Desespero leva afegãs a optar por suicídio com fogo

Repressão, maus-tratos frequentes e até mesmo doenças mentais não diagnosticadas estão entre as causas

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Mesmo as famílias mais pobres do Afeganistão têm fósforos e combustível para cozinhar. Essa combinação geralmente sustenta a vida, mas também pode ser uma terrível fuga: da pobreza, dos casamentos forçados, do abuso e do desânimo que representam o destino das mulheres afegãs.

Na noite anterior àquela em que se queimou, Gul Zada levou suas filhas à uma festa de família na casa de sua irmã. Tudo parecia bem. Mais tarde verificou-se que ela não tinha trazido um presente e um parente a repreendeu por isso, disse seu filho Juma Gul.

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Farzana (E) e sua mãe se preparam para ir a uma clínica privada em Herat, para tratamento de queimaduras
Esse pequeno evento aparentemente foi a gota d’água para ela. Gul, que tinha 45 anos, era mãe de seis filhos e ganhava deploravelmente pouco limpando casas, acabou com queimaduras em quase 60% de seu corpo no hospital especializado em queimados da cidade de Herat. A sobrevivência é difícil, mesmo com 40% do corpo intacto. "Ela queimou da cabeça aos pés", lembra o filho.

O hospital é o único centro médico no Afeganistão que trata especificamente das vítimas de queimaduras, uma forma comum de suicídio na região, em parte porque as ferramentas para fazê-lo estão prontamente disponíveis. No início de outubro, 75 mulheres foram internadas com queimaduras – a maioria autoinfligida. O número representa um crescimento de quase 30% em relação ao ano passado.

Os números, no entanto, dizem menos do que as histórias das pacientes. Em Herat é uma vergonha admitir problemas em casa e, muitas vezes, a doença não é diagnosticada ou tratada. Gul, segundo a equipe do hospital, provavelmente sofria de depressão.

Escolhas

As escolhas para as mulheres afegãs são extraordinariamente limitadas: sua família é seu destino. Há pouca chance de escolha, pouca opção sobre com quem uma mulher se casará, nenhuma escolha sobre seu papel dentro de sua própria casa. A principal tarefa é a de servir a família do marido. Fora desse mundo, ela é uma pária.

"Se você fugir de casa, você pode ser estuprada ou ir parar na cadeia e ser devolvida para casa. Imagine o que acontecerá com você então", disse Rachel Reid, pesquisadora do grupo Human Rights Watch que acompanha a violência contra as mulheres.

Fugitivas devolvidas são muitas vezes baleadas ou apunhaladas em assassinatos de honra, porque as famílias temem que elas tenha passado algum tempo desacompanhadas com um homem. Mulheres e meninas ainda são apedrejadas até a morte. Aquelas que se queimam, mas sobrevivem, são muitas vezes relegadas a existências de Cinderela, enquanto seus maridos se casam com outras mulheres imaculadas.

"A violência na vida das mulheres do Afeganistão vem de toda parte: do pai ou do irmão, do marido, do sogro, da sogra e da cunhada," disse  Shafiqa Eanin, cirurgião plástico do hospital.

Segundo médicos, enfermeiros e voluntários, os casos mais sinistros de queimadura são na verdade homicídios disfarçados de suicídios. "Nós temos duas mulheres aqui que foram queimadas pela sogra e pelo marido", contou Arif Jalali, cirurgião sênior do hospital.

Os médicos citaram também dois casos recentes em que as mulheres foram espancadas por seus maridos ou parentes, perderam a consciência e acordaram no hospital queimadas porque tinham sido empurradas em um forno ou incendiadas.

Renascimento

Para algumas das mulheres que sobrevivem às queimaduras, sejam elas autoinfligidas ou causadas por parentes, a experiência é uma espécie de renascimento que as ajuda a mudar suas vidas. Algumas trabalham com advogados recomendados pelo hospital e pedem o divórcio. A maioria não.

Noiva aos 8 anos e casada aos 12, Farzana colocou fogo em si mesma quando o sogro a menosprezou dizendo que ela não era corajosa o suficiente para fazê-lo. Ela tinha 17 anos e havia sofrido espancamentos e abusos de seu marido e sua família.

Desafiada e deprimida, ela foi para o quintal. Ela entregou sua filha de 9 meses de idade ao marido, para que o bebê não visse sua mãe queimando, e derramou combustível sobre si mesma. "Eu me senti tão triste e tinha tanta dor no meu coração, e muita raiva de meu marido e de meu sogro, que peguei os fósforos e acendi ", disse.

A história de Farzana é de desespero e relata os extremos que os parentes muitas vezes infligem às mulheres de seus filho. Estatísticas das Nações Unidas indicam que pelo menos 45% das mulheres afegãs casam antes dos 18 anos, sendo a maioria antes de completar 16 anos. Muitas meninas ainda são dadas como pagamento de dívidas, que sentencia o casal a uma vida de servidão e, quase sempre, abuso.

Com o histórico de uma aluna brilhante cujas matérias favoritas eram a língua Dari e poesia, Farzana sonhava em se tornar professora. Mas ela tinha sido prometida em casamento para o filho da família que estava oferecendo uma esposa para seu irmão. Quando fez 12 anos, os sogros insistiram que era hora de casar. Seu futuro marido havia acabado de fazer 14 anos.

"No dia do casamento, ele me bateu quando eu acordei e gritou comigo", ela disse."Ele ficava sempre do lado de sua mãe e usava palavras ruins a meu respeito".

As agressões duraram quatro anos. Então, o irmão de Farzana tomou uma segunda esposa, um insulto aos sogros de Farzana. Seus maus tratos foram agravados. Eles se recusaram a permitir que ela visse sua mãe e seu marido passou a bater nela com maior frequência.

"Eu pensei em fugir daquela casa, mas depois pensei: o que vai acontecer com o nome da minha família", disse. "Ninguém na nossa família pediu o divórcio. Então, como posso ser a primeira?", contou.

Médicos e enfermeiros dizem que, especialmente em casos que envolvem mulheres mais jovens, a sensação de aprisionamento, raiva e um desejo de envergonhar seus maridos para que cuidem delas se reúnem.

Foi o caso de Farzana.

*Por Alissa J. Rubin

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