Divisão entre soldados e moradores de Ramadi arrisca estabilidade no Iraque

Residentes acusam Exército de disparar contra civis, invadir casas, prender aleatoriamente e interferir na política local

The New York Times |

A cidade iraquiana de Ramadi, rodeada por palmeiras ao longo do Rio Eufrates, que já foi uma fortaleza da insurgência, tem sido aclamada como uma das melhores histórias de mudança do Iraque, a primeira grande zona urbana na qual os militantes foram expulsos e a vida voltou lentamente aos bairros destruídos.

Mas uma divisão aconteceu nas últimas semanas entre os líderes locais dessa área dominada pelos sunitas e os soldados iraquianos que servem na cidade, mas respondem a líderes do governo xiita de Bagdá. Moradores locais acusaram unidades do Exército iraquiano de disparar contra civis, interferir na política local, invadir casas com pouca justificativa e prender residentes da cidade indefinidamente.

A desconfiança, com destaque para os protestos públicos e os pedidos de que o Exército se retire, tem desafiado a durabilidade das conquistas de segurança em Ramadi e em toda a região de Anbar, principal província sunita e uma área crucial para a estabilidade do Iraque. As tensões também ressaltam as disputas que parecem estar se espalhando por todo o país e que provavelmente ficarão para trás depois que os últimos soldados dos Estados Unidos deixarem o país: conflitos de autonomia local versus controle nacional, lutas sectárias pelo poder e debates ferozes sobre quem, no fim, pode ser confiado para manter os iraquianos em segurança.

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Grupo de líderes tribais sunitas protesta contra a morte do policial Hamid Ahmed Shahab, em Ramadi, Iraque
Em meados de junho, centenas de moradores saíram às ruas da predominantemente sunita cidade de Samarra, na província de Salahuddin, no centro do Iraque, para exigir que uma unidade das tropas iraquianas estacionadas ali deixasse a cidade.

Em Ramadi, os ressentimentos começaram a aflorar neste mês, depois que os soldados iraquianos atiraram e mataram um capitão da polícia local que lutou ao lado dos Marines americanos contra insurgentes sunitas que agiam sob a bandeira da Al-Qaeda. O Exército iraquiano disse que ele estava tentando fugir de um mandado de prisão por acusações de terrorismo, mas os líderes tribais e políticos locais disseram que as acusações foram forjadas e o chamaram de um herói cuja morte demonstrou a impunidade das forças de segurança na área.

Os soldados iraquianos, que cuidam das barreiras de segurança e patrulham as ruas em jipes camuflados, dizem que estão preservando uma paz duramente conquistada e ainda frágil em Anbar. O Exército iraquiano é uma das instituições mais confiáveis do país, mas muitos líderes locais passaram a ver os soldados como ocupantes linha dura com pouca preocupação com a comunidade - uma acusação antes feita em relação a tropas americanas.

"O Exército está interferindo nas escolas e nas feiras", disse o xeque Faisal Hussein Essawi, um dos vários líderes tribais que têm organizado protestos que pedem a retirada dos soldados. "Eles estão em toda parte. A cidade está se transformando em um acampamento militar".

Oficiais do Comando de Operações Anbar, uma força iraquiana que supervisiona a segurança na província, defendem o papel do Exército. Eles disseram que a polícia local, corrupta e incompetente, não conseguiu impedir atentados e perseguir militantes em cidades como Fallujah e Ramadi, forçando os soldados iraquianos a atuar na região nos últimos oito meses.

Destino

O destino de Anbar é crítico tanto para os iraquianos quanto para as forças dos Estados Unidos que irão deixar o país. De acordo com o site ICasualties.org, cerca de 1.335 soldados americanos foram mortos na região, assim como incontáveis civis iraquianos, soldados e membros das milícias apoiadas pelos Estados Unidos que lutaram contra a Al-Qaeda no Iraque.

Pelo menos 3,2 mil soldados dos Estados Unidos permanecem aqui, apesar de terem sido amplamente retirados das cidades e se concentrem em treinar as forças de segurança iraquianas e ajudar os líderes e comandantes locais a lidar com falhas na segurança.

A violência aumentou com as mais recente tensões. Neste mês, os insurgentes plantaram quatro explosivos na casa de um comandante da polícia no subúrbio de Faluja, matando quatro de seus parentes. Dias antes, homens-bomba mataram 15 pessoas em um ataque contra as forças de segurança em Ramadi.

