Disputas entre os Murdoch causam dúvidas sobre futuro da News Corp

Escândalo das escutas telefônicas põe à prova desgastada relação pai e filho entre Rupert e James Murdoch

The New York Times |

Foi uma impressionante exibição de unidade: Rupert e James Murdoch, pai e filho, caminharam lado a lado pelo centro de Londres quando sua empresa enfrentava uma de suas piores crises. Passando por uma multidão de paparazzi em uma rua não muito longe do Palácio de Buckingham, James estendeu o braço para colocar uma mão reconfortante nas costas de seu pai.

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James e Rupert Murdoch prestam depoimento no Comitê de Mídia do Parlamento britânico (19/7)

Mas por trás daquela fachada, a divulgação da prática generalizada de escutas telefônicas na divisão de jornais britânicos da News Corp foi apenas o episódio mais recente e mais grave para testar uma relação entre pai e filho que tem se desgastado ao longo dos últimos anos, muitas vezes impedindo até mesmo que os dois homens se falem.

E essa divisão, conhecida apenas por aqueles mais próximos à empresa, provoca uma dúvida central para o legado de Rupert Murdoch – será que um de seus filhos poderá assumir seu lugar diante de seu gigante de mídia com valor estimado em US$ 62 bilhões?

Suas divergências, descritas em detalhes por mais de meia dúzia de funcionários da empresa e outras íntimos dos Murdoch, são, em grande parte, advindas do conflito das visões de um jovem tecnocrata que adota métodos modernos de gestão e um tradicionalista que comanda por instinto e convicção. A tensão se agravou conforme a distância entre a sede de Nova York e as operações de James Murdoch , em Londres, onde ele supervisiona participações europeias e asiáticas da empresa, revelou-se difícil de lidar.

Murdoch pai chegou ao seu limite no inverno passado, segundo um ex-funcionário, e fez um ultimato a seu filho: "Você volta para Nova York ou você está fora."

O filho consentiu. Mas agora, conforme os investidores colocam mais pressão sobre os Murdoch para que abram mão da sociedade que controlaram rigidamente por três gerações, o seu papel na empresa está sob ameaça. Os acionistas se reunirão nesta sexta-feira em Los Angeles para decidir se haverá reeleição do conselho da News Corp, que inclui Rupert, James e Lachlan Murdoch, o filho mais velho. Embora a família detenha uma participação de 40%, que lhes concede um controle eficaz, e a maioria dos analistas esperem que eles sejam reeleitos, vários grandes acionistas e uma empresa de consultoria de investidores proeminentes recomendaram o voto contra eles.

James Murdoch, que aprovou em 2008 um acordo de mais de US$ 1 milhão para ajudar a resolver acusações sobre a prática de escuta telefônica no News of the World , o tablóide que a News Corp fechou em julho, enfrenta novamente uma pressão adicional em Londres. Ele irá testemunhar perante o Parlamento pela segunda vez no próximo mês para tratar de questões sobre esse pagamento. Vários ministros sugerem que ele fez parte de uma operação intencional para cobrir a prática de 'hackeamento' de celulares.

Dentro da empresa, a posição de James Murdoch se tornou tão tênue nos últimos meses que a possibilidade de seu afastamento foi calmamente discutida nos mais altos escalões da empresa, informou uma pessoa com conhecimento interno. Ambos os Murdoch, por meio de representantes, recusaram pedidos de entrevista.

Rupert Murdoch, agora com 80 anos, há muito tempo afirma esperar que um de seus filhos dirija a empresa que ele construiu a partir da franquia de um jornal australiano em um dos impérios mais poderosos e rentáveis do mundo da mídia. Com sua filha Elisabeth concentrada em sua empresa de produção para televisão em Londres e Lachlan determinado a continuar coordenando o seu negócio de mídia em Sydney, apesar do desejo de Murdoch pai em trazê-lo de volta para a empresa, James, 38, se tornou o herdeiro aparente. Mas o escândalo de escutas telefônicas e a animosidade latente com o seu pai desestabilizou sua antes inexorável ascensão dentro da empresa.

"Rupert sempre pensou na News Corp. como uma empresa familiar, porque ela foi passada para ele", disse Barry Diller, que ajudou Murdoch a transformar a Fox em uma rival formidável para as redes de televisão tradicionais. "Ela foi passada a ele como um jornal pequeno, em Adelaide, mas, apesar disso, era a empresa de seu pai. Acho que isso significava para ele que a tradição deveria continuar. Se, como ele sempre disse, seus filhos merecessem."

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Imagem de TV mostra James Murdoch durante depoimento a comitê parlamentar britânico (19/7)
Sucessão

James, o caçula dos quatro filhos adultos de Rupert, foi uma criança voluntariosa. Quando era servido por último no jantar, como era o costume da família que seguia a ordem de nascença, James vigorosamente se opunha e, de acordo com o biógrafo Neil Chenoweth, tentou reorganizar repetidamente os assentos em torno da mesa.

Mas uma vez dentro da organização corporativa, James teve uma rápida ascensão. Aos 24, ele foi colocado no comando dos negócios digitais nos Estados Unidos. Aos 27, ele foi nomeado presidente executivo da Star TV, serviço de televisão por satélite da News Corp, e, três anos mais tarde, foi instalado como chefe-executivo da BSkyB a televisão por satélite britânica. Mesmo em avaliações independentes, sua performance em ambas as emissoras foi bem sucedida. Ele expandiu os negócios da Star para a Índia e aumentou o número de assinantes da BSkyB.

Esses sucessos o ajudaram a ganhar aclamação como um executivo em seu próprio direito. Hoje ele é amplamente reconhecido como tendo transformado o negócio de televisão paga da News Corp., um feito que lhe deu credibilidade em Wall Street.

Quando Lachlan Murdoch, que é um ano mais velho do que James, deixou a News Corp em 2005, Rupert começou a buscar lugares onde seu único filho remanescente no negócio poderia ganhar mais experiência. A solução foi colocar James no comando da News Corp Europa e Ásia, uma promoção que ele recebeu em 2007. Mesmo antes de James assumir sua nova função, ele começou a fazer alguns movimentos ousados.

Ele transferiu um de seus executivos de Londres para Nova York para liderar uma nova divisão global de recursos humanos. A indicação, que representou exatamente o tipo de restruturação que James estava ansioso por fazer na News Corp, deixou alguns na sede, que já estavam cautelosos com James, alertas de que ele estava tentando instalar um regime sombrio, segundo pessoas com conhecimento direto da dinâmica da empresa na época.

‘Uma empresa, não duas’

Essas suspeitas foram reforçadas posteriormente, depois que James tentou transferir um de seus conselheiros mais próximos, Matthew Anderson, para Nova York, uma mudança repelida por Rupert. Anderson disse que nunca tentou se mudar para Nova York. As tensões entre os dois centros de poder também prejudicaram um dos conselheiros mais próximos de Rupert Murdoch, Gary Ginsberg, o estrategista de comunicação da empresa, que raramente se entendia com James.

No início desse ano, essa percepção da empresa como tendo duas sedes, se tornou uma questão mais urgente, e Rupert deu a James o ultimato para retornar a Nova York ou deixar a empresa por completo. "Essa é uma empresa, não duas", disse Rupert, de acordo com uma testemunha presente na ocasião. "E ela é comandada de Nova York."

Foram os jornais que provocaram a principal divisão entre pai e filho. Após assumir o controle da News International, subsidiária da empresa que publica os jornais britânicos The Times of London, The Sun e News of the World, até seu fechamento, James fez algumas correções de curso abruptas.

Foi em seu papel como chefe da divisão de jornais que em 2008 James aprovou um acordo com Gordon Taylor, chefe de uma organização que representa os jogadores profissionais de futebol da Grã-Bretanha, sob acusações de escutas telefônicas. Esse acordo está agora no centro de uma significativa disputa pública entre James e dois ex-executivos da News Corp, em Londres, que oferecem relatos divergentes dos eventos que levaram ao pagamento do acordo.

Os executivos afirmam ter informado James de que as escutas telefônicas foram além do trabalho de um repórter isolado e de um investigador particular que a empresa havia contratado na época. Se esse foi o caso, então a aplicação da lei pode argumentar que o acordo foi concebido como uma tentativa de comprar o silêncio das vítimas, algo que os especialistas jurídicos dizem que poderia servir de base para os procuradores britânicos lançarem acusações criminais.

James tem vigorosamente negado essa afirmação, dizendo que os homens não o informaram da existência de uma prática de escutas telefônicas mais ampla na empresa. Algumas pessoas que o conhecem têm sugerido que no máximo ele é culpado de ouvir os conselheiros que afirmaram que o acordo seria menos dispendioso que uma disputa judicial.

"James é um daqueles caras que, ao contrário de seu pai, confia em seus assessores", disse Alan Sugar, um empresário britânico que vendeu o seu negócio de fabricação de componentes eletrônicos para a BSkyB. A maioria dos observadores diz acreditar que o controle da empresa ainda é seu e não de seus irmãos.

Lachlan está perfeitamente feliz na Austrália, segundo amigos. Pela primeira vez em sua carreira, ele vive realmente fora da sombra de seu pai. Elisabeth, a irmã mais velha, voltou à empresa esse ano, depois que a News Corp adquiriu sua empresa de produção para televisão em abril. Como ela não fazia parte da empresa quando as escutas telefônicas aconteceram e mudou de ideia sobre fazer parte do conselho, ela permanece mais afastada dos problemas da News Corp do que seus irmãos.

"Ela criou uma separação definitiva para si mesma", disse uma amigo que a conhece há anos, falando sob condição de anonimato para proteger seu relacionamento. O amigo disse que Elisabeth é "muito competitiva com seus irmãos", mas não acredita que ela queira o controle da empresa, especulando que ela possa preferir uma posição criativa supervisionando as unidades de entretenimento.

Os planos de curto prazo determinam que Chase Carey, diretor de operações, assuma o lugar de Rupert Murdoch quando ele partir. Mas para uma empresa onde a crença na imortalidade do executivo-chefe é quase sacrossanta, James pode esperar bastantes dificuldades, isso caso sua carreira sobreviva intacta.

"Você consegue desintoxicar a empresa sem des-Murdochizar a empresa? Ou é necessária uma mudança mais fundamental?", pergunta Mathew Horsman, que cobriu a News Corp e Murdoch por duas décadas, primeiro como jornalista e agora como diretor da Mediatique, uma empresa de consultoria em Londres.

"Mesmo que Rupert seja criticado frequentemente por comandar sua empresa como um feudo, há um papel de custódia que ele representa", acrescentou. "E ele sabe disso. Então, eu não sei se uma sucessão pode envolver a indicação limpa de um Murdoch."

Por Jeremy W. Peters

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