Dinheiro do Haj é alvo de corrupção na Indonésia

Segundo organizações do país, autoridades fazem uso indevido do dinheiro que muçulmanos depositam para poder visitar Meca

The New York Times |

Por ser o país com o maior número de muçulmanos, todos os anos a Indonésia é responsável pelo envio da maioria dos peregrinos a Meca. No ano passado, um em cada 10 fiéis que realizaram o Haj era indonésio.

Cerca de 1,2 milhão de fiéis estão na lista de espera do governo para ir a Meca, lotando a cota anual deste país pelos próximos seis anos. Mas se esta lista é evidência da devoção da Indonésia, ela também se tornou o símbolo de um de seus problemas de sempre: a corrupção.

Autoridades e políticos do governo fazem uso incorreto do dinheiro depositado pelos fiéis na lista de espera – que agora totaliza quase US$ 2,4 bilhões – de acordo com investigadores do governo e grupos anticorrupção.

Com agentes de viagens amigáveis e aliados de negócios, as autoridades exploram as inúmeras exigências do Haj para engordar seus próprios bolsos, dizem os grupos de vigilância.

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Mulheres trabalham em agência de turismo especializada em pacotes para muçulmanos em Jacarta

A corrupção, dizem, tem contribuído para denúncias consistentes sobre acomodações apertadas para os peregrinos na Arábia Saudita e serviços de alimentação que param de entregar comida no meio da viagem.

O Parlamento Nacional e funcionários do Ministério de Assuntos Religiosos recentemente estabeleceram o preço do Haj deste ano, após negociações e acusações excepcionalmente prolongadas, amplamente divulgadas na mídia local, de que alguns legisladores e burocratas haviam concordado em partilhar US$ 2,8 milhões em subornos do ministério.

As negociações anuais são utilizadas por burocratas e legisladores veteranos para conseguir acordos pessoais, segundo grupos anticorrupção e a mídia, que os rotulou de a “Máfia do Haj".

Os líderes parlamentares e funcionários do ministério negaram as acusações de suborno.

Abdul Ghafur Djawahir, um oficial de alto escalão da divisão Haj do ministério, disse que os grupos anticorrupção interpretaram mal os procedimentos do ministério para a manipulação do dinheiro do depósito.

Ele afirmou ainda que eles também avaliaram incorretamente os custos de voos para a Arábia Saudita e compararam injustamente a gestão do Haj da Indonésia com a da Malásia, onde os peregrinos pagam menos e obtêm um serviço melhor.

De acordo com o grupo Indonesian Corruption Watch (Observação da Corrupção na Indonésia, em tradução livre), no acordo entre o ministério e o parlamento, os legisladores recebem subsídios robustos em viagens para o seu próprio Haj, ou o de seus familiares.

Além disso, agências de viagens e outras empresas com ligações políticas recebem contratos de aluguel ou transporte. Em contrapartida, os legisladores não questionam a movimentação dos US$ 2,4 bilhões em depósitos, especialmente seus lucros.

A organização privada Indonesian Pilgrims Rabithah, que tem pressionado para a reforma da gestão do Haj, disse que o ministério e os parlamentares negociam longe de fóruns públicos para manter seus negócios escondidos.

Num relatório recente, a Comissão de Erradicação da Corrupção, principal órgão anticorrupção do governo, identificou 48 práticas de gestão do Haj que podem levar à corrupção.

Mochammad Jasin, vice-presidente da comissão, disse que vai esperar para ver se o ministério realiza as reformas sugeridas, antes de considerar uma investigação de pleno direito.

Por Norimitsu Onishi

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