Disputa por árvore de Anne Frank segue acirrada meses após sua queda

Grupo responsável pela árvore acusa empreiteiro de trabalho que levou à morte da planta, além de roubar restos e deixá-los apodrecer

The New York Times |

Da janela do sótão no qual sua família se escondeu em Amsterdã, Anne Frank podia ver a copa de uma antiga castanheira no jardim de um vizinho. Por dois anos, esse foi seu único contato com a natureza. A árvore caiu durante uma tempestade em agosto, mas a sua memória continua viva – não no diário, mas em uma disputa desagradável sobre os seus restos mortais.

Os membros do conselho da Fundação Apóie a Árvore de Anne Frank, grupo responsável pela árvore, estão indignados com o empreiteiro que foi contratado para construir um suporte metálico destinado a prolongar a vida da árvore doente. Eles o acusam de fazer um trabalho ruim, que levou à morte da árvore, e de posteriormente roubar restos da árvore e deixá-los apodrecer em vez de distribuí-los aos museus e instituições judaicas de todo o mundo que gostariam de tê-los. Talvez inevitavelmente, dado o contexto e os ressentimentos que a questão têm trazido à tona, eles também o acusam de agir como um nazista.

The New York Times
Famosa árvore caiu em 23 de agosto de 2010, com mais de 150 anos de idade
A árvore, que tinha mais de 150 anos de idade e sofria de uma infecção de fungos, era para ter sido abatida há muitos anos. Mas um grupo de vizinhos e arboristas protestou contra a decisão da cidade. "Essa árvore era um monumento de esperança", disse Helga Fassbinder, membro do conselho da fundação e professora universitária aposentada de cuja casa se via a árvore. Em 2008, a fundação assumiu a responsabilidade pela árvore, que segundo especialistas poderia viver outros cinco a 15 anos com a ajuda de um suporte de metal.

Arnold Heertje, membro do conselho, proeminente economista holandês e uma figura pública conhecida por suas posições polêmicas, pediu a um empreiteiro local, Rob van der Leij, que construísse a estrutura de metal, que tinha sido projetado por um terceiro. Heertje, que é judeu, sobreviveu à ocupação nazista da Holanda quando criança se escondendo.

A estrutura, que custou cerca de US$ 170 mil para ser construída, foi concluída em abril de 2008. Como ambos os lados concordarem, Van der Leij e seus subcontratados doaram cerca de US$ 120 mil do seu custo. Quando recebeu a conta, a fundação só pode cobrir cerca de metade dos US$ 50 mil restantes, de modo que Van der Leij ofereceu o resto como um empréstimo sem juros e a fundação o convocou para se juntar ao conselho.

Então, no dia 23 de agosto, a árvore de 70 metros caiu. Uma reunião de emergência do conselho foi realizada naquela tarde em um café diante da casa de Fassbinder. Aqui, as histórias divergem. Fassbinder disse que Van der Leij soube imediatamente que a falha na estrutura foi culpa dele e que ele queria remover as evidências disso o mais rápido possível. (Uma análise da seguradora Generali Non-Life, que havia doado o seguro da fundação, concluiu que a culpa não foi de Van der Leij.)

Cobertura

Van der Leij disse que quando a árvore caiu, ele ligou para a Generali e foi informado que o plano provavelmente não cobriria danos que a queda da árvore tivesse feito nas propriedades vizinhas. A remoção também não seria coberta. No café, ele alertou outros membros do conselho e sugeriu que eles dividissem os custos entre si, se necessário. Ele disse que Fassbinder inicialmente recusou a proposta, dizendo que ela já estava pagando pela manutenção da fundação.

Ao final da reunião, de acordo com Van der Leij e os arboristas do conselho, os membros presentes concordaram que ele removeria a árvore. Mas uma vez que a árvore de 30 toneladas foi retirada, Van der Leij recebeu uma carta dizendo que a retirada não havia sido ordenada. "Foi quando minha confiança acabou", disse ele.

As coisas foram por água abaixo dali em diante. Van der Leij convocou outra reunião para protestar e disse que Heertje, que não estava presente na reunião anterior, reagiu com irritação, fazendo comparações com Auschwitz e suas câmaras de gás. Em uma reunião privada, segundo ele, Heertje o alertou para deixar o assunto de lado e ameaçou fazer uso de seus contatos na mídia. Heertje nega ambas as alegações.

Em dezembro, o advogado de Van der Leij enviou à fundação uma carta sobre o pagamento dos custos de remoção da árvore. Poucos dias depois, o empreiteiro recebeu um fax de Heertje, com cópia para "outras partes interessadas" e que mais tarde apareceu no jornal diário Volkskrant, dizendo que Van der Leij era "como muitos que, na esteira da destruição de milhões de judeus, usurparam seus bens". Heertje também comparou a carta do advogado aos comandos nazistas.

Em resposta, Van der Leij entrou com um processo por difamação. No mês passado, ele também processou a fundação para coletar todas as dívidas pendentes, cerca de US$ 50 mil.

Sentado sob um retrato emoldurado de Nelson Mandela (um presente de Mandela pela construção de casas para os pobres na África do Sul) em seu escritório em Amsterdã, Van der Leij balançou a cabeça. "Há somente perdedores nessa história", disse o empreiteiro, cuja empresa é especializada na renovação de habitações públicas. "Mas eu sinto que a minha integridade está em jogo”.

"Eu não me importo com o dinheiro", disse Van der Leij, que disse que se ganhar vai doar os lucros para a caridade. “Eles assinaram um acordo em 2007 no qual disseram: 'Sim, nós temos o dinheiro, nós sabemos o que estamos fazendo'. Mas não havia dinheiro, não havia seguro adequado e os membros do conselho foram os responsáveis por isso”, contou. "Agora eles estão dizendo que eu sou um cara ruim e que estou roubando patrimônio cultural judaico. Isso é uma falta de moralidade".

Lei

De acordo com a lei holandesa, Van der Leij tem o direito de manter a árvore até que seja pago, mas ele ofereceu pedaços de árvore para instituições selecionadas pela fundação.

A madeira de árvores especiais é normalmente reutilizada de forma simbólica. Mas Van der Leij disse que se entregasse a árvore agora seu destino seria incerto. A fundação admite que não pode pagar por seu transporte, armazenagem ou corte. Eles citam museus judaicos em Berlim, Nova York e Amsterdã como potenciais beneficiários, mas as autoridades dessas instituições não confirmam a inclusão da árvore em suas coleções.

Na imprensa holandesa, a fundação disse que a DHL forneceria o transporte gratuito. Mas a DHL disse que não há planos concretos e o frete pode ser gratuito ou oferecido a um custo reduzido. Então, por enquanto, a árvore se encontra na empresa de Van der Leij. Ele nega as acusações de que seu armazenamento seja de má qualidade, dizendo que sua abordagem foi aprovada por um especialista em árvores.

"É a árvore de Anne Frank", disse van der Leij. "A nossa responsabilidade é cuidar dela".

*Por Sally Mcgrane

    Leia tudo sobre: anne frankárvoredisputaholandanazismo

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG