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG