Destino de estátua do Camboja aguarda negociações

Monumento é retirado de leilão da Sotheby's, em Nova York, após acusação de que foi roubado do país

The New York Times |

O Camboja pediu ajuda ao governo dos Estados Unidos para recuperar uma estátua de mil anos de um guerreiro mítico que se encontra atualmente armazenada nos porões da casa de leilões Sotheby's, em Nova York, e que alguns especialistas acreditam ter sido roubada durante o tumulto da Guerra do Vietnã (1965-1975) e dos campos de extermínio do Khmer Vermelho (1975-1979).

A estátua, uma obra-prima de arenito estimada em US$ 2 milhões a US$ 3 milhões (R$ 3,4 milhões a R$ 5,1 milhões), foi retirada do leilão no último minuto, em março do ano passado, depois que o governo cambojano se queixou de que a estátua foi "retirada ilegalmente" do país.

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Pés da estátua que seria leiloada em NY são vistos em Koh Ker, no Camboja (21/02)

O Departamento de Segurança Interna abriu um inquérito, mas as autoridades cambojanas dizem ter interrompido as investigações optando por negociar diretamente com a Sotheby's para efetuar uma compra privada.

A casa de leilões diz que a vendedora é uma "nobre dama europeia" que adquiriu a estátua em 1975. Embora tenha sido arrancada e por isso não possua pés e tampouco seu pedestal, que foram deixados para trás em um local arqueológico remoto no Camboja, a Sotheby's diz que não há provas suficientes que indiquem que ela tenha sido retirada ilegalmente.

A disputa silenciosa sobre a relíquia revela quão instável pode ser o leilão de antiguidades com pedigrees incompletos ou contestados. Os vendedores que possuem uma crença baseada apenas na boa fé de seus direitos de propriedade entram em um meio em que ética e leis estão apenas evoluindo, os governos estão cada vez mais assertivos e advogados conhecedores de leis obscuras são tão necessários quanto guias na selva.

Jane A. Levine, vice-presidente sênior e diretora internacional da Sotheby's, afirmou que a casa de leilões tem plena "consciência de que existem opiniões muito divergentes sobre como resolver conflitos que envolvem objetos que são considerados patrimônio cultural".

"A abordagem da Sotheby's com a escultura do Khmer é a de manter um comportamento responsável e ético com o mercado e apoiar a cooperação internacional entre entidades públicas e privadas", disse.

A escultura, que mede 1,5 metros e pesa 115 quilos, faz parte de um par de atletas combatentes do século 900, que foram esculpidos como estando em um campo de batalha e vem de um templo localizado em Koh Ker. Ela é quase 200 anos mais velha do que as famosas esculturas de Angkor Wat.

Quando perguntada se existia a possibilidade de a estátua ter sido roubada, Levine rebateu dizendo que a estátua pode ter sido retirada em qualquer momento de sua história de mil anos e disse que a palavra “roubada” é muitas vezes usada de maneira muito “abrangente.”

Com uma coisa todos concordam: a estátua é uma obra-prima. A descrição do catálogo da Sotheby's a diz: "Se alguém pudesse escolher apenas uma escultura para representar a glória da arte do Khmer, esta obra poderia estar à altura de tal desafio."

Por Tom Mashberg e Ralph Blumenthal

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