Descobrindo evidências de um mundo comum ao longo do Nilo

Por muito tempo, arqueólogos têm fixado suas visões no esplendor do antigo Egito, as pirâmides, templos e tumbas. Poucos se importaram em cavar mais ao sul e além das pedras monumentais, em busca dos espaços de moradia e trabalho dos egípcios comuns.

The New York Times |

Isso está mudando lentamente. Nas últimas duas ou três décadas, escavações têm descoberto restos urbanos e distantes da idéia convencional de que o Egito dos faraós, ao contrário da Mesopotâmia, era uma civilização sem cidades.

Agora nós podemos confirmar que esse não era o caso, diz Nadine Moeller, uma egiptóloga do Instituto Oriental da Universidade de Chicago. Moeller estava falando de suas próprias descobertas recentes, assim como daquelas de outros escavadores especializados em arqueologia de assentamento.

Ela descreve a descoberta de um grande edifício administrativo e sete silos de grãos enterrados no sítio de uma antiga capital provinciana no Nilo Superior. Os silos redondos parcialmente preservados, com mais de 3.500 anos, parecem ser as maiores caixas de armazenamento conhecidas do Egito antigo. Impressões de selos e outros artefatos associados a produtos de consumo colocam uma data de certa forma mais antiga para o edifício central, com pelo menos 16 colunas.

Um anúncio oficial da descoberta foi feito por Zahi Hawass, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades no Egito. Ele é conhecido pela mais espetacular pesquisa sobre múmias e tumbas, mas agora está estimulando uma maior atenção para a exploração de assentamento.

Esse é realmente um sítio incrível, no topo da arqueologia egípcia recente, diz Stuart Tyson Smith da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, que não esteve envolvido no projeto. Escavando em cidades, você tem a escala completa da vida, e não a visão limitada da sociedade vista de cima, dos ricos e da elite.

Mark Lehner, um egiptólogo que descobriu resíduos de povoações de trabalhadores que construíram as pirâmides em Giza, diz ter inspecionado, no sítio de Moeller, camadas de sedimentos que mostravam ocupação retroativa em 5.000 anos até o surgimento da civilização egípcia, indo até o período islâmico no primeiro milênio d.C. Os silos estão próximos de ruínas de templos de aproximadamente 300 a.C.

Onde havia templos, estamos aprendendo, eles eram rodeados por cidades que foram geralmente negligenciadas, diz Lehner.

O local da descoberta recente fica em Tell Edfu, na metade do caminho entre as cidades modernas de Aswan e Luxor (Tebas na antiguidade). Por muito tempo da história egípcia, o governo central ficava em Memphis, ao norte, ou em Tebas. A cidade em Tell Edfu era um importante centro regional fortemente ligado a Tebas.

Moeller e um time de arqueólogos europeus e egípcios começaram escavações perto do templo em 2005. Eles expuseram um grande pátio cercado de paredes de tijolos de barro. Por baixo do pátio, eles encontraram fundações dos primeiros três de sete silos. A partir dos artefatos, os arqueólogos dataram os silos como sendo da 17ª dinastia, 1630 a.C. a 1520 a.C.

Essas caixas de armazenamento, presumivelmente para cevada e trigo usados para alimentação e como meio de troca, foram construídas com tijolos de barro, com diâmetros de 18 a 22 pés. Se sua altura fosse maior que o diâmetro, o que era comum, os silos provavelmente teriam pelo menos 25 pés de altura.

Seu tamanho foi uma surpresa, como nada que havíamos encontrado antes, certamente não em um centro de cidade, diz Moeller.

Nos últimos três anos, o time escavou as bases das colunas e câmaras do que eles acreditavam ser o centro administrativo da cidade. O desenho do edifício sugere que ele possa ter sido parte do palácio do governador, e artefatos o marcam como o coração econômico da cidade.

Impressões de selos, que estabeleceram a existência do prédio na 13ª dinastia, 1773 a.C. a 1650 a.C., indicam seu uso na identificação de diferentes produtos de consumo. Alguns selos mostram padrões ornamentais de espirais e símbolos hieroglíficos pertencentes a diversos funcionários. Arqueólogos dizem que isso evidencia as atividades no prédio, como contabilidade e abertura e fechamento de caixas e jarros de cerâmica no curso de transações comerciais.

O trabalho em Edfu é importante por permitir que examinemos o Egito antigo como uma sociedade urbana, diz Gil Stein, diretor do Instituto Oriental.

Como especialista em arqueologia mesopotâmica, Stein registrou a hipótese de que o vale dos rios Tigre e Eufrates era uma terra de cidades e o Egito era algo diferente, porque no Egito nós não estávamos procurando cidades.

Egiptólogos creditam a Manfred Bietak da Universidade de Viena, Barry Kemp da Universidade Cambridge na Inglaterra e Lehner, agora com a Ancient Egypt Research Associates em Boston, a liderança na pesquisa de escavação em busca de conhecimento sobre a vida urbana diária ao longo do Nilo. É um clube pequeno, mas estamos conquistando novos adeptos, diz Smith.

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