O coronel Louis J. Lartigue da Brigada Americana de Aconselhamento e Assistência de Anbar disse que o aumento parece seguir um padrão de picos e calmaria. Ele disse ser um bom sinal que políticos e chefes militares locais tenham, pelo menos, sentado para discutir suas diferenças. "Quando eles têm esses problemas, vêm para a frente para descobrir qual é o melhor caminho a seguir", disse.

O controle das cidades do Iraque é uma questão central em um país onde dois terços da população vivem em áreas urbanas. Conforme o Iraque se estabiliza, as unidades do Exército devem se retirar e se concentrar em pontos fracos da defesa nacional, como a segurança da fronteira, e ceder as cidades para a polícia nacional e local.

Retirada

Depois dos protestos em Anbar, o Exército concordou com algumas das exigências dos moradores, dizendo que iria retirar as tropas do centro de Ramadi. Mas um oficial do Comando de Operações Anbar, que pediu para não ser identificado por não estar autorizado a falar com repórteres, previu uma onda de violência ainda maior caso os soldados sejam relegados a suas bases ou a patrulhar as vazias fronteiras ocidentais do país.

"Vamos colocar a polícia de volta no comando, e você vai ver o que acontece", disse o oficial. "Se eles descobrirem que o parente de alguém é terrorista, não vão denunciá-lo”. Ele disse que o Exército iraquiano havia buscado apenas alvos legítimos, e disparado apenas em suspeitos que representavam uma ameaça.

Mas os líderes locais reclamam do que dizem ser um uso excessivo de força pelos militares.

O major Majid Salim, chefe da polícia local, disse que as tropas do Exército não coordenam prisões com a polícia local e desestabilizaram a segurança, corroendo a relação entre os moradores, os xeques tribais e os oficiais de segurança.

Em outubro, as tropas iraquianas mataram uma menina de 12 anos e um homem idoso em uma operação para prender um ex-agente de segurança suspeito de terrorismo. Dois meses atrás, os soldados atiraram e mataram em um motorista no que a polícia local disse ter sido apenas uma disputa sobre onde o homem havia estacionado seu carro. Oficiais de segurança disseram que tinham um mandado para sua prisão.

E neste mês, um caminhão que transportava soldados iraquianos seguiu até a fazenda de Ahmed Hamid Shahab, um comandante da polícia local, para prendê-lo com um mandado de suspeita de terrorismo de 2009, que autoridades americanas confirmaram ser válido. Quando Shahab correu para seu carro, os soldados atiraram nas suas costas.

O Exército iraquiano não quis identificar as acusações contra Shahab, mas disseram ter encontrado duas armas em seu carro. O oficial militar iraquiano chamou sua execução de "a coisa certa" a se fazer.

Mas a sua morte aprofundou a desconfiança e a discórdia entre oficiais militares e líderes tribais, e desencadeou vários protestos. Parentes de Shahab disseram que o Exército iraquiano matou, na verdade, um corajoso capitão da polícia que havia perdido dois irmãos em ataques da Al-Qaeda - e que trabalhava com os Estados Unidos na caça a insurgentes desde 2007.

Dois fuzileiros navais que lutaram entre as palmeiras e canais de irrigação da vila de Julayba, nos arredores de Ramadi, confirmaram a versão dos parentes, dizendo que Shahab - também conhecido como Abu Ali - desempenhou um papel fundamental em liderar uma revolta tribal contra a Al-Qaeda, que ganhou força e se espalhou pela região.

"Ele basicamente criou essa revolução por conta própria", disse o capitão Thomas P. Daly, que narrou sua turnê em Anbar no livro de memórias Company Rage. "Eu posso nomear os terroristas que esse cara matou. Ele odiava a Al-Qaeda. Ele os odiava com ardor”.

Shahab passou a ajudar marines no início de 2007, acompanhando-os em batidas para capturar suspeitos da Al-Qaeda, disseram os fuzileiros. Ele recrutou dezenas de outros combatentes tribais e ajudou a sufocar ataques a bomba contra batalhões americanos. "Ele foi fundamental para o nosso sucesso nessa área", disse o capitão Craig A. Trotter. "Um verdadeiro herói iaquiano para seu povo."

Neste mês, algumas dezenas de parentes de Shahab se reuniram perto de um posto de segurança para exigir justiça pela sua morte. Forças de segurança ficaram de prontidão, mas deixaram os homens se manifestar.

Após cerca de uma hora e um pouco decepcionados com a afluência, os homens entraram em seus carros e foram embora. A algumas centenas de metros de distância, na entrada da cidade, um cartaz recebia os visitantes com as palavras: "Ramadi foi e sempre será uma cidade de paz”.

*Por Jack Healy e Yasir Ghazi

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