Discípulos do ódio em suas próprias palavras e imagens

Os caçadores de nazistas fizeram uma exposição de arte de criminosos de guerra com fotos tiradas na época dos campos de concentração. Essa estratégia teria funcionado bem contra multidões de linchadores, que posavam para câmeras enquanto matavam afro-americanos em uma campanha de terror que persistiu durante o meio do século 20.

The New York Times |

Vidas de americanos negros eram consideradas descartáveis nos direitos pré-civis do Sul. Os assassinos que penduravam, desmembravam ou queimavam as vítimas negras e ainda vivas ¿ diante de multidões de observadores aplaudindo ¿ sabiam bem que a lei não agiria contra eles. Esses rituais selvagens eram feitos para manter a comunidade negra ajoelhada aos pés dos brancos.

O homem e a mulher branca que se concentravam nesses carnavais de morte levavam algumas vezes crianças pequenas que eram fotografadas nada mais nada menos do que com o braço mutilado perto do corpo do qual fora arrancado. Essas fotos frequentemente viravam apavorantes cartões postais que continuaram a circular mesmo depois que o Congresso tornou ilegal sua correspondência.

Um cartão postal vivaz de linchamento em particular mostra o corpo carbonizado e parcialmente desmembrado de Jesse Washington, que foi queimada diante uma multidão de 100 pessoas em Waco, Texas, em 1916.

O cartão, que parece ter sido escrito por um espectador branco aos seus pais, está assinado como seu filho Joe. Ele se refere ao assassinato terrível ¿ no qual as orelhas, dedos e órgãos genitais da vítima foram decepados ¿ como o churrasco que tivemos ontem à noite. Ele se identifica na multidão, no cartão postal, fazendo um sinal com a caneta sobre sua cabeça.

Ao permitir imagens como essa a circularem pelos correios, o governo aprovou silenciosamente os linchamentos, juntamente com a presunção de que os afro-americanos eram menos humanos. As correspondências também auxiliaram uma campanha de propaganda que pretendia aterrorizar todos os negros do país, não apenas àqueles do Sul.

Joe de Waco sem dúvida está morto. Mas muitas das pessoas que presenciavam os linchamentos quando eram crianças, nos anos 30 e 40, ainda devem estar vivos e andando nas ruas dos principais Estados do cinturão de linchamento. Eles incluem Mississipi, Geórgia, Alabama, Arkansas, Louisiana e Texas, todos os quais votaram contra o primeiro presidente negro.

A proximidade do passado ficou muito evidente não há muito tempo em Atlanta, quando os colecionadores James Allen e John Littlefield tentaram fazer uma exibição das imagens de linchamento, que tinham atraído uma grande audiência e atenção internacional quando mostradas na exibição da Sociedade Histórica de Nova York Sem proteção, em 2000.

As pessoas de Atlanta se equivocaram. Como uma pessoa familiar a respeito do assunto me disse, recentemente: Houve a preocupação de que pessoas nas multidões ainda estivessem vivas. E claro que membros da família ou parentes deles poderiam ter que dizer Esse é meu pai ou Essa é minha mãe.

Sem proteção foi exposta em Atlanta em 2002, no Local Histórico Nacional Martin Luther King Jr. e atraiu mais de 175 mil pessoas, três vezes mais do que na exposição de Nova York. Mas a tensão em volta da exibição pareceu mostrar que provavelmente as imagens e os documentos que as acompanhavam não iriam encontrar um lar permanente no Estado da Geórgia ou em qualquer outro Estado do cinturão de linchamento.

Então foi como uma surpresa, no começo deste ano, quando a coleção foi adquirida pelo Centro de Direitos Civis e Humanos de Atlanta, uma instituição cultural e histórica ambiciosa que ainda tem que começar a trabalhar e planejar sua abertura em 2011. O centro aspira imitar o Museu Memorial do Holocausto em Washington, seguindo os métodos, ligando o movimento de direitos civis e os assuntos internacionais atuais.

A idéia de hospedar o material de linchamento na mesma instituição onde estão os sermões e discursos de Martin Luther King é um grande choque. Mas é assim que deve ser. O movimento dos direitos civis só pode ser entendido propriamente no contexto do reino de terror que estava sobre os negros sulistas.

As vítimas dos enforcamentos e das carbonizações algumas vezes eram acusadas de crimes. Mas geralmente não eram culpadas de nada mais do que buscar pelo direito de voto e de falar a verdade para o poder branco. Os proprietários de comércio negros que desafiavam a supremacia branca no mercado eram os alvos favoritos.

As vítimas algumas vezes eram mortas depois de marcharem pela parte da cidade onde moravam os negros ¿ com uma parada na escola de negros ¿ e amplamente explorados como testamento da impotência dos negros.

Quando os visitantes do Centro de Direitos Civis e Humanos enfrentarem essas realidades, eles saberão o que os pioneiros dos direitos civis encararam ¿ e o que eles temeram ¿ quando tomara os primeiros e arriscados passos para o caminho da liberdade.

Por BRENT STAPLES

Leia mais sobre negros

    Leia tudo sobre: negros

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG