Do bunker, filha de Kadafi lança luz sobre vida sitiada na Líbia

Aisha Kadafi, advogada que integrou defesa de Saddam Hussein, oferece vislumbre fatalista da família cada vez mais isolada

The New York Times |

Aisha Kadafi, filha de Muammar Kadafi, líder da Líbia, gosta de contar histórias sobre a vida após a morte a seus três filhos quando os coloca para dormir. Agora, segundo ela, esses contos são especialmente adequados.

"É para prepará-las", disse ela. "Em tempos de guerra, você nunca sabe quando um foguete ou uma bomba pode te atingir, e esse será o fim."

Em uma rara entrevista concedida em sua instituição de caridade na capital, Aisha Kadafi, 36 anos, uma advogada formada no país que integrou a equipe de defesa de Saddam Hussein, ofereceu um vislumbre da mentalidade fatalista da família cada vez mais isolada no centro da batalha pela Líbia, o local mais violento da sangrenta insurreição democrática que está varrendo a região.

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Acompanhada por seguranças, Aisha Kadafi participa de manifestação pró-governo em Trípoli, capital da Líbia
Ela qualificou os rebeldes de "terroristas", mas sugeriu que alguns ex-funcionários de Kadafi, que agora estão no Conselho de Governadores da oposição ainda "mantém contato conosco”. Ela fez um apelo em favor do diálogo e falou sobre as reformas democráticas. Mas afirmou que os rebeldes não estão à altura de fazer tais negociações por causa de seu uso da violência, atirou farpas pessoais contra o presidente Barack Obama e a secretária de Estado Hillary Rodham Clinton e, em determinado momento, pareceu denegrir a ideia básica da democracia eleitoral.

Depois de arranjar a entrevista na semana passada, Aisha Kadafi falou durante mais de uma hora na tarde de domingo, poucas horas antes da escalada dos ataques aéreos da Otan que interromperam a transmissão da televisão estatal e outro que atingiu o complexo do líder líbio em Tripoli. Uma dos muitos poderosos não oficiais da família Kadafi que dominam a vida econômica e política da Líbia, ela disse que a crise os uniu ainda mais e que agora operam como se fossem “uma só mão”.

Aisha Kadafi disse que ela e seus sete irmãos mantêm "um diálogo e compartilham pontos de vista", antes que alguém dê um passo importante em defesa da família. Ela reconheceu ter visto notícias de que seus irmãos haviam proposto a saída de seu pai do poder em uma espécie de transição, sob a direção de seu irmão Seif Al-Islam, mas ela se recusou a comentar os detalhes.

Ela também se recusou a responder claramente quando perguntada se Abdel Fattah Younes, um oficial rebelde de alto escalão que era um antigo ministro do Interior, está entre os líderes que mantêm contato com a família Kadafi.

"Eles nos dizem que têm suas próprias famílias, filhas, filhos, cônjuges, e que temem por eles, por isso têm tomado essas posições", disse ela sobre os líderes rebeldes. "Há muitos membros do conselho que trabalharam com meu pai por 42 anos e foram leais a ele. Você acha que eles iriam abandoná-lo assim?”

Raiva

Em vez do desafio raivoso e das promessas de vingança emitidos por seu pai e seu irmão Seif, Aisha Kadafi se concentra em como o Ocidente lamentaria o caos que em sua opinião tomaria conta da Líbia pós-Kadafi. Quando pressionada repetidamente sobre como sua família pode permanecer no poder, ela disse mais de uma vez: "Nós temos grande esperança em Deus."

Aisha Kadafi apareceu em público duas vezes desde que os ataques começaram, diante de multidões de apoiadores no prédio governamental de seu pai, mas ela raramente fala em público. Durante a entrevista, ela usava jeans apertados, sapatos Gucci e um lenço claro que não cobria todo o seu longo cabelo loiro. Às vezes, ela ria de seu destino, lembrando de como as Nações Unidas, que já "implorou" a ela para que fosse uma de suas enviadas da paz, agora a colocou no Tribunal Penal Internacional. Sua equipe apresentou uma biografia ilustrada intitulada "Princesa da Paz".

