Divórcio muda famílias e sociedades rurais dos Estados Unidos

Tradicional reduto de baixa taxa de divórcio na zona rural do país, Condado de Sioux apresentou aumento de sete vezes desde 1970

The New York Times |

Em 1970, a taxa de divórcio era tão baixa na zona rural ao noroeste de Iowa que se assemelhava àquela vista no resto da América na década de 10. A maioria de seus 28 mil moradores era formada por religiosos fiéis, poucas de suas mulheres estavam no mercado de trabalho, o divórcio simplesmente não acontecia.

Por isso, é uma marca amarga da modernidade que mesmo aqui o divórcio tenha aumentado em até sete vezes desde 1970, dando ao Condado de Sioux a distinção indesejada de ser um destaque nessa categoria de dados do censo.

O divórcio ainda é menos comum pelo condado que a média nacional, mas o seu aumento ilustra uma mudança fundamental nos padrões de vida familiar na zona rural.

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O jovem pastor John Lee tentou quebrar tabus em Sioux Center, em Iowa, nos EUA
Quarenta anos atrás, as pessoas divorciadas se concentravam nas cidades e subúrbios. Mas as distinções geográficas desapareceram e agora pela primeira vez os americanos da zona rural são tão suscetíveis de serem divorciados quanto os moradores das cidades, de acordo com uma análise dos dados do censo pelo The New York Times.

"As famílias rurais estão passando por essa transformação incrível", disse Daniel T. Lichter, professor de sociologia na Universidade de Cornell.

As mudanças que começaram nas cidades se espalharam para regiões menos povoadas, como as mulheres saindo para o trabalho, ganhando autonomia e reorganizando a ordem das famílias tradicionais. Os valores também mudaram, diminuindo o estigma do divórcio.

"Nas camadas inferiores da sociedade, os homens perderam e as mulheres ganharam espaço", disse June Carbone, professora de direito na Universidade de Missouri-Kansas City e coautora de Red Families v Blue Families (Famílias Republicanas e Famílias Democratas, em tradução livre). "Um cara de colarinho azul tem menos a oferecer hoje do que tinha em 1979", acrescentou Carbone. Essas forças de mudança, ela disse, "criam um descompasso entre a expectativa e a realidade" que pode resultar em mulheres frustrada que deixam um relacionamento porque agora podem fazer isso.

Educação

Desde 1990, a classe social tem se tornado cada vez mais um indicador confiável de padrões familiares, disse Carbone. Americanos com ensino superior são mais propensos a se casar e permanecer casados do que aqueles com apenas um diploma do ensino médio, uma mudança denotada a partir de 20 anos atrás, disse ela, quando as diferenças eram muito menores.

Essa tendência tem sido particularmente importante para as zonas rurais, que ficaram ainda mais para trás das urbanas em matéria de educação, de acordo com dados do censo. Apenas um em cada seis residentes rurais tem nível universitário, bem menos que nas cidades, onde a relação é de um em cada três.

Nacionalmente, havia cerca de 121 milhões de adultos casados e 26 milhões se divorciaram em 2009, comparado com cerca de 100 milhões casados e 11 milhões de pessoas que se divorciaram em 1980.

"Há uma percepção aqui de que você precisa ser perfeito", disse o reverendo John Lee, um jovem pastor que tentou incentivar a mudança no Condado de Sioux, falando sobre temas considerados tabus, como divórcio e doença mental, em seus sermões. "Quando você admite fraqueza, você convida a vergonha".

A razão pode ser atribuída às raízes do Condado de Sioux. Cerca de 80% dos moradores, a maioria dos quais é descendente de imigrantes holandeses, pertencem a uma grande igreja, em comparação com 36% de todos os americanos.

Sua principal cidade, Sioux Center, publicou a sua primeira licença para a venda de bebidas alcoólicas no fim de 1970. Durante décadas, as lojas fechavam aos domingos e a participação das mulheres no mercado de trabalho esteve muito abaixo da média nacional.

Poucas pessoas se divorciavam. Em 1980, havia mais de 52 pessoas casadas para cada pessoa divorciada, de acordo com dados do censo, um ritmo não visto a nível nacional desde 1930.

*Por Sabrina Tavernise e Robert Gebeloff

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