Deserção ou dias de folga? Um iraquiano conta o seu lado da história

BAGDÁ - O capitão do exército iraquiano insistiu na quarta-feira que não havia desertado seus homens. Ele deixou seus 70 soldados em meio à uma batalha na cidade de Sadr no dia anterior para tirar merecidos e tardios três dias de folga.

The New York Times |

O capitão, que prefere permanecer anônimo por medo de represálias, afirmou que pretendia estender a folga para cinco dias, talvez mais. Ele não recebe seu salário há dois meses e estava sobrecarregado pelos problemas de comandar sua companhia, parte da primeira brigada, da 11º Divisão do Exército do Iraque. Ele considerou não voltar à batalha na cidade de Sadr.

A deserção de soldados iraquianos tem sido um problema durante as batalhas recentes em Basra e Sadr. O governo liberou 1300 soldados e policiais que desertaram em março durante combate. Na terça-feira outra companhia desistiu em meio à batalha na linha de frente em Sadr alegando que não tinha apoio adequado.

Cinco anos depois do início da tentativa americana de construir um exército iraquiano auto-sustentável esse tipo de falha é um retrocesso para as autoridades americanas e locais.

O capitão, que abandonou seus homens na terça-feira, disse que mesmo longe da batalha não tinha como escapar dos fardos do exército. Seu telefone toca incessantemente. Seus homens ligam diretamente da linha de batalha para avisar que, mais uma vez, não têm mais munições e pedir ajuda. Ele liga para outra unidade em Sadr e pede que munição seja transferida.

O telefone toca novamente, ele diz. Era a milícia Mahdi, que estava no outro lado do combate.

"Sabemos onde você mora", dizem.

"Se vierem até a minha casa irão matar toda a minha família", ele afirma.

No telefone eles passaram uma lista de nomes de homens de seu batalhão. "Nem eu tenho acesso a isso", ele diz. "Eles só podem ter conseguido isso com meus superiores. Os superiores são ladrões".

Ele passou a andar com a arma engatilhada, pronto para ser atacado.

O plano dos Estados Unidos tem sido deixar os iraquianos liderarem os combates, com soldados americanos em tropas de apoio. Mas o capitão iraquiano diz que seus homens não são pários para a milícia, que está fortemente armada: "A Mahdi tem esquipamentos muito melhores que os nossos".

Segundo ele a maioria de seus homens tem apenas dois pentes de 30 munições cada, que valem menos de US$12 nas rua da capital.

"Durante a batalha as balas dos meus soldados terminam antes que eles tenham parado de combater", ele conta. Já as milícias têm morteiros, lança-granadas e metralhadoras de peso, ele diz, "três das minhas seis metralhadoras não funcionam e não tenho nenhum morteiro".

Pior que isso são os aparatos explosivos improvisados que se alinham nas calçadas e ruas e encheram seus homens de estilhaços.

Sua companhia já estava com menos da metade de sua força e diminuindo diariamente. Chegou a 70 homens de uma lista inicial de 150. Cinco foram feridos na semana passada, outros emprestados à outras companhias. Agora há o problema da deserção, que piorou com os telefonemas da milícia Madhi a seus homens.

"A maioria de meus soldados tem família em Sadr", ele disse. "Suas tribos e primos e familiares estão lá. Eles não podem combater em Sadr".

Quando questionado a respeito do batalhão que desertou em peso na terça-feira ele se mostra simpático.

"O comandante acusa a companhia de deserção", ele diz. "Mas ele não está lá combatendo. Minha companhia também estava sozinha, cercada e combatendo durante três horas na noite de segunda-feira. Ninguém veio nos ajudar. Meus homens perderam a coragem. O clima estava muito tenso. Eu tentei encorajá-los".

Por mais que não quisesse deixar seus homens, ele não tem certeza de que voltará.

"É muito difícil. Acho que vou pedir demissão", ele afirmou.

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