Ela disse que sua experiência como voluntária na equipe de defesa de Saddam ofereceu paralelos relevantes. "A oposição do Iraque disse ao Ocidente que quando chegassem ao Iraque seriam recebidos com rosas", disse ela. "Quase 10 anos depois, eles estão recebendo os norte-americanos com balas e, acredite, a situação na Líbia vai ser muito pior".

Ela provocou tanto Obama quanto Hillary Clinton, dizendo que Obama "não conseguiu nada até agora", e riu ao perguntar a Hillary Clinton: "Por que você não deixou a Casa Branca quando descobriu a infidelidade de seu marido?"

Mas mesmo ao atacar os líderes dos Estados Unidos, ela repetidas vezes pediu negociações. "O mundo deve se unir em uma mesa redonda", ela disse, "sob os auspícios de organizações internacionais”.

Ao mesmo tempo, ela descartou qualquer diálogo com os rebeldes da Líbia, que agora controlam a metade oriental do país, o seu centro comercial, Misrata, e as cidades montanhesas ocidentais de Zintan e Nalut, chamando-os de "terroristas" que "estão lutando apenas por lutar”.

Sob a liderança não oficial de seu irmão Seif, ela disse, o governo líbio está perto de revelar uma Constituição como um passo para a reforma democrática quando "esta tragédia ocorreu e tudo foi arruinado”.

Ao mesmo tempo, ela também ridicularizou e, possivelmente, não entendeu, ideias básicas como prestação de contas e responsabilidade pública em uma democracia eleitoral. "Deixe-me dizer algo sobre as eleições ocidentais que eles dizem ser um sistema democrático de governo", ela pediu, conferindo anotações manuscritas que tinha preparado para a entrevista. Em uma eleição onde um candidato ganhou com 50% dos votos e outro perdeu com 48%, ela perguntou: "Vocês chamam isso de democracia? Apenas este voto? O que acontece com os 48% que disseram ‘não’?”

Ela reclamou da "traição" dos árabes, cuja causa seu pai havia apoiado e os aliados ocidentais a quem ele entregou as suas armas de destruição em massa. "É essa a recompensa que nós temos?", perguntou ela. "Isso levaria cada país que tem armas de destruição em massa a mantê-las ou fazer mais delas para que não tenham o mesmo destino da Líbia".

Imigrantes

Sem Kadafi, ela previu, os imigrantes ilegais provenientes da África iriam invadir a Europa, os radicais islâmicos estabeleceriam uma base na costa do Mediterrâneo e as tribos líbias usariam suas armas umas contra as outras.

Citando relatórios da inteligência líbia não confirmados, ela afirmou que os rebeldes venderam armas para os grupos islâmicos Hamas e Hezbollah para aplacar a fome. "Quando meu pai estava no poder, vocês viam como a Europa estava segura e como a Líbia era segura", ela perguntou.

Aisha Kadafi inicialmente rejeitou os relatos sobre as poucas noites, há dois meses atrás, em que manifestantes tomaram as ruas de Trípoli e de quase todos as outras grandes cidades do país, tirando cartazes de Kadafi e queimando delegacias. Em seguida, disse que os jornalistas haviam visto as evidências – ela argumentou que a destruição revelava que não eram manifestantes civis, mas "sabotadores".

Ela também apareceu rejeitar os relatos de testemunhas que viram as forças de Kadafi atirarem em manifestantes desarmados. "Eu não tenho certeza de que isso aconteceu", disse ela. "Mas vamos dizer que tenha acontecido. Certamente o alcance era limitado".

Quanto ao estado mental de seu pai, ela disse com um riso que não está preocupada."Ele é tão forte quanto o mundo sabe que ele é", disse ela. "Ele tem certeza de que o povo líbio é leal a ele".

Sua família ainda tem esperança, ela disse, de voltar à sua posição anterior, o que ela chamou de "um retorno ao normal". Mas, ela acrescentou: "É claro que isso pode acontecer mais rápido se a Otan parar de nos bombardear”.

*Por David D. Kirkpatrick

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