Direita cresce com voracidade dentro da Alemanha

Crescente sentimento anti-imigração preocupa país onde há vácuo político e muçulmanos vivem há gerações

The New York Times |

Conforme o sentimento anti-imigrante continua verrendo toda a Europa, gerando uma onda de direita populista que vai das margens do Mediterrâneo ao frio da Escandinávia, existe uma crescente preocupação de que tal política também poderia ter raízes na Alemanha, no fértil terreno de incertezas financeiras, no crescente sentimento antimuçulmano e em um vácuo político deixado pelos infortúnios da outrora poderosa União Democrata Cristã.

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Curdas nascidas na Turquia conversam em praça do distrito de Kreuzberg, em Berlim


Enquanto os suecos esta semana elegeram um partido anti-imigração ao Parlamento pela primeira vez, e os franceses estão ocupados repatriando Roma, os alemães continuam a debater um livro que culpa os imigrantes muçulmanos de "emburrecer a sociedade" e ouvem uma proeminente conservadora aliada da chanceler, Angela Merkel, sugerir que a Polônia contribuiu para instigar a Segunda Guerra Mundial.

Desde o fim da guerra, as leis alemãs, as elites políticas e as convenções sociais impediram os partidos de direita de conquistar seguidores o suficiente para ganhar cadeiras no Parlamento. Mas a geografia política do país está sendo remodelada por rajadas fortes de descontentamento soprando em diferentes direções.

Nesse ambiente foi lançado o livro do banqueiro Thilo Sarrazin, “Germany Does Away With Itself” (A Alemanha acaba consigo mesma, em tradução livre), que argumenta que os generosos benefícios sociais do país têm atraído um grande número de imigrantes muçulmanos que se recusaram à integração.

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Thilo Sarrazin foi afastado de banco alemão por críticas ao islã
O livro não trata de qualquer um dos obstáculos endêmicos para a integração, como a discriminação no emprego e a educação medíocre, mas, em vez disso, rotula os imigrantes muçulmanos como geneticamente inferiores.

O livro e sua popularidade – ele vendeu cerca de 600 mil cópias em pouco mais de um mês – representa o problema que parece ter unificado o público europeu: a hostilidade aos estrangeiros, especialmente aos muçulmanos.

Especialistas dizem que, além de sentimentos anti-imigrantes, a nova direita parece estar capitalizando do sentimento entre os conservadores que os democratas-cristãos da chanceler Angela Merkel os abandonaram.

Conservadorismo

Erika Steinbach, a oficial que fez as observações sobre a Polônia, abandonou seu cargo na comissão executiva dos democratas cristãos, após uma década de serviço, dizendo ao jornal alemão Die Welt, "Eu represento o conservadorismo lá, mas me sinto cada vez mais sozinha".

Os democratas-cristãos, a força política dominante no país há décadas, têm historicamente absorvido os conservadores, mesmo os moderados da extrema-direita, enquanto se apresenta como o guardião dos valores cristãos.

Mas ultimamente o partido tem sido acusado por alguns de seus membros de não ser diferente dos mais liberais, social-democratas e de implementar uma postura politicamente correta a exemplo do pós-Segunda Guerra Mundial que restringe o debate sobre várias questões – nacionalismo, religião, minorias, e sobretudo a imigração.

No momento, ninguém aqui está prevendo a ascensão de um partido de direita vencedor, mas isso é porque ainda falta o principal ingrediente: um líder carismático para reunir o público. Com um líder assim, e algum apoio financeiro, acreditam analistas políticos, a perspectiva pode ser diferente.

*Por Michael Slackman

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