Dicionário de expressões regionais dos EUA chega ao último volume

Após 50 anos, ambicioso projeto lexográfico criado por linguista Frederic G. Cassidy deixa de ser publicado

The New York Times |

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O Dicionário de Inglês Regional da América, que deixará de ser publicado
A editora-chefe do Dicionário de Inglês Regional da América, Joan Houston Hall, ainda se lembra da quando digitou a palavra "scrid" no Google no final dos anos 1990.

A palavra, que quer dizer fragmento, seria listada no dicionário como parte de um vocabulário da Nova Inglaterra que datava do ano de 1860. Mas lá estava ela no site de um fabricante de tornos da Califórnia. "Pensei comigo mesma, 'Oh, não! Esse regionalismo acabou atravessando o país'", recordou, recentemente, durante entrevista em seu escritório na Universidade de Wisconsin-Madison.

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Ela escreveu para o fabricante de tornos, que respondeu sua mensagem dizendo que tinha aprendido a palavra com sua namorada, que era de Maine. O “regionalismo limitado", como Joan descreveu, estava a salvo.

Esse foi um dia particularmente estressante na vida de um dos mais ambiciosos projetos lexicográficos da América, que irá acabar na próxima publicação a ser feita pela Harvard University Press, a quinta, meros 50 anos depois de o projeto ter sido inaugurado por Frederic G. Cassidy, um linguista nascido na Jamaica.

Cassidy, que morreu em 2000, não chegou até o fim do alfabeto. Mas para estudiosos e amantes da língua, o trabalho que ele iniciou serve como um guia de valor inestimável que relata a maneira com a qual os americanos não apenas falam, mas também vivem - uma resposta patriótica ao Dicionário Oxford de Inglês.

"É um projeto grande e extremamente abrangente, que realmente mostra muito além do que talvez conhecemos sobre o dialeto americano", disse Jesse Sheidlower, editor geral do dicionário Oxford, acrescentando: "Eu o uso todos os dias."

Com a entrada da palavra “zydeco”, o dicionário hoje possui cerca de 60 mil verbetes, muitos deles refletindo o passado rural e agrícola do país. Mas, em meio às páginas e páginas de nomes de flores silvestres e implementos agrícolas, o DARE, como o dicionário é comumente conhecido, inclui um número suficiente de novos termos que sugerem que a condição do inglês regional não é tão terrível quanto ouvimos falar, apesar da influência das forças homogenizantes da urbanização, dos meios de comunicação e da internet.

Desde o início o dicionário sempre foi uma referência da ciência da lexicografia e de uma pesquisa sem precedentes. Entre 1965 e 1970, 80 pesquisadores de campo se espalharam por 1.002 comunidades cuidadosamente selecionadas em todo o país, muitos deles viajando em vans adaptadas e apelidadas de “Word Wagons.” Armados com um questionário de 1.847 itens e gravadores de rolo, eles faziam perguntas sobre as maneiras como cada região falava de tudo.

Os indivíduos foram entrevistados em cabanas e casas, varandas e bares, enquanto eles estavam se trocando ou trabalhando secando tabaco ou, como no caso de um policial em Boston, orientando o trânsito. Alguns estavam relutantes em admitir que usavam um dialeto regional como parte de sua maneira de falar. "Tento falar o mais corretamente possível", disse uma dona de casa de 73 anos em Astoria, Oregon, a David Goldberg, um pesquisador de Nova York.

Em Madison, foram necessários quase cinco anos para transferir as informações escritas em cartões perfurados para o computador, com cerca de 2,3 milhões de respostas fornecidas por 2.777 pessoas, e, depois disso, outros dez anos para publicar o Volume1, que saiu em 1985. Os editores também se basearam em dados de pesquisas anteriores de dialetos, assim como em exemplos de livros, jornais, diários e cartas, em grande parte pesquisados por uma rede de leitores voluntários. Os três volumes seguintes foram publicados em intervalos de cinco anos.

O volume final demorou dez anos para ser publicado por causa das complexidade dos verbetes e da dificuldade para fazer uma triagem do fluxo de novas fontes digitais disponíveis.

De certa forma, o dicionário de gírias regionais – que será publicado em versão digital em 2013 – pode estar contribuindo com certas tendências que ele mesmo procura evitar. Cada vez mais palavras estão surgindo nos lugares mais inusitados e sendo utilizadas em bate-bapos na internet, assim como em outros ambientes sociais.

"Gosto do fato de que ainda temos muitas palavras regionais", disse Joan Houston Hall. "Realmente acho uma pena quando uma palavra regional se torna parte do vocabulário de toda uma nação.”

Por Jennifer Schuessler

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